Entre o comércio eletrônico e a fronteira: o futuro do Centro de Dourados

Mário Cezar Tompes da Silva (*) –
Recentemente necessitei adquirir um novo temporizador para o filtro da piscina de minha casa. Verifiquei o preço em uma loja no centro de nossa cidade: Salgados R$ 98,00. Recorri a um desses aplicativos de venda on line: R$ 49,37. O produto era da mesma marca e modelo, porém a loja cobrava quase o dobro da internet. Optei pelo produto do aplicativo, claro! Para nosso comércio é uma concorrência muito dura. Ainda assim, esse episódio é apenas um de um conjunto de adversidades que hoje desafia a sobrevivência do comércio tradicional do centro de Dourados.
Além dessa concorrência das compras pela internet, os lojistas do centro enfrentam, também, um conjunto de outros desafios que reduz sua vitalidade e freia seu desenvolvimento. Já há algum tempo testemunhamos em Dourados o surgimento e expansão do comércio de bairro. Os comerciantes da área central que antes praticamente monopolizavam as opções de consumo, agora veem surgir nos bairros núcleos de comércio e serviços concorrentes que oferecem aos consumidores a indiscutível vantagem da proximidade, evitando longos deslocamentos até a Marcelino. Esse comércio descentralizado vem não apenas se expandindo, mas também se diversificando. Uma concorrência que continuamente subtrai clientes da área central.
Um terceiro desafio é mais antigo: a concorrência do comércio de fronteira. Sobretudo nos períodos de câmbio favorável às compras, ele vem impondo uma sangria dolorosa ao nosso comércio tradicional do centro. Além de eventuais vantagens do diferencial de preços, o Paraguai tem oferecido gigantescas lojas de departamento com conforto e uma diversidade de serviços em um mesmo lugar. A recente abertura de um shopping com cassino e outras atrações reforça crescentemente a fronteira também como destino de lazer. Tudo isso impõe uma força gravitacional que redireciona volumes substanciais de recursos e consumidores do comércio douradense para as atrações da fronteira paraguaia.
Além destes, existem outros desafios conjunturais igualmente prejudiciais para os lojistas do centro. Refiro-me às atuais circunstâncias da economia nacional: juros elevados que dificultam obtenção de crédito, em particular para capital de giro e também para a realização de novos investimentos. Por outro lado, alugueis altos e impostos que pressionam margens de lucro são agravantes que tornam a situação desses lojistas mais desafiadora.
Frente a estes desafios complexos, o maior equívoco é cruzar os braços e aguardar que os problemas se resolvam sozinhos. Existem meios de responder a essas adversidades. Em primeiro lugar, a área central precisa oferecer atrativos e vantagens que justifiquem o consumidor optar por fazer compras nela ao invés de em outro lugar. Como fazer isso?
Inicialmente, devemos fazer com que o centro deixe de depender exclusivamente do consumidor que vai até lá especificamente para comprar alguma coisa. Se o comércio funcionar somente das 8 às 18 h e depender apenas do varejo para sua sobrevivência, ele se tornará vulnerável. Porém, se ele for simultaneamente uma área que congrega comércio, serviços, gastronomia, cultura, lazer, moradia, praças atraentes, eventos e boa mobilidade, a situação muda completamente. Com essa mescla, o comércio passa a se beneficiar de fluxos de pessoas que não estão lá exclusivamente pelas compras, mas uma vez lá as impulsionam.
Em outras palavras, necessitamos transformar o centro em uma centralidade de uso misto, colocar lá diferentes atividades para que diferentes pessoas tenham a necessidade de ir até lá em vários momentos do dia. Mas não basta irem lá, temos que ter meios para que as pessoas também permaneçam lá por mais tempo.
Para tanto, há que se adotar um conjunto de ações: Incentivar que mais pessoas residam no centro porque mais moradores significa mais consumidores permanentes na área. Paralelamente, estimular a implantação de restaurantes, cafés e, importante, atividades culturais, criando motivos para os consumidores permanecerem depois do horário comercial. Também, a realização de eventos de forma mais frequente, não apenas natal e datas comemorativas. Igualmente importante que haja fachadas comerciais ativas (mais vitrines, portas e atividades voltadas para a rua) e menos paredes cegas e muros.
Implantar a pedestrianização seletiva onde alguns trechos recebam tratamentos prioritários para pedestres, sem necessariamente fechar as ruas para os automóveis. Também padronização e nivelamento das calçadas da região central. É sempre importante lembrar que os concorrentes (shoppings e lojas de departamento paraguaias) oferecem espaços de circulação agradáveis, limpos e climatizados. O comércio do centro não pode disputar clientela ofertando calçadas, quebradas, sujas e desniveladas, algumas se assemelham mais a rampas, tamanho o grau de declividade. Isso torna a experiência do consumidor desconfortável. Experiência desagradável não conquista, afasta clientes.
Também, há necessidade de estacionamento rotativo eficiente, não se trata simplesmente de aumentar vagas, mas aumentar a rotatividade para possibilitar a chegada de mais clientes. Mas há que, simultaneamente, diversificar ao máximo as possibilidades de acesso ao centro: Incrementar as ciclovias, bicicletas e o transporte coletivo. O acesso ao centro não pode depender exclusivamente ou preponderantemente do automóvel.
Outro aspecto vital: Dourados tem clima quente o que torna a sombra artigo de primeira necessidade. É indispensável arborização intensa e adoção de marquises padronizadas e generosas, hoje elas se caracterizam pela descontinuidade e uma miscelânea de formatos, ofertando sombras esparsas e entrecortadas. Conforto térmico é vital para segurar a clientela circulando por mais tempo no comércio do centro. Não é à toa que os shoppings investem em climatização. 38 graus é habitual no verão douradense, nestas condições deixar os clientes expostos a insolação é empurrá-los para os braços cobiçosos da concorrência climatizada.
Por fim, é importante ressaltar que sim, o centro está perdendo exclusividade, mas não necessariamente centralidade. A cidade cresceu, o comércio se descentralizou, surgiu o shopping, talvez surja um segundo, as vendas on line ganharam importância e a concorrência paraguaia está logo ali. Porém, o centro continua concentrando uma parcela muito significativa das atividades comerciais e permanece como a principal referência comercial de nossa região. Portanto, o desafio é requalificar a centralidade. Poderíamos utilizar os desafios do comércio da nossa área central como oportunidade de construir um novo modelo de centro: mais compacto, arborizável, caminhável, residencial, diversificado e de uso misto.
(*) Professor de Planejamento Urbano. E-mail: [email protected]



