O trânsito e a reforma de conceitos
Artigo – 24/09/2008
Escanear as impressões digitais foi um meio instituído para dar mais segurança ao sistema de expedição de carteiras de motorista. Com ele, o candidato é obrigado a registrar suas digitais nas aulas de treinamento e reciclagem e no processo de exame, garantindo ser ele mesmo o examinado. Mas, mesmo assim – apurou a polícia – 15.225 CNHs foram expedidas, no Estado de São Paulo, com o uso digitais falsas. Só esse número é suficiente para colocar todo o processo sob suspeita. Nem precisariam as informações e prisões da chamada “Máfia da CNH”, ocorridas recentemente.
As autoridades de trânsito devem à sociedade uma solução para essa verdadeira ferida que purga no sistema e coloca em risco, cada dia maior, o caótico trânsito brasileiro. Têm de localizar e entregar à Justiça todos os corruptos envolvidos no sistema, além de promover a mais ampla revisão nos procedimentos para evitar as vulnerabilidades.
Com o passar dos anos, a legislação de trânsito foi sofrendo modificações que os estudiosos definem como decorrentes do aumento do número de veículos e da complexidade do sistema viário. A tecnologia digital tende a ser a grande aliada para o aperfeiçoamento, mas a falta de efetivo controle torna inócuos os avanços legais e tecnológicos. As recentes descobertas revelam que muitos motoristas, embora portadores do documento exigido pela lei, não cumpriram as formalidades e práticas exigidas para sua obtenção. São como inabilitados pois, em lugar de treinamento e provas de avaliação, deram dinheiro aos mafiosos de plantão.
Depois da identificação do caos e da corrupção, as autoridades deveriam buscar uma reforma completa. Não apenas fechar a porta da falsificação das impressões digitais e de outras irregularidades já identificadas. Seria de extrema utilidade rever todo o processo e até os conceitos. Em vez de aulas enfadonhas, destinadas exclusivamente à retirada e renovação da CNH, os cursos de reciclagem deveriam ser algo vivo e dinâmico, capazes de transmitir aos motoristas as novidades do setor e reforçar seus conhecimentos. Conscientizar, por exemplo, de que passar com o sinal vermelho, fazer conversão apoiado à esquerda e outras práticas que muitos adotam por pura ignorância, podem levar à morte própria e de terceiros. Reestruturadas, essas aulas poderiam beneficiar não só quem renova a carteira, mas todos os motoristas que sentirem necessidade de aperfeiçoamento.
De nada adianta blitz policiais nas ruas, indústria de multas e restrições de difícil fiscalização. O controle tem que começar internamente, na repartição de trânsito. No dia em que o motorista se sentir realmente reciclado e não apenas obrigado a pagar por algo burocrático e ineficiente, diminuirão de imediato os acidentes e aumentará a segurança no trânsito brasileiro. Por isso, é preciso mudar e… melhorar.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – diretor da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)
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Fonte: Folha de Dourados



