O adeus ao expedicionário, por Helton Costa
Artigo – 20/05/2008
Faleceu ontem (19), o ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira-FEB, Saturnino Rodrigues Lopes, 92 anos. O sepultamento foi hoje às 9h. No velório, assim como foi na vida dos ex-combatentes, apenas os parentes, alguns amigos e representantes do Exército.
Saturnino trazia no rosto um ar calmo, sereno, representação talvez do cumprimento do dever, por ter lutado contra nazistas na Itália e de cidadão e pai de família.
Saturnino fez parte do grupo de mais de 25 mil soldados brasileiros que entraram na guerra ao lado dos Aliados para combater Hitler, Mussolini, Tojo, e as Forças do Eixo (Alemanha – Itália – Japão). Como os demais pracinhas, desembarcou em Livorno, na Itália, em 1944, depois de terem sido treinados por apenas três meses no Brasil, para enfrentar tropas que já lutavam em solo italiano há 4 anos e um inverno com temperatura de até -10 °C.
Mesmo com essa desvantagem, os brasileiros lutaram de setembro de 1944 até maio de 1945, quando venceram de vez a batalha contra os alemães que dominavam a região, episódio que culminou na rendição de mais de 14 mil experientes soldados germânicos, contra o desacreditado Exército Brasileiro, que a imprensa dizia na época ser mais fácil “uma cobra fumar do que o Brasil se engajar na luta com exércitos”. Pois os soldados venceram o preconceito inicial e não decepcionaram a nação.
O pior front talvez tenha sido o do esquecimento em que caíram os soldados depois que regressaram da II Guerra Mundial. O Governo nunca lhe pagou o que lhes era de direito, as pensões eram e ainda são insuficientes para pagar até mesmo o tratamento dos ex-combatentes, com problemas de saúde típicos da idade. Ninguém nem se lembra ou sabe que o Brasil lutou na guerra.
Somente aqui de Dourados e região, foram 100 soldados. De Campo Grande outra leva semelhante e de Aquidauana um batalhão inteiro de Engenharia de Combate. E cadê que alguém se lembra disso?
Será que a morte de mais de 450 soldados brasileiros em solo italiano na II Guerra foi em vão? Será que o esforço dos que voltaram foi em vão? Acho que o esquecimento é um fenômeno nacional, pois até o Museu da FEB no Rio de Janeiro teve que fechar na semana passada, pois o governo para “cortar gastos”, cortou os recursos para o museu…Coisas da política.
Curioso, lembro-me da minha entrevista com o “Seo” Saturnino, que me recebeu na casa dele em um sábado nublado, por volta das 15h. Ele me contou muitas histórias da Itália, era um dos mais velhos do grupo de douradenses que para a Itália embarcou, tinha 29 anos.
Ele me disse, por exemplo, que um dia a “Resistência Italiana” prendeu alguns soldados alemães, os matou e colocou fogo, tamanho o ódio que estavam dos invasores. Segundo ele, foi um cheiro horrível, que sempre que lembrava, dava ânsia. O ex-combatente estava a poucos metros da ponte onde os alemães se renderam para os brasileiros. Contou-me que quase atirou nos alemães que estavam se rendendo, foi impedido, pois naquele momento lhe contaram que a guerra tinha acabado.
Saturnino me disse ainda da alegria que tomou conta dos soldados quando ficaram sabendo que a guerra terminou, alguns choraram de alegria, outros não paravam de pular, iam voltar ao Brasil.
Ele voltou, tentou esquecer os dias difíceis que viveu, as incertezas em solo estrangeiro, constituiu família, foi um cidadão exemplar, pai amoroso, avô…Enfim, cumpriu sua missão nesse plano, talvez isso explique o ar sereno, quase sorrindo que ele sustentava, enquanto os amigos e familiares davam o último adeus para o soldado que deixava este front para retornar para casa, para a morada eterna ao lado do Criador.
Bacharel em Comunicação Social /Jornalismo, pós-graduando em Estudos da Linguagem e Secretário do Sindicato dos Jornalistas
Fonte: Folha de Dourados



