Enéias Ribeiro Marengo

Por Ilson Boca Venâncio –

O Sr. Enéias Ribeiro Marengo, é um desses personagens.

Eu sempre que passava observava a simplicidade de sua banca, pois nela continha produtos de quintal como abacate, laranja, maxixe, Jatobá, quiabo, jabuticaba,  entre outros, exposto de forma bem espontânea, aos quais eu sempre  adquiria, pelo aspecto  aparente  orgânicos.

Assim que começamos a conversa ele já foi dizendo que ultimamente só vinha à feira pra se distrair, por estar acostumado, pelo muito tempo   que o faz. 

Começou uma década após o seu casamento. Quando do fim do milagre brasileiro no regime militar, hoje são seus netos que o auxiliam nos trabalhos da feira.

Em seu relato conta que seus pais, Francisco Merengo natural de Sertãozinho e Lazara Ribeiro Merengo, vindos da região de Araçatuba, chegaram a Dourados em 1953.

Sua família veio atraída pela fama de prosperidade da região motivada pela fertilidade das terras.

Outro atrativo foi Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND), popularmente conhecida como “Colônia Federal”, pois havia a distribuição de lotes de terra gratuita por requerimento.

A CAND foi m projeto de colonização que distribuía terras para agricultores, que se fundamentou na maior reforma fundiária da historia, com a colônia federal e municipal. 

Sr. Enéias e sua família, se instalaram  no Travessão do Guilherme, na linha do Guassú, primeira zona, onde trabalharam na plantação de lavouras e criação de animais.

Sua vida foi sempre muito simples. Plantavam milho, feijão, arroz, e tudo o que era de comer, criavam porcos, galinha e vacas. Não pensava em outra vida. “Se tinha tudo o de comer, o que sobrava se vendia”, diz.

Relembra a chegada da monocultura, a primeira foi a mamona, que houve um tempo que dava mais dinheiro que algodão’.

 “A gente plantava um lote, em dois anos comprava outro, mais logo veio o desinteresse do comprador,  fracasso, percas do que ganhara”, conta.

A princípio parecia bom, mais logo vem o fim do milagre brasileiro e a crise, a Aliança para o Progresso, e o dinheiro sumiu. 

Com o passar do tempo às coisas apertaram, e a vida do sitiante foi ficando difícil.

O que se produzia na hora da venda o preço não condizia com o esforço.

Até parecia coisa combinada!

 Os produtos só ganhavam preço quando já estava nas mãos do atravessador. Então a saída era sair pra vender direto ao consumidor, assim com mais esforço se ganhava um pouco mais.

 – A gente entregava o produto e ficava esperando dar preço mínimo que nunca vinha ai os compromissos vencia e tínhamos que vender por quaisquer preço para quitar as dívidas.

“Com isso a gente era obrigada a desfazer das coisas que tinha”, afirma o Sr. Enéias!

Vender na feira era uma saída que não servia a todos os colonos, só era possível para aqueles que moravam próximo a cidade, pois o meio de transporte era bicicleta, cavalo ou carroça.

Até que chegou um dia, que a sua mulher lhe falou que era preciso fazer alguma coisa para aumentar o ganho da família.

Foi aí, que eles aumentando a produção de ervilha, adaptaram uma cesta na bicicleta e passou a vendê-las, aqui e ali pela cidade.

 Aos finais de semana passou a vender na Feira livre. Como não possuía banca, vendia na bicicleta, com as vendas aumentando, conseguiu evoluir o transporte para uma carroça.

Aí sim! Com mais espaço poderia trazer variedades maiores de produtos e passar a contar com a companhia da esposa Maria Aparecida que passou a vir com ele.

Com a aquisição da banca, podia vender cereal, além de mandioca, bananas, abacate e de tudo que tinha no seu quintal!.

Enéias nasceu em 1939 na cidade de Macaubal SP (próximo de Sertãozinho) veio para Dourados com seus pais quando tinha apenas   treze anos de idade.

Casou-se em 1962 com Maria Aparecida Augusto, com quem tem seis filhos: Nilton, Lurdes, Ivani, Vanildo, Neli e Eneias.

Conta que começou com a feira no final dos anos sessenta, fim do milagre brasileiro período de maior crise e recessão econômica, onde permanece até os dias de hoje, Saudoso, pois perdeu a companheira no dia 30 / 12/2015.

