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A Universidade que apagou a luz

Reinaldo de Mattos Corrêa –

Existe uma modalidade silenciosa de violência institucional que não deixa marcas visíveis, não aciona câmeras de segurança e não figura em relatórios de ouvidoria. Ela se comete, com assombrosa naturalidade, toda vez que uma universidade abre as portas para milhares de jovens ansiosos por compreender o mundo e decide, deliberadamente, que esses jovens não precisam de Filosofia. Não de Filosofia como adorno, como disciplina optativa de três créditos trancada numa grade curricular esquecida, mas de Filosofia como graduação plena, como caminho formativo reconhecido, como espaço institucional onde o pensamento é o próprio objeto de estudo.

A ausência não é neutra. Quando uma universidade cataloga centenas de cursos de graduação e entre eles não consta Filosofia, essa omissão faz uma afirmação filosófica — involuntária, mas eloquente: a de que pensar criticamente não merece o mesmo investimento que vender, contabilizar ou codificar. A instituição, ao modelar o catálogo de possibilidades humanas que oferece à sociedade, decreta uma hierarquia do saber. E nessa hierarquia, o pensamento reflexivo ocupa o porão.

Um curso de Filosofia não fabrica filósofos no sentido estrito da palavra, assim como um curso de Medicina não fabrica deuses. O que a graduação em Filosofia produz — e que nenhum outro curso substitui com a mesma profundidade — é uma cultura do argumento. Os estudantes aprendem a desmontar proposições, a rastrear premissas ocultas, a distinguir o que é dito do que é pressuposto. Aprendem, sobretudo, a não se contentar com a primeira resposta que uma autoridade entrega embrulhada em papel brilhante. Essa competência não é ornamental: é a base sobre a qual qualquer democracia funcional precisa ser erguida.

Há também uma perda de ordem estética e civilizatória. O contato sistemático com Platão, com Spinoza, com Kant, com Simone de Beauvoir, com Frantz Fanon, não é uma viagem turística ao museu das ideias mortas. É uma conversa viva com as perguntas que a humanidade ainda não conseguiu responder — e que, por essa razão, continuam a definir o que significa ser humano em cada época. Uma universidade que suprime esse diálogo não está sendo pragmática; está sendo míope. Está produzindo egressos que sabem executar, mas que raramente perguntam por quê aquilo que executam merece ser executado.

O raciocínio mais frequente para justificar a ausência de Filosofia é o da utilidade imediata: o mercado de trabalho não absorve filósofos, os índices de empregabilidade são baixos, a demanda social por esse tipo de formação é residual. Esse argumento parece robusto até o momento em que se percebe que ele é, em si mesmo, um argumento filosófico — e um argumento ruim. Ele pressupõe que o valor de um curso de graduação se mede exclusivamente pela capacidade de inserção imediata no mercado, o que é uma tese sobre a natureza e os fins da educação, portanto uma tese que requer exame filosófico. Rejeitar a Filosofia com base num critério utilitário é usar filosofia tacitamente enquanto finge que ela não existe.

Além disso, a premissa empírica do argumento é questionável. Empresas de tecnologia, consultorias estratégicas, organizações do terceiro setor e órgãos públicos têm descoberto, com crescente frequência, que o pensador treinado filosoficamente é extraordinariamente valioso quando o problema a resolver é complexo, ambíguo, saturado de interesses em conflito. Não porque o filósofo conheça a resposta, mas porque sabe que as perguntas precisam ser feitas com muito mais cuidado do que o habitual. Em um mundo em que a inteligência artificial automatiza as respostas previsíveis, a habilidade de formular perguntas imprevisíveis torna-se um diferencial competitivo concreto.

Existem formas de pobreza que os rankings de universidades não conseguem medir. Nenhum indicador de produtividade acadêmica, nenhum índice de impacto de citações, nenhum relatório de sustentabilidade financeira captura adequadamente a miséria intelectual de uma comunidade universitária que não tem onde discutir, de modo rigoroso e permanente, os fundamentos éticos das próprias pesquisas que produz. O biólogo que nunca precisou refletir sobre bioética, o economista que nunca foi confrontado com as premissas antropológicas dos modelos que utiliza, o jornalista que nunca trabalhou o conceito de verdade com profundidade filosófica — todos carregam lacunas que a excelência técnica não fecha.

