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‘A confraria dos voos rasantes’, por João Roberto Giacomini

João Roberto Giacomini — Advogado e Escritor

Há pessoas que escolhem suas companhias pela afinidade de ideias, pela admiração recíproca ou pelo simples prazer de estar perto de alguém sem precisar de absolutamente nada. Outras possuem critérios mais objetivos. Aproximam-se de quem lhes possa oferecer vantagens, ainda que, poucas horas antes, estivessem ocupadas em descrever os defeitos morais, intelectuais e até anatômicos do futuro aliado. Aparentemente, o desprezo não impede uma boa sociedade. Basta que a conveniência apresente uma proposta interessante.

La Rochefoucauld, que conhecia como poucos as vaidades humanas, talvez sorrisse diante dessas alianças, nas quais a estima é improvisada depois que o interesse decide o encontro. O abraço vem primeiro; a justificativa moral aparece depois. Não houve reconciliação de princípios. Houve apenas coincidência de conveniências.

O curioso é que algumas dessas criaturas se proclamam absolutamente independentes. Dizem que são donas do próprio nariz e não se curvam diante de ninguém. Entretanto, basta que suas necessidades sejam ameaçadas para que a independência adquira a flexibilidade de uma vara de pescar. O nariz continua sendo delas. Apenas a direção para a qual aponta passa a depender de terceiros.

São os especialistas no voo de galinha. Batem as asas, levantam poeira, produzem um escândalo de penas e, por alguns segundos, acreditam ter conquistado os céus. Logo retornam ao terreiro, onde encontram o milho e a conveniente companhia de outras aves igualmente convencidas de sua vocação para a altitude. Confundem movimento com liberdade, barulho com autoridade e dependência com autonomia.

Nietzsche talvez reconhecesse nessa confraria uma forma peculiar de servidão: indivíduos que anunciam sua liberdade enquanto dependem da aprovação daqueles que afirmam desprezar. Querem independência, mas não desejam pagar seu preço. Assim nasce uma das grandes comédias da vida social: pessoas que conhecem intimamente as fraquezas umas das outras formando uma associação destinada a convencer o mundo de que todas são exemplos de virtude.

Não há propriamente confiança. Há um equilíbrio entre desconfianças. Cada integrante conhece a capacidade do outro de depreciar terceiros, porque já o ouviu fazê-lo. Ainda assim, permanecem juntos, esperando que a utilidade presente sobreviva à deslealdade futura. Quando a conveniência termina, as máscaras caem. O que ontem era personalidade forte transforma-se em arrogância; a esperteza vira desonestidade e a habilidade política passa a ser chamada de manipulação. Os personagens continuam os mesmos. Mudou apenas o interesse de quem os descreve.

Há, entretanto, um detalhe que os integrantes dessas confrarias parecem ignorar: quando a afinidade nasce da língua felina, cedo ou tarde seus próprios criadores conhecerão a profundidade das garras que ela esconde. Quem se aproxima de alguém pelo prazer de depreciar terceiros dificilmente estará protegido da mesma prática. Afinal, a língua que hoje acaricia seus interesses é a mesma que amanhã poderá dilacerar sua reputação. E não adianta reclamar da mordida quando se ajudou a alimentar a fera.

Schopenhauer talvez não se surpreendesse. Eu continuo espantado com a facilidade com que certas pessoas suspendem a própria indignação diante de uma vantagem conveniente. E nem sempre se trata de dinheiro. Há quem sacrifique relações inteiras para preservar a própria imagem ou conservar o privilégio de ter sempre razão.

Há, felizmente, os que voam de outra maneira. Não são necessariamente mais ricos, poderosos ou inteligentes. Apenas compreenderam que a liberdade exige a capacidade de perder oportunidades, favores, proteções e até companhias. Sabem que a solidão ocasional pode custar menos do que determinadas alianças. Voam mais alto porque não precisam permanecer presos ao terreiro de quem distribui o milho.

O mais desconcertante é que a exposição das contradições raramente provoca constrangimento. As vísceras morais podem estar à mostra, as antigas declarações podem desmentir as alianças presentes e, ainda assim, tudo continua normalmente: cumprimentos, fotografias, celebrações e demonstrações públicas de estima. Uma festa sobre os escombros da própria coerência.

Talvez essa seja a verdadeira tragédia: não a existência da hipocrisia, conhecida desde os primeiros filósofos, mas a capacidade humana de normalizá-la quando se torna útil.

Quanto a mim, continuo preferindo observar as aves. As galinhas, ao menos, não fingem ser águias por conveniência. Já certas criaturas humanas transformam o terreiro numa academia de moral, o milho numa questão de princípios e o poleiro numa posição de extraordinária relevância social.

No fim, compreendi que certas alianças não se formam apesar daquilo que seus integrantes são, mas precisamente por causa disso.

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