Wilson Matos, do Jornal Indígena News MS (*) –
Além de sua trajetória política e esportiva, Roberto Razuk é lembrado pelo incentivo à produção agrícola e pelo apoio às atividades esportivas nas aldeias Jaguapiru e Bororó nos anos 1984 a 1995. Ex-coordenador da CEAID, advogado indígena Wilson Matos resgata essa memória histórica e presta homenagem à família.
O falecimento do ex-deputado estadual Roberto Razuk representa não apenas a despedida de uma personalidade conhecida da política e do esporte sul-mato-grossense, mas também uma oportunidade para resgatar capítulos de sua trajetória que permanecem na memória dos povos indígenas da Reserva Indígena de Dourados (RID).
Com atuação parlamentar na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul entre 1987 e 1995, Roberto Razuk construiu uma trajetória pública marcada pela participação política, pelo envolvimento com o esporte e pelo relacionamento com diferentes setores da sociedade douradense.
Entretanto, uma parte dessa história merece especial reconhecimento: **o apoio prestado às comunidades indígenas das aldeias Jaguapiru e Bororó, particularmente aos pequenos agricultores e aos desportistas indígenas.
APOIO À AGRICULTURA INDÍGENA E À PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Em uma época em que as dificuldades estruturais enfrentadas pelos agricultores indígenas eram ainda mais acentuadas, Roberto Razuk contribuiu para viabilizar atividades essenciais à produção agrícola nas aldeias.
Entre as iniciativas lembradas por moradores e lideranças indígenas está o fornecimento de combustível para o funcionamento de máquinas agrícolas utilizadas no preparo do solo e no cultivo de lavouras de subsistência.
Essas contribuições possuíam significado especial para as famílias Guarani, Kaiowá e Terena, cuja sobrevivência estava diretamente relacionada ao aproveitamento das pequenas áreas destinadas à produção de alimentos.
O apoio à mecanização agrícola representava mais do que uma contribuição material: significava oferecer condições para que famílias indígenas pudessem preparar suas terras, realizar o plantio e produzir parte dos alimentos necessários à própria subsistência.
Na memória de agricultores indígenas que vivenciaram aquele período, iniciativas dessa natureza representavam importantes instrumentos de fortalecimento da produção comunitária.
Reconhecer essas contribuições é também preservar uma parte da história da agricultura indígena na Reserva de Dourados.
ESPORTE COMO INSTRUMENTO DE INTEGRAÇÃO SOCIAL
A ligação de Roberto Razuk com o esporte, especialmente por sua atuação à frente do tradicional Ubiratan Esporte Clube, também encontrou expressão nas comunidades indígenas.
Ao longo de sua trajetória, o ex-deputado colaborou com iniciativas esportivas nas aldeias, mediante a doação de bolas, uniformes, troféus e outros materiais destinados à realização de competições locais.
Para a juventude indígena, essas contribuições representavam oportunidades de participação em torneios, fortalecimento dos vínculos comunitários e incentivo à prática esportiva.
Nas aldeias Jaguapiru e Bororó, o futebol sempre ocupou um espaço importante na convivência social, reunindo crianças, jovens, adultos e famílias em torno de competições comunitárias.
O incentivo ao esporte, portanto, não se limitava à entrega de materiais. Representava também um gesto de reconhecimento e valorização dos atletas indígenas.
Essa dimensão da trajetória de Roberto Razuk merece ser lembrada como parte de sua contribuição à vida social das comunidades indígenas de Dourados.
A CONTINUIDADE DAS AÇÕES NA GESTÃO DE DÉLIA RAZUK
Outro capítulo importante dessa relação histórica com a Reserva Indígena ocorreu durante a administração municipal da ex-prefeita Délia Razuk.
Na condição de advogado indígena e então coordenador da Coordenadoria Especial de Assuntos Indígenas (CEAID), tive a oportunidade de participar diretamente da execução de ações destinadas à melhoria das condições de infraestrutura das comunidades.
Durante aquele período, desenvolvemos trabalhos de abertura, conservação e encascalhamento de vias internas das aldeias Jaguapiru, Bororó e da comunidade indígena de Panambizinho.
Essas intervenções foram relevantes para melhorar as condições de mobilidade, especialmente em períodos de chuva, quando diversas estradas apresentavam dificuldades de tráfego.
A manutenção das vias também contribuiu para facilitar o transporte escolar, o deslocamento dos moradores, o escoamento da produção agrícola e o acesso de ambulâncias e outros serviços essenciais.
É importante registrar que essas realizações integraram as ações da administração municipal de Délia Razuk, com a participação da CEAID e dos setores responsáveis pela execução dos serviços.
O registro dessas iniciativas permite compreender, em diferentes momentos históricos, a relação da família Razuk com demandas apresentadas pelas comunidades indígenas de Dourados.
A MEMÓRIA HISTÓRICA E O RECONHECIMENTO
A história de uma comunidade não é construída apenas pelos grandes acontecimentos políticos, mas também por iniciativas que, em determinados momentos, contribuíram para melhorar as condições de vida de sua população.
Como indígena da etnia Terena, nascido e criado na Aldeia Jaguapiru, advogado e ex-gestor público, considero importante registrar essas lembranças.
O reconhecimento de contribuições históricas não significa ignorar os desafios que ainda permanecem na Reserva Indígena de Dourados, tampouco deixar de exercer uma avaliação crítica sobre a atuação dos agentes públicos.
Significa, acima de tudo, praticar a justiça da memória: reconhecer aquilo que efetivamente contribuiu para o desenvolvimento das comunidades e preservar esses acontecimentos para as futuras gerações.
A história deve ser contada com responsabilidade, sem omissões e sem apagar aqueles que, em diferentes momentos, estenderam as mãos às nossas comunidades.
NOTA DE PESAR À FAMÍLIA RAZUK
Neste momento de despedida, manifesto meus sinceros sentimentos à ex-prefeita de Dourados, Dona Délia Razuk, aos filhos, netos e demais familiares do ex-deputado Roberto Razuk.
Que Deus conceda conforto, serenidade e força à família para enfrentar este momento de dor.
A vida pública é marcada por desafios, divergências e realizações. Entretanto, a despedida definitiva nos convida a refletir sobre aquilo que permanece: as lembranças, os gestos de solidariedade e as contribuições que atravessam o tempo.
Que Roberto Razuk descanse em paz e que sua memória seja preservada com respeito, reconhecendo-se também os capítulos de sua trajetória relacionados aos povos indígenas de Dourados.
(*) Wilson Matos da Silva e advogado e jornalista
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