Elecir Ribeiro Arce (*)

A imprensa brasileira e seus colunistas estão fazendo uma marcação cerrada nas pessoas que discordam da posição da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), leia-se Estados Unidos e União Europeia, sobre o conflito bélico na Ucrânia. Desde o início dessa guerra macabra, em 24 de fevereiro último, a imprensa brasileira tem tratado esse conflito como ‘guerra do Putin’ e toda a culpa atribuída ao presidente russo Vladimir Putin. Pelo noticiário os Estados Unidos e a União Europeia são os bonzinhos que não querem a guerra e fizeram e fazem de tudo para pôr fim ao morticínio ucraniano.

Pura balela. O pior disso tudo é que a grande maioria da população brasileira não consegue ler o cenário com clareza e analisar sem paixão os interesses que estão por trás dessa tragédia. A Ucrânia não entrou na guerra sozinha, pela livre e espontânea vontade do presidente Volodimir Zelenski. O governo ucraniano foi incentivado do pelas potências da OTAN a tensionar a situação até o limite, e assim ele fez até a deflagração da guerra. Iniciado o conflito, Zelenski ficou sem condições políticas e morais para propor o seu fim.

Até o presente, mais de dois meses de guerra, sabemos claramente quem tem levado a pior – o país Ucrânia e a sua nação ucraniana. Uma parte significativa da Ucrânia foi devastada pela força bélica russa e milhões de ucranianos deixaram as pressas o seu território fugindo da guerra e buscaram outros países, mundo afora, a procura de paz, trabalho e um pouco de tranquilidade. Enquanto o Estado e a nação ucraniana sofrem as consequências do conflito, as potências da OTAN lucram vendendo principalmente armas, medicamentos e alimentos e emprestando bilhões de dólares em dinheiro para a Ucrânia se manter na Guerra. Quando o conflito acabar, sabe-se lá quando, esses mesmos países vão financiar a reconstrução ucraniana. Não precisa nem dizer quem vai pagar a conta.

A imprensa brasileira ‘chapa branca da OTAN’ vai esquecer a guerra e se escorar em outros factoides para distrair a população da dura realidade do Brasil. A mídia brasileira se acha o quarto poder e não aceita que discorde dela, em hipótese alguma. Atua de forma vigilante e faz pressão para que todos coadunem com o seu pensamento. Quem sair fora da sua ‘verdade’ é hostilizado veementemente, como aconteceu essa semana com o ex presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, que apareceu numa reportagem de capa da revista norte-americana Time. A guerra da Ucrânia nem foi o tema central da entrevista. Quando perguntado sobre esse tema, Lula emitiu sua opinião e aproximou o dedo da ferida, apontando alguns atores da tragédia ucraniana. Bastou para a mídia esquecer da entrevista no todo e cair de ‘pau’ no ex presidente, por esse detalhe que aparece no interior da matéria. Devo dizer que de tantos colunistas que eu li e ouvi nesses dias sobre esse tema, apenas dois, não acharam Lula cem por cento errado e equivocado em sua opinião. Vale ressaltar aqui, que se a opinião fosse dada por uma pessoa comum da sociedade, a imprensa não teria dado a mínima atenção.

Daqui um tempo a verdade virá à tona pelo trabalho dos historiadores e outros estudiosos que debruçarão sobre a vasta documentação que essa guerra produziu e produzirá, bem como as fontes vivas que presenciaram a destruição e reconstrução do valoroso país ucraniano. A verdade será escancarada, aí poderemos saber quem foram todos os culpados que incentivaram a guerra e se omitiram covardemente para propor e construir a paz. Uma coisa é certa, de livre e espontânea vontade, a imprensa brasileira não dará um mínimo de espaço para aqueles que pensaram diferentes de sua linha editorial sobre a guerra, não fará mea-culpa.

(*) Professor de História da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul