Por João Roberto Giacomini –
Descobri que pensar dá um trabalho extraordinário.
Talvez seja por isso que exista tanta gente disposta a fazer esse serviço por nós.
Sempre aparece alguém.
O sujeito que sabe em quem votar.
O vizinho que conhece o melhor investimento.
O especialista que resolveu a economia mundial num vídeo de noventa segundos.
O amigo que garante conhecer “uma oportunidade imperdível”.
O líder que explica como devemos viver.
O influenciador que ensina como enriquecer.
O consultor que promete sucesso.
O pregador que distribui certezas.
O curioso é que todos eles começam exatamente do mesmo jeito.
— Confie em mim.
Nunca ouvi alguém dizer:
— Antes de acreditar em qualquer palavra minha, investigue quem eu sou.
Seria uma péssima estratégia de marketing.
Vivemos apaixonados por pessoas que falam com absoluta convicção.
A dúvida nunca teve um bom departamento de publicidade.
Tenho enorme simpatia pelos verdadeiros especialistas.
Eles possuem um defeito encantador.
Costumam dizer:
— Não sei.
Já os outros…
Esses jamais conheceram o desconforto da incerteza.
Falam sobre qualquer assunto com a serenidade de quem recebeu de Deus uma edição comentada do futuro.
Aprendi tarde que quase ninguém é enganado pelo dono do dinheiro.
Nem pelo dono da empresa.
Nem pelo dono do poder.
Somos convencidos por alguém exatamente igual a nós.
Alguém que também acreditou.
Alguém que emprestou sua boa-fé para servir de ponte.
O grande manipulador raramente atravessa o rio.
Ele convence outra pessoa a construir a ponte por ele.
E nós atravessamos sorrindo.
Existe uma pergunta que deveria acompanhar qualquer projeto, qualquer convite, qualquer oportunidade e, talvez, qualquer amizade que chegue rápido demais.
Não é:
“Quanto vou ganhar?”
Também não é:
“Quem está por trás disso?”
A pergunta correta costuma ser muito mais incômoda.
Quem ganha se eu deixar de fazer perguntas?
Porque golpes detestam investigação.
Fanatismos detestam investigação.
Mentiras detestam investigação.
Autoridades falsas detestam investigação.
Só a verdade suporta ser examinada sem pressa.
Percebi outra curiosidade.
Pesquisamos durante uma semana antes de comprar um telefone.
Lemos avaliações para escolher um restaurante.
Assistimos a dezenas de vídeos antes de trocar uma televisão.
Mas entregamos nossa confiança em poucos minutos para alguém que sorriu na hora certa.
É extraordinário.
Investigamos objetos.
E terceirizamos pessoas.
Talvez a ingenuidade nunca tenha sido falta de inteligência.
Talvez seja apenas excesso de pressa.
Pressa para acreditar.
Pressa para admirar.
Pressa para seguir.
Pressa para pertencer.
Pressa para encontrar alguém que pense por nós.
Depois reclamamos das consequências.
A vida inteira ouvi que confiar nas pessoas era uma virtude.
Continuo acreditando nisso.
O que deixei de acreditar foi na ideia de que confiança dispense investigação.
Não dispensa.
Pelo contrário.
A confiança verdadeira nasce exatamente depois das perguntas difíceis.
Descobri, enfim, que existe uma diferença silenciosa entre quem deseja o nosso bem e quem deseja a nossa concordância.
O primeiro aceita perguntas.
O segundo prefere aplausos.
E talvez seja essa a pergunta que mais tenha mudado minha vida.
Sempre que alguém me apresenta uma ideia extraordinária, um projeto irresistível ou uma oportunidade daquelas que “não aparecem duas vezes”, já não pergunto quanto posso ganhar.
Pergunto apenas:
Se eu começar a fazer perguntas, você continuará interessado em mim?
Quase sempre, a resposta chega antes das palavras.
Ela aparece no rosto.
E o rosto, ao contrário dos discursos, ainda não aprendeu a mentir por muito tempo.




