Líder extremista responsável pelo genocídio em Gaza esperneia e usa a mesma retórica de Trump e da família Bolsonaro, enquanto aguarda acordo da oposição com partidos árabes para ser expurgado do cargo
Por: Henrique Rodrigues, Revista Fórum –
Encurralado pelo avanço das oposições e sem margem para construir uma maioria no parlamento, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, recorreu nesta quarta-feira (28) ao expediente mais conhecido da extrema direita global: denunciar, sem provas, que o processo eleitoral do país foi “roubado”. A reação colérica ocorre no momento em que a contagem dos votos das eleições legislativas indica a inviabilidade de sua permanência à frente do Executivo, abrindo caminho para que uma coalizão entre o bloco oposicionista e partidos de representação árabe alcance os 61 assentos necessários para expulsá-lo do cargo.
Isolado e sob severa pressão internacional devido ao genocídio perpetrado contra a população palestina na Faixa de Gaza, o premiê viu desmoronar as chances de consolidar uma base governista estável na Knesset. Ao perceber que os números oficiais inviabilizam a sua continuidade na chefia do governo, Netanyahu acionou o método consagrado por figuras como Donald Trump nos EUA e a família Bolsonaro no Brasil, disparando acusações infundadas de fraudes, conspirações e manipulação tecnológica contra as instituições eleitorais do próprio país.
Retórica do golpe e o ataque colérico no X
Em uma série de publicações ostensivas e repletas de pânico no X (antigo Twitter), Netanyahu atacou frontalmente o Comitê Central Eleitoral, a polícia e o serviço de inteligência interno (Shin Bet). O premiê acusou as legendas árabes de orquestrarem uma suposta operação criminosa para tomar as urnas, evidenciando seu desespero ao ver o poder escorrer pelas mãos:
“As eleições no Estado de Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a eliminação do Estado judaico por meio de crimes penais graves de suborno, ameaças, violência, falsificações e uso de softwares proibidos para mobilização de eleitores.”
— Benjamin Netanyahu, em publicação no X.
A manobra discursiva e o descontrole verborrágico continuaram quando o líder extremista tentou pressionar os órgãos de segurança pública e de inteligência a intervir no resultado apurado pelas urnas:
“O Partido Likud está enviando à polícia, ao Shin Bet e ao Comitê Central Eleitoral centenas de testemunhos e evidências de roubo de eleições em muitas seções eleitorais árabes — milhares de envelopes com dinheiro em espécie e votos da Ra’am, ameaças e violência contra membros das seções eleitorais, múltiplos eleitores atrás do biombo, votações em dupla identidade (…). Isso é um ataque grave à democracia israelense e ao direito de voto dos cidadãos de Israel. Os órgãos de aplicação da lei devem agir com mão de ferro e de forma imediata.”
— Benjamin Netanyahu, ao acusar fraude sem provas no X.
A investida busca deslegitimar a participação política da minoria árabe e criar uma narrativa de vitimização junto à sua base radicalizada. O movimento mimetiza com precisão o roteiro adotado pela extrema direita em outras partes do globo quando derrotada ou encurralada: desacreditar o sistema de apuração, atacar as autoridades independentes e incitar a desconfiança popular como última cartada para se manter no poder a qualquer custo.
Aritmética parlamentar do expurgo
Apesar das investidas retóricas do premiê e de o seu partido, o Likud, ter conquistado 26 assentos isoladamente, a matemática eleitoral aponta para um impasse que favorece os adversários do regime. Com o avanço do escrutínio oficial superando a marca de 85%, o bloco extremista e ultraortodoxo fiel a Netanyahu soma apenas 53 cadeiras, número insuficiente para atingir a maioria absoluta do Parlamento de 120 lugares, mesmo após a apuração das urnas nos centros urbanos.
“Diante de um governo de sangue, diante de uma política de supremacia, racismo e exclusão, oferecemos uma alternativa completamente diferente. A mudança passa por uma parceria judaico-árabe, uma aliança real e igualitária.”
— Youssef Jabareen, líder da Lista Conjunta.
A chave para o encerramento da era Netanyahu está nas mãos da bancada árabe. A esquerdista Lista Conjunta e o grupo islamista moderado Ra’am obtiveram, juntos, 19 deputados, a maior bancada histórica de sua representação. Embora rejeitem qualquer tipo de composição com o atual primeiro-ministro, as lideranças árabes sinalizaram abertura decisiva para negociar com o “bloco da mudança”, encabeçado pelo general reformado Gadi Eisenkot. A articulação entre a oposição pragmática e as legendas de matriz árabe pavimenta a construção de um pacto inédito para destituir o atual governo e impor uma derrota definitiva ao projeto ultranacionalista de Netanyahu.
Ocaso de um regime sob pressão
Durante a apuração na sede do Likud, em Jerusalém, o primeiro-ministro ainda tentou demonstrar força perante apoiadores militantes. Promoveu discursos inflamados sobre supostas vitórias geopolíticas contra o Irã e fez acenos ao presidente norte-americano Donald Trump, buscando direcionar a atenção do eleitorado para a pauta militarista. Contudo, a tentativa de reanimar a militância não esconde a fragilidade institucional do chefe de governo.
Sem maioria no parlamento, atolado em processos por corrupção e encurralado pela articulação entre a oposição e os partidos árabes, Netanyahu vê seu espaço de manobra encolher drasticamente. O desespero refletido nas acusações infundadas de fraude nas redes sociais expõe não apenas o esgotamento do seu modelo de poder, mas o prenúncio de uma transição política marcada pelo expurgo do líder extremista da cena governamental de Israel. Resta saber se, quando efetivamente seu destino estiver selado, ele também fugirá para os EUA sob as asas de Trump.





