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‘O estranho que mora em mim’, por João Roberto Giacomini

Há uma pessoa que conheço há muitos anos e sobre a qual, apesar dessa longa convivência, ainda não consegui exercer autoridade suficiente: eu mesmo. Não chega a ser um desconhecido, naturalmente. Sei algumas de suas manias, reconheço seus defeitos — sobretudo aqueles que tenho a delicadeza de chamar de características — e acompanho com razoável interesse suas virtudes. Ainda assim, esse sujeito toma decisões sem me consultar, abandona projetos que eu havia aprovado, insiste em pensamentos que eu gostaria de dispensar e, de tempos em tempos, pronuncia frases que somente depois de pronunciadas resolve submeter à minha apreciação.

Não sou uma exceção. A humanidade inteira parece padecer desse pequeno problema administrativo: somos proprietários de nós mesmos, mas a administração do imóvel deixa muito a desejar.

Talvez por isso seja tão curioso observar a solenidade com que fazemos promessas particulares. Ninguém precisa estar presente. Não há testemunhas, cartório ou firma reconhecida. Numa noite qualquer, um homem se olha no espelho e decide que, a partir da manhã seguinte, tudo será diferente. Vai acordar cedo, caminhar, comer melhor, gastar menos, terminar o livro começado há três anos, telefonar para a mãe com maior frequência e nunca mais perder tempo com bobagens. Dorme profundamente satisfeito com o novo homem que acaba de fundar.

Na manhã seguinte, o despertador toca e comparece à reunião outro cidadão, que não participou das deliberações da noite anterior e, portanto, não se considera vinculado a elas. Desliga o aparelho e dorme mais quarenta minutos.

É uma situação filosoficamente constrangedora. O homem que programou o despertador e o homem que o desligou possuem o mesmo nome, o mesmo CPF, a mesma impressão digital e, aparentemente, interesses opostos.


Chamamos isso, com alguma generosidade, de falta de força de vontade. A expressão é confortável porque sugere apenas uma deficiência de energia, como se em algum lugar dentro de nós houvesse uma bateria moral que, depois de devidamente recarregada, nos transformaria finalmente na pessoa que desejamos ser. Talvez não seja tão simples. Se fosse apenas uma questão de querer, todos seríamos magros, cultos, pacientes, economicamente equilibrados, fisicamente ativos e emocionalmente sensatos.

As academias estariam lotadas em novembro, os cartões de crédito seriam pagos integralmente e ninguém jamais mandaria uma mensagem começando por “eu sei que não deveria estar te escrevendo, mas…”.

A experiência demonstra que conhecer o caminho não produz necessariamente pernas dispostas a percorrê-lo.

Sabemos disso nas coisas mais banais. O sujeito recebe o resultado dos exames e ouve do médico aquilo que já sabia antes de entrar no consultório: precisa emagrecer. Sai dali profundamente convencido da necessidade de mudar de vida e, no caminho de casa, resolve fazer uma última despedida da coxinha. É uma cerimônia de encerramento.

Na segunda-feira começará a dieta, voltará a caminhar, talvez procure uma academia, organizará as gavetas, economizará dinheiro e inaugurará uma existência mais disciplinada. A segunda-feira, aliás, carrega há séculos uma responsabilidade desumana. É o cartório universal onde reconhecemos firma de compromissos que poderíamos perfeitamente começar numa quarta-feira às três e quinze da tarde.

Mas quarta-feira não inspira redenções.

E não é apenas com comida, dinheiro, cigarro ou exercício. Talvez as nossas maiores desobediências aconteçam onde nenhuma balança consegue pesar. Quantas vezes decidimos não procurar determinada pessoa e procuramos? Quantas conversas ensaiamos antecipadamente, estabelecendo que seríamos serenos, equilibrados e superiores, para cinco minutos depois dizer exatamente aquilo que havíamos jurado não dizer? Quantas vezes sabemos que uma relação nos faz mal, que determinado ambiente nos diminui, que certo hábito nos aprisiona, que aquela escolha terminará como terminaram todas as anteriores — e, ainda assim, caminhamos voluntariamente na direção conhecida?

