João Roberto Giacomini – Advogado e Escritor
O peso e a alma não se equilibram com agulhas
Houve um tempo em que os milagres vinham em garrafas de fé. Hoje, eles vêm na forma de uma caneta. Caneta azul? Não. Chamam de Ozempic. Outros preferem Wegovy. Há até quem espere pela nova promessa pós Mounjaro.
Os nomes mudam. A esperança permanece. A humanidade sempre procurou atalhos para a dor. O peso está entre as dores mais evidentes — e as mais julgadas. Durante décadas, dizia-se que os obesos careciam de força de vontade. Agora, afirmam que lhes faltavam hormônios.
Há um abismo — e também alívio — entre a culpa moral e a explicação bioquímica.
A ciência descobriu que a saciedade pode ser modulada. O corpo é mais do que disciplina; é química. Existem circuitos de recompensa mais antigos que a culpa. Isso é progresso. É sério. É real. Mas toda ferramenta poderosa carrega uma tentação antiga: a caneta é um instrumento de execução.
No entanto, nenhuma execução substitui a sentença interna que precisamos pronunciar sobre nossos próprios hábitos.
A caneta silencia a fome, mas não ensina a escolher. Reduz o apetite, mas não cria virtude. Facilita a perda de peso, mas não dispensa o movimento.
Nenhum médico responsável promete um milagre sem uma contrapartida — recomenda-se abandonar o sedentarismo, ajustar a dieta e rever excessos. Não se trata de “comer de tudo”; trata-se de reaprender a relação com o que se come. A agulha ajuda, mas não absolve.
E há outra questão, mais incômoda: e depois? Quando o estímulo químico age, o corpo responde. Mas o metabolismo tem memória. O desejo também. Alguns já anunciam que o Ozempic é coisa do passado, que novas moléculas estão surgindo, mais potentes, mais eficazes, mais promissoras.
A indústria corre na velocidade da esperança humana. Mas nenhuma inovação elimina a questão estrutural: estamos apenas tratando o peso — ou o vazio que o peso tenta preencher?
A obesidade é uma doença, mas também é um sintoma cultural. Vivemos em uma era de abundância alimentar e escassez de tempo; de estímulos infinitos e movimento mínimo; de ansiedade crônica e recompensa instantânea. Comer tornou-se anestesia portátil. Esta pequena caneta não criou isso. Também não resolve. Pode salvar vidas — e salva. Reduz o diabetes, melhora os marcadores metabólicos e diminui os riscos cardiovasculares. Isso é ciência, não propaganda.
O perigo não está na molécula; está na crença de que ela substituirá a responsabilidade, o cuidado contínuo, o exercício e a revisão de hábitos. Talvez o maior mérito desses medicamentos seja outro: eles tiram a discussão do campo da culpa e a trazem para o campo da saúde. Mas saúde nunca foi ausência de esforço. A promessa de uma cura definitiva é sedutora. A realidade é menos cinematográfica: o tratamento é um processo.
O futuro trará novos medicamentos. Talvez mais eficazes. Talvez mais seguros. Talvez mais caros. Mas nenhuma tecnologia eliminará a condição humana de ter que escolher todos os dias.
No final, a agulha pode reduzir o peso do corpo. O peso das decisões continua sendo nosso.
E talvez esse seja o ponto mais filosófico de todos: não estamos apenas buscando perder peso.
Buscamos leveza. E leveza, nenhuma farmácia entrega pronta.

