A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 não foi apenas um evento nacional. Ela ecoou como um símbolo de resistência democrática em um mundo sitiado pela extrema-direita provando que a esperança é mais eficaz que o ódio
Anita Tetslaff (*) –
O mundo mira o Brasil, o “L” se converteu em “La fuerza del amor”. A eleição de 2026 não foi apenas uma disputa nacional entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Ela se tornou um evento geopolítico observado como um teste decisivo para a democracia e para o futuro da extrema-direita no mundo. O “L” de Lula, que em 2022 ecoou como símbolo de resistência, em 2026 carrega o peso de uma possível interrupção da “onda MAGA” (“Make America Great Again”, traduzido: “Faça a América Grande Novamente”) que avança sobre a América Latina. A imprensa internacional não hesitou em enquadrar o pleito ao definir Lula como “um gigante da esquerda na América Latina” que luta por sua “última chance” no poder.
A lição deixada pela derrota de Jair Bolsonaro em 2022, em que “o homem se vai, mas seu movimento não desaparece”, nas palavras do professor Benjamin Teitelbaum, confirmou-se em 2026. A candidatura de Flávio Bolsonaro foi lançada com a reivindicação explícita do legado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, e contou com o apoio declarado de Javier Milei, presidente da Argentina, presente à convenção do PL. A vitória apertada de Lula, com 51,8% dos votos válidos contra 48,2% de Flávio, foi recebida pelo primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez como o “início do fim” da onda de extrema-direita global, e pelo New York Times como uma “resposta contundente ao avanço da direita” e um “exemplo raro de resistência” à estratégia de Washington de projetar poder sobre a região.
A rede que une Trump, Giorgia Meloni, Primeira-Ministra da Itália, e Santiago Abascal, líder do Vox na Espanha, que havia se mobilizado em favor de Flávio, tratou o pleito como capítulo da disputa global entre “liberdade e socialismo”. Abascal chegou a afirmar que “somente os Bolsonaros podem salvar o Brasil”. O “L” de Lula, assim, deixou de ser apenas gesto de campanha e tornou-se grito de resistência ao autoritarismo, lido pela imprensa internacional como “fórmula para derrotar a extrema direita” e “raro exemplo de resistência” à projeção de poder de Washington sobre a região.
No Brasil, a vitória foi construída por um movimento de base que surpreendeu. Cinco características marcaram essa arrancada. Primeiro, os estudantes foram às ruas, com início na Universidade Federal Fluminense (UFF), ainda no primeiro turno, sinalizando que a juventude não aceitaria passivamente o retrocesso. Segundo, formou-se uma ampla aliança antifascista, da qual participaram setores que, em outros momentos, jamais haviam se imaginado lado a lado, unidos pelo reconhecimento de que a democracia estava em risco. Terceiro, o que se convencionou chamar de “exército de Lula contra os algoritmos” mobilizou mais de 10 milhões de pessoas em grupos de WhatsApp, disputando a narrativa nas redes sociais e furando a bolha da desinformação. Quarto, os “super-heróis com mais de 70 anos”, eleitores que não são obrigados a votar, compareceram em massa, movidos pela memória dos retrocessos e pela esperança de um país mais justo. Quinto, as caravanas cruzaram o país: ônibus lotados, voos esgotados, comunidades ribeirinhas que navegaram por horas em voadeiras e indígenas que deixaram suas aldeias para garantir um voto sequer.
A reação da direita bolsonarista, no entanto, veio de onde era previsível: no campo da hostilidade e da perseguição. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) lançou um desafio aos comerciantes que apoiaram Lula para que colocassem a bandeira do PT em seus estabelecimentos, uma estratégia que, sob a aparência de orgulho, pretendia expor e retaliar opositores. Nas horas seguintes, listas de estabelecimentos começaram a circular em grupos bolsonaristas, estimulando o boicote e a destruição de negócios locais. Em outra frente, casos de assédio eleitoral se multiplicaram, com empresários declarando publicamente a demissão de funcionários que haviam votado em Lula, como no caso do importador Juan Davi, que afirmou ter desligado de 12 a 13 trabalhadores por esse motivo. Tais práticas, além de configurarem crime eleitoral e assédio moral, revelam um modus operandi que visa punir a escolha democrática do eleitor e inviabilizar a existência política do outro.
Essa postura reflete a natureza do projeto que a direita brasileira abraçou. Como analisa o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), o bolsonarismo trocou a construção de uma sucessão viável e de um projeto nacional por uma estratégia de autopreservação do clã: “O projeto nunca foi coletivo; sempre foi pessoal”. A ideia de que uma derrota eleitoral exigiria deixar o país é a expressão máxima desse mesquinho personalismo, incompatível com a lógica democrática, que se faz de governo e de oposição, de alternância e de limites institucionais. A democracia depende de uma oposição que saiba se comportar democraticamente, que fiscalize, que dispute o Congresso e as ruas, mas que não confunda adversário com inimigo a ser eliminado.
A vitória de Lula, portanto, não se resume a uma alternância de poder. Ela representou a prova tangível de que a esperança organizada é mais eficaz do que o ódio disseminado. O “L” que atravessou fronteiras e ecoou em Madrid, Buenos Aires e Washington revelou que a resistência democrática é transnacional e que o Brasil se tornou um farol para aqueles que se recusam a sucumbir ao autoritarismo. Internamente, o movimento que elegeu Lula, com suas cinco frentes, demonstrou que a democracia se defende com participação popular, alianças amplas e disputa de narrativas. A reação da extrema-direita com boicotes, demissões, listas de perseguição apenas confirma o diagnóstico: o bolsonarismo não tem projeto de sociedade, apenas um projeto de poder pessoal que se recusa a aceitar as regras do jogo democrático.
Cabe à esquerda, agora no governo, reorganizar-se, avaliar o impacto das manifestações na vida orgânica do PT e aprender a fazer oposição com minoria no Congresso, sem abrir mão da defesa intransigente das instituições. O Brasil não é perfeito, mas tem ferramentas. E a principal delas é a certeza de que a democracia, quando encontra um povo disposto a lutar por ela, é mais forte do que qualquer onda de ódio.
(*)Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.