 Disse-me que depois de tantos anos se acostumou tanto com o convívio da feira, que hoje vem trabalhar para se distrair.

 Conta com entusiasmo,  sua apreciação por esse convívio, pela dinâmica da feira.

Diz que na feira cada momento é inédito, apesar de que muitos virem a feira todos os fins de semana  a tantos anos.

A imagem nunca se repete, nunca é igual. Isso faz com que a rotina não canse.

Pois ali passa gente de muitos lugares de língua e sotaques diferentes do Brasil e do estrangeiro

A gente vê crianças que ainda pequenas, virem  com seus pais, depois as vê já adultas com seus filhos vindos a feira!

Tem o sol quente, vem o vento vem à chuva, o frio, até mesmo tempestade, mais depois passa.    

A gente continua firme, quem foi criado na sítio se acostuma a lidar com a natureza, diz ele. 

As simples mais sábias palavras do Sr. Enéias, me fez revelar a feira como cenário permanente onde a cena nunca se repete.

Aonde o personagem a cada dia que vem,  encena em cenas na vida real

E ele, Sr. Enéias, permanece ali há cinco décadas, como personagem e plateia, interpretando e assistindo,   este teatro vivo da vida real. 

“Agora eu só venho à feira pra me distrair, passear, me acostumei, agora tenho que vir”, diz ele, que fez o seguinte relato:

“Eu ouvi dizer que querem mudar a nossa “Feira Livre” pra outro lugar ali pra baixo, (indica com a mão) desde que nasceu ela só vem baixando!(conclui)”

“Em minha opinião, eu acho que aqui ela esta muito boa, tem bastante espaço pra nossa feira crescer livre!”

“A gente começou há muitos anos, criou filhos e netos aqui na feira, vendendo assim com a banca na  rua”.

“O que precisava era de melhorar um pouco, para a gente ter mais segurança!”

“Meu desejo é que meus descendentes pudessem continuar trabalhando aqui”.

“Eu sei que é um trabalho difícil”, me disse Enéias! “A gente passa a noite sem dormir, tem o sol, vem chuva e até tempestade”.

Mais tudo e da natureza, a gente acostuma! Afirma ele.

                           (pensamento)

 Enquanto ouvia a história do seu Sr. Enéias, minhas lembranças me fizeram recordar.

Quando era noite de montar a feira, os feirantes chegando carregados traziam um lampião de marinheiro, pendurado no varão da carroça, para clarear o caminho.

Muitas vezes em noites de garoa, ver aquela cena; o bochechar do cavalo, acompanhado rítmico trotear das patas no chão molhado.

 Hoje a lembrança me faz recordar até o cheiro daqueles momentos.

A montagem das bancas era feita na noite, uns vinham de bicicleta cargueira, de charrete, outros traziam na jardineira mista.

Aos sábados a jardineira vinha lotada de mercadoria, o bagageiro de cima vinha às gaiolas feitas de vara e embira, cheias de galinhas para serem vendidas; outros carneavam porcos, ou vacas, que eram vendidas na Feira Livre.

Outro personagem dessas historia da “Nossa Feira Livre vem do travessão da Figueira”.

O feirante Marcolino, conta que a principio, quando a feira foi oficializada pelo poder publico, não se pagava imposto.

Mais assim que as vendas melhoraram, passaram a cobrar.

Os produtos que mais vendiam eram porcos e galinhas, carne de boi – havia uma taxa que era calculada pela qualidade de cabeças.

“O fiscal vinha e contava as cabeças para estipular o valor da taxa”, disse ele. 

Recordo-me, quando saia à noite no sábado a noite, ia a feira comer espetinho com mandioca amarelinha barraca dos Kanashiro.

 Era o caso dos casais Yossi Myagui, e  Seikiti Myagui, Kio e Massa Kanashiro, com a ajuda das filhas Noêmia e Margarida.

Quando a feira se mudou da rua Dr Nelson de Araujo para a Santa Catarina, decidiram montar um quiosque, para vender espetinho com mandioca amarelinha e café .Quem fazia o transporte  das mercadorias  com sua charrete era o seu João Libório, que tinha que chegar na residência dos Kanashiro as três horas da manhã para trazer as mercadorias até a feira.

Comentários do Facebook