“O povo de MS está descontente com o governo Riedel. Só o elegeu porque está no espectro ideológico da moda”
José Henrique Marques –
Em meados de 2025, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Mato Grosso do Sul (OAB/MS), Fábio Trad, assumiu, talvez, o maior desafio político de sua carreira: se filiou ao Partido dos Trabalhadores. Nem tanto pela guinada à esquerda. Afinal, sempre teve perfil social-democrata e seu pai, o ex-deputado federal Nelson Trad, foi uma das lideranças perseguidas pela ditadura militar imposta aos brasileiros de 1964 a 1985.
A aversão aos regimes totalitários e o avanço da extrema direita (fascista) na política brasileira provocou natural magnetismo entre Fábio Trad e o PT.
O desafio não foi a filiação, mas sim em atender clamores da militância e das lideranças petistas e desafiar, nas urnas, o conglomerado de interesses elitistas representado pelo projeto de reeleição de Eduardo Riedel (PP).
A candidatura de Fábio Trad ao Governo do Estado foi fruto de reflexão dele, da família, de lideranças do PT e do entourage. Não foi confirmada na filiação, na plenária do PT, na Fetems, em Campo Grande, mas muitos meses depois, já em 2026. Foi coisa pensada.
Fábio Trad e o partido sempre souberam que a missão era difícil, diante do “azambujismo que cooptou todas as forças políticas do estado, exceto o PT”.
Além de enfrentar o poderio da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), da maioria dos veículos de imprensa, prefeitos e vereadores dos 79 municípios e o agronegócio, a candidatura de Fabio Trad foi prejudicada “por um sentimento de hostilidade ao campo democrático que beneficiou Riedel”. Mesmo assim, conquistou 322.807 votos, ficando em segundo lugar.
Em entrevista exclusiva à Folha de Dourados, sobre as eleições de 4 de outubro, ele disse que o PT avançou em MS. “Em 2018, apenas nove por cento (dos votos); 2022, dez por cento. 2026, mais que dobramos (23,68%). O partido fez a deputada federal mais votada (Camila Jara). Ampliamos para quatro as cadeiras na Assembleia Legislativa (Zeca do PT, Gleice Jane, Pedro Kemp e Tiago Botelho). Crescemos.”
Fábio Ricardo Trad nasceu em Campo Grande há 57 anos, é casado com Flávia, tem cinco filhos. É advogado, professor universitário e foi deputado federal por dois mandatos, 2011-22.
Leia a seguir a entrevista.
Folha de Dourados – Dr. Fábio, por favor, uma análise sobre a experiência de se candidatar ao Governo de Mato Grosso do Sul.
Fabio Trad – Foi positiva. Sabíamos das dificuldades pela desvantagem estrutural, mas quem nos venceu foi a febre da extrema direita que tomou o país inteiro. Riedel foi só o instrumento.

O senhor conquistou 322.807 votos, ou 23,68% do eleitorado, o PT aumentou a bancada na Assembleia Legislativa de 3 para 4 deputados, mas perdeu uma cadeira na Câmara dos Deputados. A performance do partido foi satisfatória ou muito aquém do esperado?
Os números indicam que avançamos. Em 2018, apenas nove por cento; 2022, dez por cento. 2026, mais que dobramos. O partido fez a deputada federal mais votada. Ampliamos para quatro as cadeiras na Assembleia Legislativa. Crescemos!
“O partido fez a deputada federal mais votada. Ampliamos para quatro as cadeiras na Assembleia Legislativa. Crescemos!”
Lá atrás, antes mesmo da pré-campanha, o PT providenciou pesquisa qualitativa para interpretar e compreender o sentimento e aspiração do conjunto da população sul-mato-grossense?
Sim, havia desejo de mudança, porém repito a febre da extrema direita no Brasil inteiro atingiu as candidaturas progressistas. Riedel foi apenas o instrumento.

