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A Universidade que Nasceu sem Perguntas

Reinaldo de Mattos Corrêa –

Há instituições que não atravessam perdas, mas já emergem a partir de delimitações. Quando uma universidade é estruturada sem a presença da Filosofia como graduação, não ocorre retirada posterior, mas definição inicial do campo do saber. Desde a origem, estabelece-se um horizonte em que determinadas formas de pensamento não encontram reconhecimento institucional.

Essa condição inaugural não se reduz a uma decisão técnica ou neutra. Ao organizar cursos e trajetórias formativas, a instituição delimita também aquilo que pode ser legitimamente buscado como conhecimento. A ausência da Filosofia, nesse cenário, funciona como um enunciado silencioso sobre o lugar do pensamento reflexivo dentro da hierarquia acadêmica.

Não se trata de lacuna fortuita, mas de efeito de práticas e discursos que orientam a construção universitária. A centralidade recai sobre áreas associadas à produtividade mensurável e à resposta imediata a demandas econômicas. Em contrapartida, saberes voltados à análise dos próprios critérios de valor permanecem fora da estrutura oficial.

Constitui-se, assim, um ambiente em que o conhecimento circula com eficiência operacional, mas dentro de limites pouco problematizados. Estudantes são preparados para executar, aplicar e responder a questões previamente definidas. A investigação sobre a origem dessas questões e sobre os valores que as sustentam aparece de forma fragmentada.

A linguagem institucional reforça esse arranjo ao privilegiar termos como desempenho, inovação e empregabilidade. Essas categorias não apenas orientam objetivos, mas moldam o horizonte do pensável, estabelecendo parâmetros que raramente são interrogados. A aparência de neutralidade contribui para que operem como evidências incontestadas.

Sem um espaço dedicado à análise sistemática dessas categorias, elas se estabilizam como fundamentos implícitos. Aquilo que poderia ser objeto de debate transforma-se em base silenciosa das decisões. A universidade, desse modo, não apenas transmite saberes, mas consolida um modo específico de compreendê-los.

Esse processo ocorre por meio de práticas cotidianas, mais do que por imposições explícitas. A comunidade acadêmica aprende a reconhecer quais perguntas são consideradas pertinentes e quais parecem deslocadas. O resultado não é um silêncio imposto, mas uma economia discursiva que limita a emergência de certas problematizações.

Nesse contexto, o argumento da utilidade imediata adquire força organizadora. A legitimidade de cursos passa a ser avaliada principalmente pela inserção em circuitos econômicos visíveis. Essa lógica, apresentada como pragmática, repousa sobre uma concepção particular de educação que raramente é examinada em profundidade.

A ausência desse exame indica um deslocamento significativo. A universidade deixa de operar como espaço de deliberação sobre os fins do conhecimento e passa a funcionar como instância de adaptação a demandas externas. O pensamento, em vez de interrogar essas demandas, tende a acompanhá-las.

Instala-se, então, uma forma de limitação que não aparece em indicadores quantitativos. Trata-se de uma redução da capacidade de estranhamento, da possibilidade de perceber que aquilo que se apresenta como necessário poderia ser diferente. O campo do possível se estreita de maneira gradual.

As decisões institucionais refletem essa dinâmica ao serem apresentadas como respostas técnicas inevitáveis. Reformas curriculares e definições estratégicas são justificadas por critérios que parecem autoevidentes. No entanto, tais critérios envolvem escolhas que permanecem pouco explicitadas.

A Filosofia, enquanto formação estruturada, introduz uma descontinuidade nesse processo. A presença dessa formação cria um espaço em que conceitos, valores e fundamentos podem ser analisados de forma sistemática. Não se trata de fornecer respostas prontas, mas de tornar visíveis as condições que tornam certas respostas aceitáveis.

A inexistência desse espaço produz um efeito de homogeneização intelectual. Diferentes áreas continuam a existir, mas compartilham um mesmo quadro de referências pouco interrogado. A diversidade de objetos não se traduz em diversidade de modos de problematizar.

Essa homogeneização afeta também a relação entre conhecimento e poder. Quando os critérios que orientam a produção de saber não são discutidos, tornam-se mais difíceis de contestar. O poder circula de forma mais discreta, apresentando-se como simples gestão de evidências.

A experiência intelectual, nesse contexto, tende a se transformar. Pensar passa a significar resolver problemas definidos dentro de parâmetros estabelecidos, enquanto a dúvida sobre esses parâmetros perde espaço. O exercício do pensamento aproxima-se da execução eficiente.

Defender a criação de uma graduação em Filosofia não equivale a acrescentar um elemento decorativo. Trata-se de reconfigurar o campo do possível dentro da universidade, abrindo espaço para interrogações que hoje não encontram lugar institucional. Esse gesto altera não apenas o currículo, mas a relação com o saber.

Uma universidade que incorpora essa dimensão amplia a capacidade de refletir sobre as condições que orientam práticas acadêmicas. Ao reconhecer a historicidade e a contingência de escolhas institucionais, torna-se menos dependente de evidências não examinadas. O pensamento passa a incluir também a análise de limites.

O que está em jogo não é apenas a criação de um curso, mas a introdução de uma prática contínua de problematização. Sem essa prática, a instituição tende a consolidar uma forma de funcionamento em que a ordem aparece como natural. Com ela, torna-se possível revelar aquilo que operava de modo silencioso.

Assim, uma universidade concebida sem Filosofia não carrega apenas uma ausência, mas um modo específico de organizar o saber. A implantação dessa graduação não corrige apenas uma lacuna; transforma a própria textura do pensamento institucional. E, nesse movimento, restitui à formação acadêmica a capacidade de interrogar as condições que a tornam possível.

Reinaldo Corrêa de Mattos é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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