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A Igreja Católica é a única Igreja verdadeira?

Pergunta – 20/08/2007

Os questionamentos são direcionados para um debate teológico de dupla face: um debate amplo entre cristãos/ãs (uma discussão inter-confessional) e um debate teológico interno (uma discussão dentro da própria Igreja Romana). Procurarei me deter, mais especificamente, ao debate teológico amplo, embora não me furtarei em opinar sobre as duas questões que dizem respeito ao âmbito interno da Igreja Católica Romana.
O parecer exposto pelo referido documento me deixou triste… mas, como pesquisador da Igreja, não me surpreendeu. Sempre soube que esta era e é a posição oficial da Igreja Católica Romana, agora ratificada pelo novo Papa. Este sentimento não me ocorreu pela dúvida de pertencer ou não a igreja, pois não tenho qualquer dúvida disto! Sou membro da Igreja de Jesus, comprometido com os valores de seu Reino e do evangelho santo. Mas a tristeza veio, mais uma vez, por perceber que a postura radical, acompanhada de uma “sede de poder” continua tentando frustrar os projetos do Reino de Deus no mundo.
O debate teológico em questão discute a origem, a natureza, a identidade e a autoridade na Igreja Cristã. Para entender esta discussão de séculos de história é necessário identificar quando falamos das Escrituras Sagradas e seus valores ou quando pensamos na Tradição e na história institucional da organização Igreja Cristã. Por estas razões proponho um estudo nos documentos da Igreja Católica Romana, pois são eles que estão sendo discutidos.
Ao se estudar os documentos da Igreja Católica Romana, encontramos conceitos bíblicos claros que são professados em todas as demais Igrejas Cristãs (confissões e comunidades), como por exemplo: A Igreja é uma união universal dos redimidos pela fé em Jesus Cristo – que pela “vontade salvífica do Pai” aqueles que “crêem em Cristo, decidiu chamá-los à santa Igreja” que “desde o justo Abel até ao último eleito’ se reunirão em Igreja Universal junto ao Pai” (Constituição dogmática Lumen Gentium – A Vontade Salvífica do Pai).
No entanto, no estudo dos mesmos documentos encontramos diferenças, baseadas na Tradição Romana, que as demais Igrejas Cristãs (confissões e comunidades) não admitem esses valores. Nestes, a Igreja Romana se vê como possuidora de uma autoridade superior (histórico-traditiva) e que, por isso, as demais Igrejas Cristãs deveriam se submeter e se purificar. Por exemplo: Afirma a Tradição como fonte de autoridade ao lado das Escrituras – “Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação” (Constituição dogmática Lumen Gentium – A Necessidade da Igreja). Afirma ser sacramento universal necessário para a salvação – “só na Igreja católica é que ocorre a plenitude dos meios de salvação, legados por Jesus aos homens, mediante os apóstolos (PUEBLA, p.136-137). Ensina que a Igreja Católica Romana “é necessária para a salvação (…) não poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar” (Constituição dogmática Lumen Gentium – Os fiéis católicos; a necessidade da Igreja). Esperam o retorno dos demais cristãos ao seu redil (autoridade) – “o Espírito suscita em todos os discípulos de Cristo o desejo e a prática efectiva em vista de que todos (…) se unam pacificamente num só rebanho sob um só pastor. Para este fim, não deixa nossa mãe a Igreja de orar, esperar e agir…” (Constituição dogmática Lumen Gentium – Vínculos da Igreja com os cristãos não católicos).
Quando o discurso teológico está baseado na Bíblia Sagrada as Igrejas cristãs se unem pelos princípios divinos, mas quando o discurso teológico se baseia na Tradição histórica, nos deparamos com intensas disputas ideológicas que visavam e ainda visam o poder.
A história da Igreja Cristã, desde seu início, conviveu com esta tensão: o desejo de cumprir os desígnios de Jesus e a necessidade de deter o poder da verdade evangélica nas mãos. Creio que estes continuam sendo desafios para o Cristianismo.
A ambigüidade do discurso teológico faz confrontar duas fontes de autoridade na Igreja Cristã: a Bíblia (com sua variada interpretação) e a Tradição (com sua variada interpretação). Há que se fazer opção por uma única fonte de autoridade para uma tentativa para uma maior unidade entre os cristãos/ãs.
No que tange ao debate interno da Igreja Católica quero apenas mencionar uma impressão (de quem está de fora): Penso que a Igreja Católica precisa de um intenso debate para re-estudar seus dogmas com sua variedade interpretativa, na atualidade. Caso seja mantida esta postura mais radical, penso que o fosso ficará cada dia maior, pois o radicalismo também habita o outro lado.
 
/Marcelo Moura da Silva, Pastor.
Coordenador Acadêmico da
Faculdade Teológica Batista Ana Wollerman
Mestre em Ciências da Religião

Fonte: Folha de Dourados

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