Essa pobreza se manifesta de formas insidiosas no cotidiano institucional. Comitês de ética que reproduzem formulários sem debater princípios. Reformas curriculares conduzidas sem qualquer discussão sobre o que é conhecimento e para que ele serve. Decisões administrativas tomadas em nome de valores que ninguém precisou articular publicamente, porque a instituição não criou o espaço nem formou as pessoas capazes de fazê-lo. A ausência de Filosofia não deixa o ambiente intelectual neutro — deixa-o vagarosamente mais pobre, mais técnico e mais dócil diante do poder.

Uma das funções menos celebradas da Filosofia — e talvez a mais indispensável — é a de proteger as instituições delas mesmas. O pensamento filosófico institucionalizado é um anticorpo contra a autossuficiência intelectual, contra o entusiasmo acrítico com modas acadêmicas, contra a servilidade da pesquisa aos interesses do financiamento. Um departamento de Filosofia ativo e respeitado é, em certa medida, uma consciência crítica dentro do organismo universitário — incômoda, por vezes inconveniente, mas absolutamente necessária para que a instituição não se torne apenas um serviço prestado ao capital.

É revelador que as universidades mais capturadas por lógicas puramente mercantis sejam precisamente aquelas que mais rapidamente descartaram as humanidades em geral e a Filosofia em particular. Não é coincidência: o pensamento crítico organizado é um obstáculo para a administração por indicadores. Quando uma reitoria precisa justificar cortes, fusões e mudanças estratégicas sem ter que passar pelo crivo de uma comunidade treinada para exigir fundamentos, a tarefa é consideravelmente mais simples. A Filosofia incomoda — e as instituições que a suprimem sabem exatamente o que estão fazendo.

Reconhecer a pobreza não é o mesmo que resignar-se a ela. Universidades são instituições deliberativas, capazes de rever decisões, reformar currículos e assumir novos compromissos com a formação humana integral. A abertura de um curso de graduação em Filosofia não é uma concessão generosa ao passado: é um investimento no presente e uma declaração de princípios sobre o futuro. É a afirmação de que a instituição acredita, com seriedade, que pensar bem é tão importante quanto agir rápido — e que os dois, longe de se excluírem, precisam urgentemente um do outro.

A comunidade que pressiona por essa abertura — estudantes, professores de outras áreas, egressos que sentiram a falta, cidadãos que entendem o papel social da universidade — não está pedindo um favor cultural. Está exercendo uma função cívica. Está dizendo, com clareza, que uma instituição que pretende formar cidadãos para o século XXI não pode se dar ao luxo de entregar ao mercado pessoas tecnicamente competentes e filosoficamente analfabetas. O analfabetismo filosófico não dói imediatamente, como dói a fome ou a doença. Mas corrói, lento e profundo, a capacidade coletiva de imaginar mundos diferentes do que existe — e essa capacidade é o que separa uma sociedade que pensa de uma sociedade que apenas obedece.

No fim, a questão não é apenas sobre Filosofia. É sobre o tipo de seres humanos que uma universidade se propõe a formar. Se a resposta for: profissionais eficientes, adaptados, prontos para o mercado — então a Filosofia é mesmo dispensável, e a universidade é coerente com essa escolha, ainda que seja uma escolha empobrecedora. Mas se a resposta for: pessoas capazes de pensar com liberdade, de questionar com rigor, de habitar o mundo com espanto e responsabilidade — então a Filosofia não é um detalhe curricular. É a espinha dorsal de tudo o mais.

Uma universidade sem Filosofia é como uma biblioteca sem silêncio: ainda funciona, ainda armazena informação, ainda presta um serviço reconhecível. Mas perdeu algo que não aparece em nenhum inventário e que, uma vez perdido, custa gerações para ser recuperado. Aquela luz que deveria iluminar o interior de tudo — a pergunta sobre o sentido — foi apagada. E o que mais inquieta não é a escuridão em si, mas o fato de que, quando a luz some aos poucos, as pessoas se acostumam ao escuro e passam a chamar isso de realismo.

Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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