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‘A santidade como claridade: a graça de uma beatificação em tempos de fé inquieta’, por Ana Maria Bernadelli

Por Ana Maria Bernardelli –

A beatificação ultrapassa os limites de uma cerimônia religiosa. É o momento em que a Igreja, após um percurso de investigação, oração e discernimento, reconhece em uma vida humana os sinais de uma existência atravessada pela graça. Não significa declarar que alguém jamais conheceu a fragilidade, mas reconhecer que, em meio às imperfeições da condição humana, essa vida se tornou lugar de manifestação do amor de Deus.

Há algo de profundamente humano nesse reconhecimento. A santidade não nasce necessariamente dos grandes gestos registrados pela História, mas também das escolhas silenciosas que quase ninguém vê: a mão estendida quando seria mais fácil afastar-se, a palavra que restitui dignidade, a perseverança diante do desânimo, a caridade que não exige testemunhas. Os santos não são pessoas que deixaram de ser humanas; são pessoas cuja humanidade se tornou passagem para o divino.

A parábola do fermento, narrada em Mateus (13,33), oferece uma imagem particularmente fecunda dessa transformação. O fermento atua por dentro, modifica a massa sem alarde e revela sua força nos efeitos que produz. Assim também a graça: nem sempre se anuncia em acontecimentos extraordinários; muitas vezes, manifesta-se na delicada transformação de uma existência que aprende a amar para além de si mesma. A santidade talvez seja essa força discreta que, sem reivindicar o centro da cena, modifica a realidade ao redor.

Para a Igreja Católica, cada beatificação representa mais do que a inclusão de um nome no calendário litúrgico. É o reconhecimento de uma vida como testemunho concreto do Evangelho. Em tempos de fé inquieta, marcados por polarizações, desconfianças e contradições entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica, esse reconhecimento devolve à comunidade cristã uma pergunta incontornável: que rosto assume o Evangelho quando deixa de ser apenas palavra e se torna existência?

A pergunta alcança o coração da experiência religiosa contemporânea. Não bastam discursos que defendam verdades; é preciso que essas verdades encontrem correspondência na vida. O mundo conhece suficientemente as palavras fraternidade, justiça, misericórdia e esperança. O que tantas vezes lhe falta é reconhecê-las encarnadas em gestos. A beatificação nos permite contemplar uma trajetória na qual a fé se tornou compromisso e a espiritualidade, responsabilidade diante do outro.

É impossível não recordar São Paulo, quando afirma que, mesmo que alguém conheça todos os mistérios e possua todos os dons, sem amor nada será (1 Coríntios 13). Nessa passagem, encontramos uma medida essencial da santidade: não a excepcionalidade convertida em espetáculo, mas o amor transformado em testemunho. A grandeza espiritual não se mede apenas pelo que alguém realizou, mas também pela dignidade que soube reconhecer no outro, pela dor que ajudou a aliviar e pela esperança que tornou possível.

A beatificação, entretanto, não aprisiona a santidade em um título. Reconhece uma vida cujo testemunho merece ser acolhido, estudado e transmitido à comunidade cristã. Seu significado não se esgota no ato oficial: abre uma possibilidade de encontro entre a memória de uma existência e as escolhas daqueles que a contemplam. O reconhecimento eclesial não encerra uma história; convida a descobrir o que ela ainda pode ensinar.

É nesse ponto que a beatificação revela uma de suas maiores graças em um tempo de fé conturbada: ela devolve à esperança uma biografia. Quando as palavras parecem desgastadas pelo uso e as instituições são confrontadas com suas próprias fragilidades, uma vida de santidade recorda que o Evangelho continua capaz de produzir humanidade. Não uma humanidade idealizada, protegida das contradições, mas aquela que atravessa a dor sem fazer do sofrimento uma justificativa para a indiferença.

Penso nos discípulos de Emaús, narrados por Lucas (24,13-35). Caminhavam desanimados, incapazes de reconhecer a presença que os acompanhava, até que seus olhos se abriram ao partir do pão. A cena contém uma das mais delicadas lições da experiência espiritual: a presença pode estar no caminho antes mesmo que sejamos capazes de reconhecê-la. Também a Igreja precisa, em cada época, reaprender a discernir os sinais da graça na história humana.

Uma beatificação não elimina as sombras, não responde a todas as crises nem dispensa a exigência permanente de conversão da própria Igreja. Sua força está em oferecer à comunidade um testemunho concreto de fidelidade ao Evangelho. O reconhecimento da santidade não deve afastar a Igreja do exame de consciência; ao contrário, deve torná-la ainda mais atenta à distância que pode existir entre a mensagem que anuncia e a realidade que constrói.

A santidade, portanto, não é uma vitrine de virtudes para ser admirada à distância. É uma interpelação. A vida de alguém reconhecido pela Igreja parece nos perguntar: que fazemos com aquilo que professamos acreditar? A resposta não está somente nas orações que pronunciamos ou nas celebrações de que participamos, mas também na maneira como tratamos os vulneráveis, acolhemos as diferenças, exercemos a justiça e assumimos a responsabilidade pela vida alheia.

É nessa passagem da admiração à consciência que a beatificação encontra uma de suas mais fecundas possibilidades de renovação espiritual. A veneração torna-se aprendizagem; a memória, compromisso; e a fé, uma maneira mais responsável de estar no mundo. A graça deixa de ser apenas contemplada e passa a ser acolhida como tarefa.

Porque a graça não é uma medalha colocada sobre o passado. É uma semente confiada ao presente.

Beatificar é reconhecer que uma vida se deixou transformar pela graça; é também convidar outras vidas a descobrir o que o amor pode realizar no mundo. A santidade não é uma impossibilidade reservada a seres extraordinários. É a possibilidade, exigente e profundamente humana, de viver de tal maneira que a presença de Deus se torne perceptível na relação com o outro.

Que o processo de beatificação do Padre João Crippa nos ajude a compreender que certas vidas não se encerram no tempo em que foram vividas. Permanecem como testemunhos que interrogam nossa consciência e renovam nossa responsabilidade diante do Evangelho. E talvez essa seja uma das graças mais necessárias à Igreja de nosso tempo: reconhecer, na trajetória de quem procurou servir a Deus, não apenas uma memória digna de veneração, mas um chamado à transformação de nós mesmos.

Afinal, a santidade de uma vida alcança novos horizontes quando aquilo que nela testemunhou o amor deixa de pertencer somente à sua história e passa a inspirar a história de muitos outros.

Ana Maria Carneiro Bernardelli é poeta, ensaísta, crítica literária e professora, ocupante da Cadeira nº 27 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras desde 2022. Natural de São Paulo, reside em Campo Grande (MS) desde 1994. Com mais de 40 anos dedicados à educação, possui formação em Letras e Língua e Literatura Francesa, além de formação musical. É autora de obras de poesia, contos e literatura infantil, entre elas Na Trilha das Formigas (2020). Integra a Comissão Sul-Mato-Grossense de Folclore e destaca-se pela contribuição à literatura, à educação e à valorização da leitura e da escrita.

Uma homenagem da Casa da Literatura – www.portalcasadaliteratura.com.br

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