Pedro Machado Mastrobuono (*)
” …uma esplêndida civilização assentada
na mais bela província da Terra.”
Darcy Ribeiro
“Antes de publicar o texto de Pedro Mastrobuono, quero fazer uma breve introdução, não apenas por nossa amizade, mas porque há textos que, pela força do pensamento e pela emoção com que nos alcançam, deixam de pertencer somente a quem os escreveu: pedem para ser compartilhados.
Pedro Mastrobuono e eu somos grandes amigos. Ao longo do tempo, construímos uma interlocução que ultrapassa a amizade: compartilhamos leituras, ideias, inquietações, elaboração de livros e projetos; trocamos textos diariamente e, não raro, ele me envia, ainda de madrugada, aquilo que acabou de escrever, como quem divide primeiro com alguém próximo uma pergunta que ainda reverbera dentro de si.
Foi assim que recebi o texto que segue. Pedro escreve a partir da realidade política e social que o resultado das eleições de 2026 nos impõe. Confesso que suas palavras me tocaram profundamente. Li o texto na madrugada de segunda-feira e não consegui mais dormir. Não apenas pela emoção, mas pela clareza com que ele procura compreender o momento brasileiro sem se deixar aprisionar pela superfície dos acontecimentos.
Há, em sua reflexão, uma pergunta maior do que a própria eleição: que país estamos construindo e que país ainda desejamos ser? Por isso, pedi-lhe que me permitisse compartilhá-lo. Mais do que um comentário sobre um resultado eleitoral, este ensaio é um convite à reflexão.
Pedro recupera uma ausência que, neste momento, me parece especialmente eloquente: a falta de Darcy Ribeiro como uma forma de pensar o Brasil. Não se trata simplesmente de lembrar uma figura histórica. Trata-se de reencontrar um pensamento capaz de olhar o país em sua complexidade, suas contradições, sua desigualdade, sua extraordinária potência e, sobretudo, sua possibilidade de futuro.
Ao publicar este texto, portanto, não pretendo oferecer respostas. Quero apenas ampliar uma pergunta, talvez uma das mais necessárias diante do Brasil que temos pela frente. Darcy nos deixou muitas perguntas, mas há uma que hoje parece atravessar todas as outras. É a que escolhi para acompanhar este ensaio: “Que povo ainda queremos ser?”
Talvez seja justamente aí que a política deixe de ser apenas disputa pelo poder e volte a ser aquilo que deveria estar em sua origem: a difícil, necessária e profundamente humana tarefa de imaginar juntos o país que ainda podemos nos tornar. E talvez sentir falta de Darcy seja, no fundo, sentir falta dessa capacidade de imaginar o Brasil para além do imediato: como projeto, como destino e como possibilidade de reinvenção.”
Ana Maria Bernardelli – [email protected]
Senti falta de Darcy como uma forma de pensar o país
Pedro Machado Mastrobuono (*)
Depois de uma eleição que dividiu o Brasil quase ao meio, o desafio não é apagar as diferenças, mas reconstruir uma ideia de país capaz de contê-las.
Há resultados eleitorais que escolhem governantes. Outros revelam sociedades e o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 talvez pertença à segunda natureza.
Entre os dois primeiros colocados à Presidência da República houve uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos, num país de dimensões continentais.
Não é apenas um resultado apertado. É uma fotografia. Mais de cem milhões de brasileiros distribuíram-se entre dois projetos políticos profundamente distintos, quase na mesma proporção.
E talvez a pergunta mais importante, neste momento, não seja quem vencerá o segundo turno. É o que o vencedor fará com a parcela imensa do Brasil que não o escolheu.
Penso nisso e, de maneira inevitável, senti falta de Darcy Ribeiro.
Não apenas do autor de O Povo Brasileiro. Não apenas do ministro, do senador, do fundador da Universidade de Brasília ou do homem que ajudou a imaginar o Memorial da América Latina.
Senti falta de Darcy como uma forma de pensar o país.
Conheci-o quando eu ainda era jovem demais para compreender inteiramente o significado de sua presença.
Meu pai e Darcy haviam sido ministros no governo João Goulart, e foi naquele período que nasceu entre eles uma amizade que atravessaria posteriormente o exílio. Depois de 1964, ambos estiveram no Peru, e Darcy frequentava nossa casa em Lima.
Eu era jovem demais para compreender inteiramente as conversas daqueles homens.
Talvez por isso minha memória tenha guardado menos os argumentos do que o tom.
Havia política. Havia indignação. Havia divergências. Havia um país que os havia expulsado. Mas havia também alguma coisa que hoje me parece muito mais rara: mesmo quando falavam de conflitos profundos, continuavam tentando compreender o Brasil inteiro.