A pesquisa qualitativa poderia sinalizar, inclusive, que o projeto do presidente regional do PT, o deputado federal Vander Loubet, de conquistar uma das duas vagas ao Senado era utópico…
Discordo. Havia chances, porém o Brasil foi contaminado por um sentimento de hostilidade ao campo democrático e todas as variáveis detectadas nas pesquisas foram lançadas ao vento.
“Havia chances, porém o Brasil foi contaminado por um sentimento de hostilidade ao campo democrático”
O presidente Lula afirmou que a campanha presidencial deste ano (primeiro turno) foi a mais desorganizada, desde a primeira, em 1989. Essa desorganização refletiu em MS?
Diria estranha pela apatia do eleitorado misturado a um comodismo complacente com o atual governo estadual. Além disso, a ventania fascista no final. Deu no que deu.
“Diria estranha pela apatia do eleitorado misturado a um comodismo complacente com o atual governo estadual”.
Em MS, Lula teve 516.855 votos ou 34,68% dos votos válidos. O senhor, contudo, obteve 322.807 ou 23,68% dos votos válidos. Por que sua campanha não teve o mesmo desempenho do que a de Lula?
Porque o “azambujismo” cooptou todas as forças políticas do estado, exceto a nossa, fazendo com que votassem em Riedel e Lula. Este é o principal problema político do estado.
“o ‘azambujismo’ cooptou todas as forças políticas do estado, exceto a nossa, fazendo com que votassem em Riedel e Lula”.
O senhor se sentiu abraçado pela militância petista? O PT foi, de fato, às ruas defender sua candidatura?
Não tenho o que reclamar. Foi uma campanha linda. Crescemos!
A reeleição do governador Eduardo Riedel não teve contribuição do PT, como no segundo turno de 2022. Na sua opinião, como o partido deve se posicionar na Assembleia Legislativa?
Oposição dura e vigilante. Não pode se corromper com cargos ou outros favores antirrepublicanos.

Durante a campanha o senhor denunciou vários casos de corrupção no Governo Riedel. Qual será sua postura a partir de agora, como liderança de oposição?
Exercendo o meu papel de cidadão contrário ao modelo do atual governo. O povo de MS está descontente com o governo Riedel. Só o elegeu porque está no espectro ideológico da moda.
“O povo de MS está descontente com o governo Riedel. Só o elegeu porque está no espectro ideológico da moda”.
O senhor tem projeto para a sucessão da prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes? O que vislumbra para seu futuro político?
Não me preocupo com mandatos. Se fosse assim, estaria do lado de lá, viajando de jatinhos cheio de mordomias e facilidades. Eu me elegeria fácil se estivesse do lado de lá, porém seria um personagem; uma farsa.
“Eu me elegeria fácil se estivesse do lado de lá, porém seria um personagem; uma farsa”.
Quanto à reeleição do presidente Lula. O senhor está otimista? O ciclo do PT está se exaurindo depois de quase 20 anos? O que fazer?
Creio na vitória do Lula. Há muito o que se fazer para o Brasil avançar. Flavio não tem preparo e estatura para o cargo. Ele é apenas filho de alguém. Nunca se fez por si.
“Flavio não tem preparo e estatura para o cargo. Ele é apenas filho de alguém”.
Na sua opinião, eventual vitória de Flavio Bolsonaro é um risco à democracia?
Sim, é a certeza do fim. O Brasil viverá o regime oligárquico familiar das milícias.
A reforma do Poder Judiciário é hoje unanimidade no País. O senhor acredita que vá mesmo acontecer?
Depende de quem se eleger. Com Lula, haverá reforma para melhorar o Judiciário. Com Flávio, a reforma se dará para proteger o clã e perpetuá-lo no poder.
“Com Lula, haverá reforma para melhorar o Judiciário. Com Flávio, a reforma se dará para proteger o clã”
Considerações finais.
Agradeço o espaço concedido e parabenizo o veículo que manteve a independência como virtude do bom jornalismo.



