Paulo Marcos Esselin — Professor titular aposentado da UFMS, ex-coordenador do Projeto de Implantação do S.E.S de Bonito (FAPEMS/PETROBRAS) –
Uma publicação da Rota Bioceânica (https://rotabioceanica.com.br/), em 20 de outubro de 2026, informou que Bonito e Caracol alcançaram 99% de cobertura na coleta e no tratamento de esgoto, com base em dados da Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (SANESUL). O indicador divulgado merece ser conhecido pela população.1
Quanto à cobertura desses serviços em Caracol, não disponho de informações que me permitam avaliá-la. Entretanto, quando se trata de Bonito, é indispensável recuperar o histórico das obras que permitiram a implantação e a expansão do sistema de esgotamento sanitário do município. Afinal, “como toda conquista tem uma história”, considero necessário corrigir algumas imprecisões presentes na reportagem e no pronunciamento do diretor-presidente da Sanesul.
Faço esse registro não com base em impressões pessoais, mas na condição de coordenador do Projeto nº 6000.0002116.04.4, desenvolvido por meio do convênio Petrobras/Fapems — Sistema de Esgotamento Sanitário de Bonito (MS) no ano de 2004.
O projeto, que tive o privilégio de coordenar, foi executado em duas etapas. A primeira compreendeu a implantação da rede coletora de esgoto, de interceptores, estações elevatórias, linhas de recalque e emissários. O investimento previsto para essa etapa foi de R$ 3.818.430,05. Após a conclusão dessa 1ª fase, foi restituído à Petrobras o valor de R$ 890.227,75.
A segunda etapa consistiu na execução de 250 (duzentos e cinquenta) ligações intradomiciliares a população com baixo poder aquisitivo e a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), dotada de sistema de desinfecção com gerador de dióxido de cloro, com orçamento de R$ 5.604.000,00. Ao término das obras, foram devolvidos R$ 119.000,00 a doadora (PETROBRAS). O dióxido de cloro foi adotado no processo de desinfecção com foco na não geração de trihalometanos (THMs) que são compostos que poderiam contaminar os recursos hídricos de Bonito.
As ligações intradomiciliares foram uma iniciativa de suma importância que atendeu famílias de baixa renda dos bairros Vila Marambaia e região, Vila América, Vila Machado e outras localidades, com o objetivo de assegurar a universalização do sistema de coleta e tratamento dos efluentes domésticos na área urbana.
A Petrobras também destinou recursos à construção de um Centro de Múltiplo Uso na área da antiga ETE, um passivo ambiental de responsabilidade da SANESUL, já que a eficiência desse sistema de tratamento não atendia a legislação ambiental e tampouco a garantia da qualidade das águas dos mananciais. Esse espaço que atualmente abriga a Secretaria Municipal de Turismo, onde no local, foram construídas ainda uma pista de skate, quadras de futebol de salão, campo de futebol, quadras de areia e pista de caminhada. Na nova estação de tratamento, a PETROBRAS instalou um marco alusivo à sua participação no empreendimento.
É importante registrar que os recursos empregados nesses investimentos foram doados pela Petrobras, o que possibilitou alcançar a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto em Bonito desde o ano de 2007. A única contrapartida financeira da estatal SANESUL se restringiu ao Programa de Educação Ambiental. Por uma questão de justiça histórica, cabe registrar que os recursos destinados à construção da rede coletora e da ETE foram obtidos graças à intervenção do então senador Delcídio do Amaral, que, à época, desfrutava de expressivo prestígio político tanto no cenário nacional quanto em Mato Grosso do Sul. Nenhum outro governante participou dessas tratativas junto a Petrobras.
Viabilizadas as obras com esses recursos, o Sistema de Esgotamento Sanitário com a Estação de Tratamento de Esgoto de Bonito em operação foi inaugurada em 2 de agosto de 2007, às 9h, com a presença do então governador André Puccinelli — e não em 2026, como informado na matéria. Por isso, a divulgação de indicadores em 2026 não deve apagar a origem dos investimentos nem confundir a implantação histórica do sistema com eventuais ampliações ou melhorias posteriores.
Naquele período, Bonito já se destacava como um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil. Por isso, a ampliação da infraestrutura sanitária representava não apenas um avanço na saúde pública, mas também uma medida essencial para a preservação ambiental, proteção dos recursos hídricos e para a sustentabilidade da atividade turística. Foram apresentados a PETROBRAS um conjunto de dados e informações que sensibilizasse a Diretoria da estatal dos impactos positivos do projeto e que se enquadravam dentro do Programa Petrobras Socioambiental.
A UNIVERSALIZAÇÃO alcançada DESDE 2007 deve ser reconhecida como resultado de um processo histórico construído com planejamento, financiamento e trabalho técnico. “Preservar essa memória é indispensável para que os méritos sejam atribuídos com precisão e para que a sociedade compreenda como consolidou a infraestrutura de saneamento naquele município”. Importante também que o Estado de MS reconheça os investimentos do Governo Federal para o atingimento da universalização dos serviços de esgotos, sendo que já destinou desde 2006 mais de R$1 bilhão de reais para obras de esgotamento sanitário, sendo que 50% desses valores a Fundo Perdido, ou seja, sem qualquer custo a SANESUL. 2
NOTAS
1 – Texto de referência: “Com serviço universalizado, Bonito e Caracol Alcançam99% de cobertura de esgoto”, publicado pela Rota Bioceânica em 20 de outubro de 2026.
2 – Fonte: https://portaldatransparencia.gov.br/convenios/consulta? https://acompanhamentoobras.caixa.gov.br/#/resultado-busca-cidadao





