A casa paraguaia
Artigo – 13/11/2007
Nas orilhas da fronteira, na época em que viveu nestas plagas o catarinense Tomaz Laranjeira, homem empreendedor e aventureiro visionário, com ele na condição de empresário comercial surgiu uma sólida organização industrial ervateira. Tendo o comando absoluto , era tão dominante a sua vontade, que ele indicava até os futuros aspirantes a ocupar cargo político no velho uno Estado do Mato Grosso. Conhecida como a Empresa Mate Laranjeira, arrendatária de uma extensa faixa territorial estadual, tinha a sua economia fincada no chão bruto dos ervais e foi a primeira contratante empregadora dos paraguaios sobreviventes da tríplice aliança.
Como peões barbacuazeiros , comissários e capatazes, os manietados daqueles distantes tempos, se espalharam rapidamente por nossas terras recém incorporadas como parte do botim ganho no genocídio. Dourados, ainda engatinhava no meio da poeira vermelha, e era um pequeno vilarejo, quando a paraguaiada trôpega e maltrapilha, com seus filhos de olhos apertados remelentos, ergueram os primeiros ranchos nos ensinando viciosamente como se tomava nos dias de calor uma bebida chamada tereré. No terreiro onde essa gente simples morava, aconteceram festivos e alegres jerokis carapés, que foram os responsáveis pela realização de muitos casamentos memoráveis. Essas empolgadas bailantas , regadas com cachaça e o lôcro, já não acontecem mais.
Nos anos sessenta, conheci o brasiguaio Mauro Eleodoro Aréco , um estudante do curso ginasial que escolheria para profissão no futuro ser sapateiro e como é comum em cidades pequenas, ele me apresentou para a sua operosa e numerosa família. Depois, os anos céleres foram passando e então os Arécos resolveram fundar uma agremiação pelo nome de “casa paraguaia”. O objetivo principal além de unir a comunidade, era o de também demonstrar as tradições e o folclore iporã-itereí. Pertenci a primeira diretoria como assessor jurídico, assisti essa família influenciar e trabalhar arregassadamente para a realização do projeto municipal de construção da praça paraguaia.
Com fervorosa religiosidade católica, fé professada por todos os ilustrados , ergueram com dádivas populares uma capela em homenagem a virgem de Caacupê, dela todos devotos . Trouxeram para uma visita oficial no local o presidente eleito da República do Paraguai, este os presenteou com uma monumental imagem da santa. O pecuarista sr. Li Teixeira de Rezende, na condição costumeira de filantrópico benfeitor, contribuiu exaustivamente com as reformas estruturais da igrejinha alicerçada na praça paraguaia.
Dali em diante, querendo reunir os aconcáguas contadores de chistes ou de anedotas nas rodas humorísticas e dos adeptos pelo gosto em ouvir o musical castelhano , fundaram e construíram com mão de obra voluntária a atual sede. Com o desejo de agregarem as famílias e os descendentes do povo guarany, essa despretensiosa e arrojada família Aréco, nascida em Porto Murtinho, transformou-se no esteio da casa paraguaia. Objetivando acabar com vaidosas desavenças e unir uma colônia toda dividida, passaram a jóia por eles lapidada e criada a outros dirigentes, dando a missão por cumprida .
Mbureando saudades da infância , na casa paraguaia sob as bênçãos de ñandejára, encontrei o yvá onde se pode recostar a cabeça , fechar os olhos , pensar em guarani e rememorar os hábitos de um povo e uma raça altiva, nunca inclinada diante de nada a não ser no nhú-verá onde qualquer caminhante guaino sabe, é também a morada eterna da qual o mesmo ñandejára distribui as suas bênçãos. O João Lescano, que era em vida surdo como uma ita, morto pela cirrose, partiu pobre, foi paraguaio e era humilde. Certamente onde agora ele foi morar, está em companhia de outros caraís, pedindo que todos os tapés palmilhados, conduzam os descendentes dos nômades índios teis, nos ideais que motivaram a família Aréco, em reuni-los no aconchego da casa paraguaia. (Isaac Duarte de Barros Junior é advogado criminalista, jornalista. e-mail : [email protected])
Fonte: Folha de Dourados