Darcy tinha lado. Tinha convicções. Tinha adversários. Era capaz de uma combatividade extraordinária. Mas sua ideia de Brasil era sempre maior do que sua circunstância política.
Talvez seja exatamente isso que me faça sentir sua ausência agora.
O que faz falta não são homens sem lado. São homens cuja ideia de país seja maior do que o lado ao qual pertencem.
Depois de uma eleição como essa, não precisamos de mais alguém capaz de demonstrar por que metade do Brasil está errada. Disso já dispomos em abundância.
Talvez precisemos de alguém capaz de perguntar como essas duas multidões continuarão pertencendo ao mesmo país na manhã seguinte à eleição.
Darcy dedicou grande parte da vida a uma questão que atravessa toda a sua obra: como populações arrancadas de mundos diferentes, indígenas submetidos à destruição, africanos escravizados, europeus, mestiços, imigrantes, pobres, sertanejos, caboclos, habitantes de experiências regionais tão diversas, terminaram constituindo alguma coisa que pudesse ser chamada de povo brasileiro?
Sua resposta nunca foi romântica. O Brasil não surgiu da harmonia.
Surgiu também da violência, da desigualdade, da imposição e do conflito. Mas surgiu. Apesar de tudo, alguma coisa se constituiu aqui. Um povo. Talvez a pergunta de nosso tempo seja outra.
Como impedir que um povo, depois de constituído, comece a desfazer-se pela incapacidade de reconhecer a si mesmo?
Na medicina, uma doença autoimune ocorre quando o organismo deixa de reconhecer como próprio aquilo que pertence ao seu próprio corpo e passa a atacá-lo como se fosse estranho.
Às vezes penso que sociedades também podem adoecer dessa maneira.
Quando milhões de brasileiros deixam de enxergar outros milhões como adversários políticos e passam a percebê-los como corpos estranhos, alguma coisa mais grave do que uma divergência eleitoral começa a acontecer.
O outro já não está apenas errado. Passa a ser considerado moralmente ilegítimo. Sua presença incomoda. Sua voz parece intolerável. Sua própria condição de pertencimento começa a ser questionada. O organismo começa a lutar contra si mesmo. E nenhum país consegue vencer uma guerra contra metade de si próprio.
Isso não significa defender uma conciliação vazia.
Aqui Florestan Fernandes é indispensável. Florestan jamais aceitaria uma ideia de integração nacional fundada na simples ocultação das desigualdades brasileiras. Sua reflexão sobre a democracia está intimamente ligada à crítica das formas de integração social que mantêm parcelas imensas da população dentro da sociedade e, ao mesmo tempo, excluídas de seus direitos, oportunidades e mecanismos reais de poder.
Portanto, dizer que o Brasil precisa reencontrar alguma forma de unidade não significa pedir que suspendamos nossos conflitos.
Há conflitos que precisam ser enfrentados. Há desigualdades que precisam ser corrigidas. Há direitos que não podem ser negociados em nome de uma falsa pacificação.
Uma sociedade democrática não é aquela que eliminou seus conflitos.
É aquela que aprendeu a não precisar eliminar pessoas para enfrentá-los. A unidade de um país não se mede pela ausência de divergência. Mede-se pela existência de um espaço comum suficientemente amplo para que adversários permaneçam adversários sem deixarem de se reconhecer como compatriotas.
Paulo Freire compreendeu algo semelhante quando distinguiu radicalidade de sectarismo. Radicalidade significava ir à raiz dos problemas, compreender sua historicidade, comprometer-se com a transformação. O sectarismo, ao contrário, fecha a realidade dentro de uma certeza que já não precisa escutar.
Talvez essa distinção seja particularmente necessária agora. Pode-se defender ideias radicalmente sem desejar que desapareçam aqueles que pensam de outra maneira. Pode-se disputar eleições com intensidade sem transformar a derrota do adversário na expulsão simbólica de seus eleitores da comunidade nacional. A democracia não exige que concordemos.
Exige algo anterior. Que reconheçamos no outro alguém que continua pertencendo à comunidade mesmo quando pensa aquilo que consideramos profundamente errado.
Isso me remete a outra questão que tenho procurado pensar nos últimos tempos: a reconstrução da confiança.
Nenhuma sociedade funciona apenas por leis.
As leis organizam comportamentos, estabelecem limites, distribuem competências. Mas existe uma camada anterior, quase invisível, sem a qual as instituições começam a se tornar insuficientes.
