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Uma viagem interessante II, por Waldir Guerra

Leia: Uma viagem interessante II, por Waldir Guerra

Leia – 14/04/2008

Waldir Guerra  
         Na semana passada os comentários feitos aqui foram acerca de uma viagem à cidade de Veranópolis, RS, e ficaram apenas por conta do sentimental, mas vi coisas por lá que, além de tocar nos sentimentos, também me aguçaram os instintos nervosos. 
         Vi lá Colônias de terra – a maioria delas – recebidas pelos imigrantes italianos que se fixaram no Rio Grande do Sul, estão desabitadas ou, quando muito, servindo de chácaras para finais de semana dos atuais descendentes. São áreas de aproximadamente 30 hectares. A que meu bisavô ganhou do governo federal media isso; nela meus avós criaram dez filhos e lá moraram durante trinta anos. Foi a Reforma Agrária que deu certo, mas deu certo enquanto a humanidade se abastecia com a produção manual. Depois, o mundo cresceu, a população mundial cresceu e, para continuar crescendo sempre mais, foi preciso industrializar a produção de alimentos e a produção em escala (como dizem os economistas) derrubou os preços e inviabilizou os pequenos produtores tradicionais.  
         Duas Linhas das Colônias, a Segunda e a Terceira, dadas aos imigrantes italianos no município de Veranópolis, possuíam 84 famílias até 1988 trabalhando e residindo nas propriedades, hoje apenas 14 moradores têm residência fixa nessas chácaras e a maioria deles é preposto. Por quê? Porque não é mais rentável produzir o que se produzia e seus moradores estão residindo na cidade.  
         Só subsistem com a produção da Colônia alguns poucos produtores de uva, outros produtores integrados à avicultura ou suinocultura, os demais só usam as áreas para o lazer. Poderia ser diferente? Claro! O governo, especialmente o municipal, poderia ser o indutor atraindo uma grande vinícola, ampliando o cultivo da uva já que a população conhece muito bem essa cultura por lá e alguns poucos já o fazem. Outra atividade lucrativa seria o plantio de macieiras já que o clima e a altitude são ideais para essa cultura. Veranópolis foi o município pioneiro no Brasil na produção de maçãs, graças à Escola Agrícola lá instalada pelo Governo de Getúlio Vargas, mas faltou dar continuidade a essa atividade, coisa que o Estado de Santa Catarina soube muito bem fazê-lo.  
         Minha maior surpresa foi ter ficado sabendo que João Pedro Stédile, o líder máximo do MST no Brasil, é de Veranópolis e seguidamente andava por lá, inclusive, há pouco tempo quando foi para o enterro da mãe. Será que este homem nunca parou para comparar o que vem acontecendo com as pequenas propriedades do seu município com o que ele reivindica para os Sem-Terra?  
         Se gente com aptidão para trabalhar na terra abandonam pequenas propriedades por delas não poderem sobreviver, por que lutar para dar terra a quem não tem vocação? Só para dar-lhes cestas básicas e treiná-las politicamente? Que absurdo João Pedro Stédile! 
         (Um parêntese para dizer que outro município: Nova Alvorada (RS) tornou rentável todas as antigas e pequenas propriedades rurais do seu município através da avicultura e suinocultura e seu projeto de casas populares foi implantado no interior; cada proprietário recebeu em seu sítio uma casa financiada, luz elétrica e poço artesiano. O pequeno município tem 80% de sua população vivendo no interior; não possui nenhum casebre. Favela, então, nem pensar.)  
         Coisas para se pensar – e comparar também – porque nós aqui no MS assistimos o desmonte da maior empresa agrícola mundial, a Fazenda Itamaraty, com seus sessenta pivôs-centrais e seus 50 mil hectares desapropriados e loteados aos Sem-Terra. Hoje voltou a ser produtiva porque a maioria dos assentados arrenda sua terrinha para grandes plantadores de soja, milho e feijão. O velho ditado ainda vale: “Quem não tem competência que não se estabeleça”. 
         
Cidadão douradense; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.
             [email protected]/

Fonte: Folha de Dourados

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