Pedro Machado Mastrobuono –
Presidente da Fundação Memorial da América Latina (*)
Este texto nasce de uma perplexidade difícil de nomear, aquela que surge quando um vínculo profundo se transforma de tal maneira que já não se reconhece no outro aquilo que um dia o sustentou.
Há uma perplexidade que não encontra linguagem imediata.
Ela não nasce no momento do conflito, mas depois, quando tudo já aconteceu e ainda assim não se consegue compreender em que ponto exato algo mudou. Como se a relação tivesse atravessado uma linha invisível, sem anúncio, sem ruptura clara, e, ao olhar para trás, já não fosse possível localizar o instante em que aquilo que era confiança passou a ser outra coisa.
Talvez toda relação carregue, desde o início, essa possibilidade silenciosa. Não a de terminar, mas a de se deslocar. Como se houvesse, no interior de cada vínculo, uma espécie de tempo próprio, independente da vontade, que decide quando algo deixa de ser o que era, mesmo que nada, à superfície, pareça justificar essa mudança.
E há algo quase metafísico nisso. Porque não se trata de um gesto, nem de uma escolha claramente identificável, mas de uma transformação de sentido. Aquilo que existia continua existindo, e ainda assim já não é o mesmo.
O que permanece difícil de aceitar não é o afastamento. É o deslocamento.
Há algo profundamente desconcertante em perceber que, em determinado momento, aquele que ocupava o lugar de referência passa a ser reposicionado como obstáculo. Não por um gesto explícito, mas por uma narrativa que se constrói aos poucos, que reorganiza o passado, que redistribui os papéis até que o que foi vivido já não sustente mais a mesma leitura. Como se a memória deixasse de ser lugar de encontro e passasse a ser território de reconstrução.
E talvez seja esse o ponto mais doloroso.
Não o que se perde, mas o que se altera sem aviso.
Há experiências em que não há ruptura, mas uma espécie de deslizamento do real, quase imperceptível, em que aquilo que parecia firme se desloca alguns milímetros, e esse pequeno deslocamento já é suficiente para que tudo deixe de coincidir.
E então surge uma pergunta que não se responde com facilidade.
Em que momento alguém deixa de ser aquele que abriu caminhos e passa a ser aquele de quem é preciso se afastar? Não há, na maior parte das vezes, um ponto preciso. Não há um acontecimento que justifique a mudança. Há, antes, uma reescrita silenciosa, em que a memória deixa de operar como reconhecimento e passa a operar como ajuste. O passado não é negado. Ele é reorganizado. E, ao ser reorganizado, perde sua densidade original.
Há também uma outra dimensão, mais difícil de admitir. A ausência de luto. Quando uma relação se rompe de forma abrupta, espera-se, ainda que em silêncio, algum sinal de que aquilo que existiu deixou marcas. Não necessariamente um gesto de retorno, mas ao menos um reconhecimento de perda.
Quando isso não acontece, instala-se uma sensação estranha.
Como se o vínculo tivesse sido atravessado de maneiras profundamente diferentes. De um lado, há permanência. Do outro, há substituição. E é nesse desencontro que a perplexidade se instala com maior força, porque aquilo que, para um, foi história, para o outro parece ter sido apenas circunstância.
Talvez não se trate, no fim, de compreender o momento da mudança.
Talvez se trate de aceitar que há experiências que não se organizam no tempo como continuidade, mas como ruptura de sentido. E que, nesse tipo de ruptura, aquilo que um ainda sustenta como realidade, o outro já não reconhece como parte de si.
Há, então, uma dor que não é apenas da perda. É a dor de perceber que aquilo que foi vivido deixou de existir como verdade compartilhada. E talvez seja isso o que mais desorienta. Não a ausência do outro. Mas a ausência de um mundo comum.
E talvez seja esse o ponto mais desorientador, falar como quem ainda espera ser ouvido por alguém que já não responde, como se, dentro do mesmo corpo, aquilo que um dia foi vínculo tivesse sido silenciosamente substituído.
A perda mais profunda, então, talvez não seja a do outro, mas a de um mundo compartilhado que, sem aviso, deixou de existir. E permanece uma pergunta que não encontra resposta, foi isso uma transformação, ou apenas a revelação tardia de algo que sempre esteve ali, e que, por muito tempo, não se quis ver?
(*) Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do IBRAM -Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É também doutor honoris causa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.