Precisamos acreditar minimamente que continuamos participando da mesma experiência coletiva. Precisamos acreditar que a divergência não significa necessariamente ameaça existencial. Precisamos acreditar que perder uma eleição não equivale a deixar de pertencer ao país.
É por isso que também precisamos reaprender a escutar. Escutar não significa concordar.
Talvez tenhamos empobrecido essa palavra ao imaginar que escuta é uma espécie de gentileza. Não é.
Escutar é reconhecer que a experiência do outro existe independentemente de nossa aprovação.
Uma sociedade que perde essa capacidade passa a produzir dois monólogos cada vez mais altos.
E há algo profundamente paradoxal nisso. Quanto menos escutamos, mais gritamos. Quanto mais gritamos, menos conseguimos ouvir.
A tecnologia amplificou enormemente esse mecanismo. Passamos a habitar espaços em que nossas certezas retornam para nós confirmadas por pessoas que compartilham nossas indignações, nossas referências, nossos medos e nossas aversões. Pouco a pouco, o adversário deixa de ser alguém real. Transforma-se numa caricatura construída pelo nosso próprio campo.
Já não discutimos com aquilo que ele pensa. Discutimos com aquilo que imaginamos que ele seja. Talvez a verdadeira crise política comece nesse instante. Não quando desaparece o consenso. Mas quando desaparece o reconhecimento.
O resultado do primeiro turno deveria, nesse sentido, produzir menos euforia do que responsabilidade. O vencedor receberá autoridade constitucional para governar. Mas as urnas não lhe concederão propriedade sobre a ideia de Brasil. Dezenas de milhões de brasileiros terão escolhido outro candidato.
Outros milhões terão escolhido alternativas diferentes, votado em branco, anulado ou não comparecido. Nenhuma vitória eleitoral transformará essa diversidade humana em desaparecimento. O primeiro pronunciamento verdadeiramente presidencial talvez devesse conter uma frase muito simples: “Agradeço aos que votaram em mim. Mas quero falar também aos que não votaram.”
Não como gesto protocolar. Como compreensão do significado do poder. Os que votaram no vencedor já lhe concederam confiança. Seu verdadeiro desafio começa diante daqueles que não lhe deram essa confiança. Como governá-los sem exigir adesão? Como protegê-los sem perguntar em quem votaram? Como fazer com que continuem reconhecendo no Estado uma instituição que também lhes pertence? É aí que uma vitória eleitoral pode começar a transformar-se em liderança nacional.
Volto então a Darcy. Em outro momento escrevi sobre sua ausência como a falta de um farol. Talvez hoje compreenda melhor a imagem. Um farol não elimina a tempestade. Não acalma o mar. Não decide de que lado estão os barcos. Apenas impede que, durante a noite, percamos completamente a noção de onde fica a costa.
É dessa espécie de orientação que sinto falta. Não de homens sem convicções. Não de políticos que evitem conflitos. Não de uma neutralidade impossível diante das injustiças.
Sinto falta de pessoas capazes de defender suas convicções sem reduzir o país ao tamanho delas. Pessoas capazes de compreender que o Brasil sempre será maior do que o governo que estiver no poder. Maior do que um partido. Maior do que uma eleição. Maior até mesmo do que uma geração.
Talvez essa seja uma das razões pelas quais Darcy ainda faça tanta falta. Ele pensava em escala de povo. E pensar um povo exige uma estranha combinação de coragem e humildade.
Coragem para reconhecer seus conflitos. Humildade para compreender que nenhum de nós, nenhum partido, nenhuma ideologia e nenhuma eleição esgota aquilo que um país é. Uma eleição pode escolher um presidente.
Não pode escolher metade de um povo. O Brasil continuará contendo todos eles. Os que vencerem. Os que perderem. Os que comemorarem. Os que temerem. Os que acreditarem. Os que desconfiarem.
Talvez o maior desafio do próximo presidente não seja governar aqueles que o escolheram. Esses já lhe entregaram o voto.
O desafio histórico será convencer os demais de que continuam pertencendo ao mesmo país. Porque uma democracia começa a adoecer quando precisa imaginar parte de si mesma como inimiga para acreditar que a outra parte venceu.
E talvez reconstruir o Brasil comece por uma pergunta que Darcy entenderia perfeitamente: não quem derrotaremos, mas que povo ainda queremos ser juntos.
(*) Pedro Machado Mastrobuono – presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social. Agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É doutor honoris causa pela UFMS. Idealizador do “Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano”, com a cooperação entre USP, Unicamp e Unesp, bem como do “Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro”, do qual é sócio fundador e primeiro reitor. É o homenageado do ano, 2026, pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), em reconhecimento à sua relevante contribuição à cultura brasileira.


