A anatomia de um paraíso artificial

A migração recorde de brasileiros para o Paraguai não foi apenas fiscal. Foi a face visível de um modelo de desregulamentação predatória que usou o Ueno Bank como vetor para capturar fundos públicos, lavar dinheiro e transferir o fracasso empresarial para milhões de poupadores. A queda do ex-presidente Santiago Peña é o desfecho de uma engenharia que sempre foi, em essência, criminosa.
Anita Tetslaff (*) –
Em 2025, o Paraguai concedeu um recorde de 40.600 autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade, 23.526, foi para brasileiros, quase o dobro do segundo colocado, a Argentina, com 4.366 concessões. A motivação era pelas posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos. O “paraíso” paraguaio era, portanto, a projeção material de uma utopia ideológica de um Estado mínimo, sem contrapartidas sociais e com máxima liberdade para o capital.
O que se seguiu não foi um acidente de percurso. Foi o desvelamento da lógica estrutural desse projeto. O colapso do Ueno Bank, o banco digital que concentrava as contas de quase metade da população paraguaia, expôs a arquitetura de um esquema de captura do Estado que utilizou o sistema financeiro como veículo para enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e saque de fundos de pensão. O “inferno” não veio depois do “paraíso”. Ele era o paraíso.
A migração não foi espontânea. Ela foi ativamente promovida por setores da direita brasileira como a encarnação de um modelo de sociedade. O “paraíso” era o marketing de um projeto político que incluía a redução do Estado e a minimização de proteções sociais e trabalhistas. A isca fiscal era o imposto de renda máximo de 10%, custo de vida baixo, burocracia mínima, tudo real, que funcionava como a porta de entrada para algo mais profundo que era a possibilidade de operar em um ambiente onde a regulação democrática havia sido deliberadamente enfraquecida.
O pensador húngaro Polanyi descreveu o “duplo movimento” do liberalismo como a expansão contínua do mercado autorregulado que é inevitavelmente seguida por um contramovimento da sociedade para se proteger. O projeto paraguaio tentou suprimir esse contramovimento popular ao eliminar a fiscalização, a proteção social e os mecanismos de responsabilização, para permitir que o mercado operasse sem os “atritos” da democracia. O Ueno Bank foi o instrumento operacional dessa supressão.
Em 2 de novembro de 2026, o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou o processo de resolução do Ueno Bank. O índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei. O banco, que começou a expandir-se em 2021 sob o controle do Grupo Vázquez e obteve licença plena em dezembro de 2023, chegou a concentrar 2,9 milhões de clientes, sendo quase metade dos 6,1 milhões de paraguaios, e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos de organismos públicos.
O maior depositante identificado era o Instituto de Previsión Social (IPS), o fundo de pensões paraguaio, que mantinha US$ 355 milhões no banco, aproximadamente 9% de toda a sua carteira de investimentos. Cerca de 32.000 aposentados dependiam da instituição para receber seus benefícios. O dinheiro da previdência de uma geração foi mobilizado para sustentar a liquidez de um banco privado.
A ligação com o poder político era direta e estrutural. O então presidente Santiago Peña foi acionista do Ueno Bank até abril de 2025; antes de assumir a Presidência, declarou uma participação na holding avaliada em 6.144 milhões de guaraníes. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, o órgão que deveria supervisionar o banco, havia presidido a Financiera Ueno antes de assumir o cargo regulador, renunciando em meio ao escândalo. Essa porta giratória entre o regulador e o regulado é a definição operacional de captura do Estado.
A operação do banco era, em si, a negação de qualquer princípio de regulação democrática. Clientes brasileiros relataram que a abertura de conta exigia apenas “fotos” e não demandava comprovação de origem de renda, em contraste com bancos tradicionais, que exigem documentação rigorosa. Essa fragilidade regulatória deliberada era o chamariz para capitais que buscavam anonimato e para a migração ideológica.
A investigação da Fiscalía paraguaia imputou 27 pessoas, sendo oito diretores do banco e 19 vinculados a empresas investigadas, por crimes que incluem lesão de confiança, tentativa de estafa e irregularidades comerciais. Para Peña, o desfecho foi bem previsível ao pedir renúncia do cargo em 5 de novembro de 2026, em uma tentativa de preservar o foro privilegiado de senador vitalício garantido pela Constituição paraguaia a ex-presidentes. Mas o Senado rejeitou a manobra e prosseguiu com o impeachment, aprovado por unanimidade.
Com a destituição, Peña perdeu a imunidade e foi preso em regime domiciliar. A Fiscalía também pediu a prisão de Carlos Carvallo, o ex-presidente do Banco Central. O novo presidente, Pedro Alliana, prometeu compensação integral aos afetados pelo “colapso financeiro”. Mas a promessa, por si só, não desfaz o dano institucional.
Este desfecho, no entanto, não deve ser lido como a “prova” de que as instituições funcionaram. Ele é, antes, um sintoma da profundidade da crise em que a responsabilização só se tornou possível porque o colapso econômico atingiu a base de sustentação política do próprio governo. A “onda conservadora global” que o projeto paraguaio invocava é um fenômeno estrutural, e não uma sequência de acidentes.
Nesse contexto, a queda de Peña não refuta a onda; ela ilustra sua fragilidade interna. Michel Foucault, em O Nascimento da Biopolítica, descreveu o neoliberalismo não apenas como uma política econômica, mas como uma arte de governar que produz um novo sujeito: o “empresário de si mesmo”, para quem toda a vida se torna capital humano a ser valorizado. O migrante ideológico que buscou o Paraguai era a encarnação desse sujeito. O colapso do Ueno Bank expôs que esse “empreendedorismo” era, para a maioria, uma armadilha e que eles eram os ativos que garantiam a liquidez do esquema, não os seus beneficiários.
Zygmunt Bauman, ao descrever a “modernidade líquida” como um mundo de “desregulação, flexibilidade, competitividade e incerteza endêmicas”, descreve como o “paraíso” paraguaio foi a promessa de certeza em um mundo líquido, a ilusão de que a desregulamentação traria segurança. A quebra do banco dissolveu essa ilusão, devolvendo os migrantes à fluidez e ao medo que tentavam escapar.
A análise do caso paraguaio revela que o “inferno” não foi uma consequência não intencional do “paraíso”. Ele era o produto necessário de um projeto que negava, por princípio, os mecanismos de proteção coletiva. A captura do Estado pelo Ueno Bank não foi uma falha do modelo de desregulamentação; foi sua expressão mais pura.
O que resta após a queda é a responsabilização, não apenas de Peña e dos diretores do banco, mas de um modelo intelectual e político que vendeu a ilusão de que a liberdade do mercado, sem a regulação democrática, poderia produzir prosperidade compartilhada. A lição do Paraguai é que, quando a política se torna “mera administração” a serviço da acumulação, o “governo de Ninguém” que dela emerge é, na verdade, o governo de alguns poucos, e o custo é sempre pago por milhões. O “paraíso” era o projeto. O “inferno” é a sua execução.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.



