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A hora e a vez da epifania tardia

Ana Maria Bernardelli –

Muitas decepções não se revelam no momento em que acontecem. Elas se insinuam de modo quase discreto, como se a consciência, por um gesto de economia afetiva, retardasse o seu próprio entendimento. No instante do impacto, ainda acreditamos que se trata de um episódio, de uma inflexão passageira no curso de algo que permanece. Mas o tempo, esse operador silencioso, encarrega-se de deslocar o que parecia circunstancial para o campo do essencial.

É então que sobrevém a epifania tardia.
Não como um clarão súbito, mas como uma lenta decantação do vivido. O que antes era apenas desconforto adquire contorno; o que parecia um desvio revela-se sintoma; e aquilo que foi, num primeiro momento, tolerado ou relativizado, retorna sob a forma de uma evidência que já não admite negociação. A consciência alcança, com atraso, aquilo que o sensível havia pressentido desde o início.

Nessa passagem, a decepção deixa de ser dirigida apenas ao outro e se instala, de modo mais profundo, na relação que mantínhamos com nossas próprias expectativas. Descobre-se, não sem certo espanto, que o que se rompe não é apenas o vínculo, mas a narrativa íntima que o sustentava. Aquilo que julgávamos sólido revela sua condição de construção, delicada, por vezes idealizada, e, sobretudo, exposta à contingência do humano.
A epifania tardia, nesse sentido, não oferece consolo. Ela oferece precisão.

E há uma espécie de austeridade nesse esclarecimento, porque compreender não significa recompor o que foi quebrado, mas reposicionar-se diante do que se tornou visível. A dor, antes difusa, ganha nome; e ao ganhar nome, perde parte de sua opacidade, ainda que não perca sua intensidade. O sofrimento deixa de ser um ruído indistinto e passa a integrar uma gramática mais exigente da experiência.

Há, nesse ponto, um ganho silencioso, embora custoso. A inocência que sustentava o vínculo se desfaz, mas em seu lugar emerge uma forma mais rigorosa de atenção: ao outro, sim, mas também a si mesmo, às próprias projeções, às zonas onde se desejou ver permanência onde havia apenas possibilidade.

E, no entanto, algo permanece.
Não o que se imaginava preservar, mas o vestígio do que nos atravessou, porque certas experiências, mesmo quando se desfazem, deixam marcas que não pertencem mais ao outro; tornam-se matéria de quem as viveu.

A epifania tardia não repara a decepção, mas a inscreve em um campo de sentido.
E talvez seja esse o seu gesto mais sutil: não impedir a dor, mas impedir que ela permaneça sem forma, devolvendo ao espírito a capacidade de compreender aquilo que, por um tempo, apenas feriu.

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