Para pioneiro, correr riscos está nos genes
Células-tronco – 15/12/2007
A inspiração pode surgir dos mais inesperados lugares. O doutor Shinya Yamanaka a encontrou enquanto fazia uma observação no microscópio na clínica de fertilização de um amigo.
Yamanaka era professor assistente de farmacologia e estava realizando uma pesquisa que envolvia células-tronco embrionárias quando visitou a clínica cerca de oito anos atrás. A convite do amigo, foi ao microscópio e observou um dos embriões humanos armazenados na clínica. Aquela rápida olhada mudou sua carreira científica.
“Quando vi o embrião, de repente me dei conta de que havia uma diferença pequena entre ele e minhas filhas”, disse Yamanaka, 45, pai de duas filhas e atualmente professor da Universidade de Kyoto. “Pensei, não podemos continuar destruindo embriões para nossa pesquisa. Tem de haver outro jeito.”
Após anos de pesquisas, quase desistindo em momentos de desespero, Yamanaka pode ter encontrado essa alternativa. No mês passado, seu grupo de pesquisadores foi um dos dois que anunciaram, de forma independente, que tinham obtido êxito na transformação de células da pele adultas em células-tronco embrionárias humanas equivalentes sem usar o embrião original. A outra equipe foi liderada por James A. Thomson, da Universidade de Wisconsin, um dos primeiros cientistas a isolar células-tronco embrionárias humanas.
Yamanaka já havia demonstrado essa técnica em ratos. Depois da experiência, outros cientistas também começaram a tentar reproduzir o feito em células humanas. A descoberta com ratos foi aclamada como um grande avanço, já que oferecia uma alternativa possível para contornar as árduas questões morais que retardam o estudo das células-tronco. As células-tronco, tipo de células com múltiplas funções presentes em novos embriões, representam a promessa de auxiliar as pesquisas de doenças hoje incuráveis e produzir novos tratamentos médicos, como o crescimento de tecidos substitutivos de pacientes. Entretanto, o uso dessas células foi alvo de fortes objeções porque, até agora, só podiam ser obtidas destruindo-se embriões humanos.
Yamanaka é amplamente considerado como o primeiro cientista a ter a idéia de reprogramar células adultas para que se comportem como células-tronco graças à sua experiência em ratos. O ponto fundamental dessa idéia é adicionar genes, chamados reguladores-mestres, aos cromossomos das células da pele. Esses genes são capazes de modificar o comportamento da célula ativando e desativando outros genes.
A descoberta foi bem recebida nos Estados Unidos, onde o governo federal se recusou a financiar grande parte das pesquisas com células-tronco. Mas também foi saudada com entusiasmo no próprio Japão por mais um motivo: ela indica que o país pode finalmente ter alcançado a sua maturidade como pólo de pesquisas científicas. Nas últimas décadas, o Japão tentou reverter a sua arraigada imagem de forte produtor de aparelhos eletrônicos, mas fraco na contribuição à ciência.
“Esta é a primeira vez que uma pesquisa na área médica de importância mundial foi realizada totalmente no Japão”, declarou o doutor Hitoshi Niwa, do Centro de Biologia Desenvolvimental Riken, em Kobe. “Ninguém teve a idéia de produzir células-tronco dessa forma antes. Trata-se de um direcionamento totalmente inovador.”
Fonte: Folha de Dourados



