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‘A carruagem passa’, por João Roberto Giacomini

Há gente que nasce com espírito de explorador. Observa, pergunta, duvida, reconsidera. E há os outros: os que pegam a primeira carroagem que passa e já sobem nela como quem encontrou a última verdade do universo.

Nem perguntam para onde vai.

Basta ouvir metade de uma conversa no açougue, um vídeo de trinta segundos no celular ou a opinião do cunhado especialista em tudo — política, vacina, futebol, economia chinesa e criação de tilápia em caixa d’água — e pronto: está formada a convicção.

Convicção sólida.

Inabalável.

Blindada contra fatos, argumentos e até contra a realidade.

O sujeito vira uma espécie de animal de carga das próprias certezas. Recebe aquele tapa simbólico no lombo — “vai por aqui mesmo!” — e dispara em linha reta rumo ao precipício, sem olhar para os lados. E o mais impressionante: explode de convicção, mas não retroage. Nunca.

Pedir que reveja uma opinião é quase uma ofensa pessoal. É como sugerir a um torcedor fanático que talvez o juiz não estivesse comprado. O cidadão fecha a cara, cruza os braços e responde com aquela frase universal dos teimosos:

— Eu penso assim e pronto.

Pronto.

Essa palavra encerra debates, casamentos e grupos de WhatsApp.

Outro dia vi uma cena antológica na fila da padaria. Um senhor jurava, indignado, que o caixa eletrônico “engolia dinheiro de propósito”. Dizia isso com a segurança de quem havia participado da fundação do sistema bancário mundial.

A moça do caixa tentou explicar:
— Senhor, o cartão venceu em 2022…

Mas já era tarde. O homem estava possuído pela certeza. Falava alto, gesticulava, apontava para a máquina como se denunciasse um criminoso internacional.

Atrás dele, uma senhora concordava:
— Essas tecnologias são tudo programadas!

Ninguém sabia exatamente programadas para quê. Mas concordavam mutuamente com fervor religioso.

E assim o mundo vai girando.

Tem gente que não se coloca no lugar do outro porque mal consegue sair do próprio eco. Vive dentro de uma sala mental onde só a própria voz tem microfone. Explicação alheia entra por um ouvido e sai atropelada pela próxima certeza.

Talvez por isso o velho ditado siga tão atual: “Enquanto os cães ladram, a carroagem passa.”

Embora, nos tempos modernos, a carroagem passe buzinando, desviando de motocicleta, entregador de aplicativo e influencer fazendo dancinha no meio da rua.

Ainda assim, ela passa.

Passa pelos indignados profissionais, pelos donos da verdade, pelos especialistas instantâneos e pelos que confundem opinião com diploma divino.

A vida, no fundo, tem pouca paciência para certezas absolutas. Ela gosta mesmo é dos que observam, mudam de ideia, aprendem, erram, voltam atrás e riem de si próprios.

Porque quem nunca voltou atrás provavelmente nunca foi muito longe.

E talvez a verdadeira inteligência não esteja em ter respostas rápidas, mas em conservar a rara capacidade de escutar antes de sair correndo atrás da primeira carroagem barulhenta que aparece levantando poeira.

No fim, os mais sábios talvez sejam justamente aqueles que, diante das confusões humanas, apenas ajeitam o chapéu, observam a cena com um meio sorriso e deixam a carruagem passar.

João Roberto Giacomini advogado & escritor

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