Desde 1968 - Ano 56

26.9 C
Dourados

Desde 1968 - Ano 58

InícioColunistaA Expoagro (Dourados-MS) é indígena

A Expoagro (Dourados-MS) é indígena

Por Eduardo Martins, docente associado I, UFMS/CPNA/História e Professora Graciela Chamorro, (In memoriam)

Sob o título de “A 60ª Expoagro Dourados acontece de 08 a 17 de maio. Shows nacionais, rodeio, leilões e o melhor do agronegócio no MS”. No entanto, nem sempre foi assim, mas sobretudo, teve seu começo um pouco antes, pelo menos no ano de 1962, há 64 anos. É bem provável que essa nova contagem do tempo seja para fins do apagamento da história indígena participante dessa Exposição e ganhando o prêmio de primeiro lugar.

Douradenses, estamos no ano de 1962, portanto, há exatos 64 anos em que a comunidade indígena, do então Posto Indígena “Francisco Horta”, posteriormente “Aldeias Indígenas Jaguapiru e Bororo” naquele ano composta pelos povos Guarani, Kaiowá e Terena participou da Exposição Agropecuária de Dourados com a presença forte e marcante da sua produção alimentícia e cultural, dentro daquele evento, até então popular, que foi realizado nos dias 4, 5, 6 e 7 de maio.

Os produtos levados à Exposição foram: milho, arroz, cana de açúcar, erva-mate, café, algodão, soja, feijão, batata, mandioca, banana, abóbora, etc. assim como seus derivados: canjica, fubá, farinha de mandioca, polvilho, melaço, rapadura, etc. tudo do produto de plantio e fabrico indígena, assim como artefatos e troféus indigenas, cuja exposição foi das mais visitadas e apreciadas por todos que viram e sentiram a força e a organização da comunidade indígena que ancestralmente conheciam e dominavam amplamente essas terras e suas formas de interação simbiótica com todos os tipos de vidas e entes que habitam a Mãe Terra.

Pelo óbvio essa produção toda passou pelo tempo de experiência no aprendizado e trato com o labor da terra, conhecimentos naturais e técnicos do cuidado com o arroz, o trigo, e fabricação; moagem dos grãos em farinha, mas sobretudo, demandou de uma casa de máquinas bem preparada e funcionando em que eles próprios, indígenas, construíam e davam as devidas manutenções, além da experiência na estocagem dos grãos. Há engenhos de cana-de-açúcar na comunidade onde eles fabricam rapadura, açúcar e melaço para o próprio consumo e para negociar nas cidades vizinhas. Uma olaria com a produção de 15 mil tijolos mensais, podendo chegar a 30 mil com a reforma em andamento no ano de 1962.

Este pequeno exemplo revela a potência latente e pujante de um tipo de “agro”, praticado antigamente pelas pessoas comprometidas com a produção agrícola orgânica de alimento para as pessoas.

Segundo consta no Relatório mensal desse Posto a participação indígena na Exposição agropecuária rendeu um diploma de primeiro prêmio e uma medalha por parte dos organizadores do evento provando que a agricultura “familiar” ou o tipo de produção comunitária deve ser estimulada.

Obviamente, que a produção levada à Exposição, daquele ano de 1962, era o excedente após a retirada para o consumo das famílias indígenas composta de 655 Kaiowá, 360 Terena e 325 Guarani, perfazendo um total de 1340 pessoas indígenas que compunham a população rural de Dourados, sociedade camponesa e agricultora. Desta temos um total de 63 crianças matriculadas e frequentando a escola da comunidade indígena.

Um exemplo de como o povoamento do antigo Posto Indígena “Francisco Horta”, era dinâmico em organização social do trabalho solidário em comunidade e fraternidade. No ano de 1955, portanto 7 anos antes da informação da participação da Exposição, essa população coletivamente trabalhava na melhoria da vida social comunitária abrindo estradas que ligava a aldeia “Bororo” a aldeia “Farinha seca”, fazendo cercado onde fosse necessário para as criações de animais domésticos, extração da madeira de aroeira para a venda a terceiros e aquisição de renda para a comunidade, arrendamentos de pequenos pedaços de terra em negociações com as pessoas não indígenas, reformas de carretas, charretes, carros de boi, manutenção em geral da ordem de trabalhos manuais qualificados e técnicos, roçado de 4,5 hectare de capoeira e preparo da terra para o plantio de arroz, feijão, trigo, milho, e para a plantação de mandioca capinado um hectare de terra e todo o seu preparo e manejo.

Diante do que vimos acima é revelador a grande importância dos povos indígenas Terena, Kaiowá e Guarani e o seu trabalho na produção de alimento, e distribuição de comida saudável na mesa daquele povo migrante que acabava de chegar faminto e com sede de água potável.

Foi a comunidade indígena local, receptora dos estrangeiros, dos forasteiros que primeiramente os alimentou. Evidentemente que o excedente levado a vender na Exposição, é uma mostra do trabalho coletivo organizado, distribuído, comercializado revelando o envolvimento protagonista da sua história local e sentimento de alargamento de participação naquele tipo de sociedade, no tensionamento da mola dos direitos sociais e civis, cidadania que se fazia no contato friccional, sempre latente a ferida entre o neocolonialismo euro-cristão e as pessoas nativas com seu modo e cosmovisão de mundo, muitas vezes opostos, em relação ao acúmulo das coisas.

Longe de uma interpretação romântica, muito menos ufanista, longe de fazer apologias a qualquer tipo de nacionalismo ou de “integração do indígena”. O que podemos ver é a vida correndo em seu sentido dialético mais amplo das relações materiais e simbólicas, mas também cultural. O que vemos é a história de dentro para fora como ensinou Bartomeu Meliá, (2018), no prefácio da enciclopédia da professora Graciela Chamorro (in memoriam) não é História do Brasil contendo os indígenas, mas aqui neste caso é exatamente o contrário, partimos da história indígena; sua organização, trabalho, produção, distribuição e negociação com a sociedade ocidental nela envolvente, envolvendo-a. A Expoagro, de 1962, foi envolvida pela comunidade indígena.

Por tudo isso o que vimos é um tipo de História dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul acontecendo relacionalmente com a História do neocolonialismo, do propalado “pioneirismo”, ou ao arrepio dela, numa contrahistória, aqui no sentido contracolonial, proposto por Nego Bispo (2023) que está ensinando a fazer história aos desavisados, marinheiros de primeira viagem que acreditam que o “pioneiro”, “rei do gado”, “migrantes” ou qualquer coisa que seja, quando aqui chegou comeu terra, numa interpretação da história, no mínimo epistemicida, no máximo fajuta.

Finalmente, cumpre sempre lembrar, então, que esse tipo de constructo da História indígena ensinado por Meliá (2018), compartilhada pelas próprias lideranças: Krenak (2020, 2020, 2022), Davi Kopenawa (2015), Cacique Raoni (2025) ensinando o bem viver indígena, como essa pequena memória da participação deles na Expoagro de Dourados de 1962 “de que outro mundo foi e é possível” (Meliá, 2018).

- Publicidade -

MAIS LIDAS