Há alguma coisa dentro de nós que não se impressiona muito com nossos argumentos.
Freud construiu parte de sua obra justamente sobre a desagradável notícia de que o homem não é senhor absoluto em sua própria casa. Muito antes dele, porém, a humanidade já desconfiava disso. Basta observar alguém dizendo “não sei por que fiz aquilo” para perceber que carregamos conosco regiões que não frequentamos com a luz acesa.

Talvez tenhamos cometido durante muito tempo o erro de imaginar o consciente como presidente da República de nós mesmos. Ele faz discursos, anuncia medidas, estabelece metas e aparece nas fotografias oficiais. Mas existe um governo subterrâneo funcionando paralelamente, composto de memória, medo, desejo, hábito, prazer, ressentimento, afeto, culpa e experiências que julgávamos esquecidas. O consciente publica o decreto; o resto de nós decide se vai cumpri-lo.

O subconsciente, nesse particular, tem hábitos pouco republicanos. Não concede entrevistas, não presta contas e raramente explica suas decisões.

É por isso que certas lembranças aparecem quando não foram chamadas. Um perfume atravessa uma sala e transporta um homem de sessenta anos para uma tarde de sua infância. Uma música ressuscita alguém que ele acreditava sepultado na memória. Uma palavra pronunciada sem intenção toca numa ferida cuja existência ele negaria sob juramento. Não houve decisão consciente, nenhuma comissão se reuniu, nenhuma autorização foi expedida. Alguma porta simplesmente se abriu.

Somos, portanto, muito mais do que aquilo que pensamos quando pensamos sobre nós. Somos também aquilo que evitamos pensar.

Talvez aí resida o equívoco de certa literatura contemporânea que transformou a vontade numa espécie de divindade de bolso. “Você pode tudo.” Não pode. E ainda bem, porque um mundo com oito bilhões de pessoas podendo tudo seria administrativamente inviável. A vontade é poderosa, mas encontra pela frente a história de cada um, suas circunstâncias, seus limites, seus hábitos e aquela fauna interior que não desaparece porque alguém escreveu uma frase bonita diante de um pôr do sol.

Isso não significa que sejamos prisioneiros de nós mesmos. Se fosse assim, ninguém abandonaria um vício, recomeçaria uma profissão, encerraria um relacionamento destrutivo, aprenderia aos setenta anos ou mudaria depois de passar metade da vida jurando que “eu sou assim mesmo”. Mudamos. A questão interessante é que raramente mudamos pelo simples ato teatral de decidir mudar.

Algumas mudanças começam quando o desejo se torna maior que o conforto. Outras, quando a dor de permanecer finalmente supera o medo de partir. Há as que nascem do amor, as que chegam pelo cansaço e aquelas que somente aparecem depois que a vida, sem qualquer preocupação pedagógica, nos encosta contra a parede.

E há também mudanças silenciosas. Um dia percebemos que já não reagimos como antes. Aquilo que nos enfurecia perdeu importância. Aquela pessoa cuja ausência parecia impossível tornou-se apenas um nome. O lugar que desejávamos ocupar já não nos interessa. Não houve cerimônia, discurso ou segunda-feira.

Enquanto estávamos ocupados tentando mudar à força algumas partes de nós, outras mudaram sem pedir licença.
Talvez a força de vontade não seja, afinal, a capacidade de dar uma ordem a si mesmo e ser imediatamente obedecido. Talvez seja algo menos espetacular e muito mais difícil: insistir numa direção apesar das sucessivas rebeliões daquele que conduzimos.

Porque somos uma casa inteira, e não apenas a sala arrumada onde recebemos visitas. Temos corredores, porões, janelas abertas, portas emperradas, objetos que não sabemos por que conservamos e alguns quartos nos quais preferimos não entrar. Há claridade e há lugares onde a lâmpada queimou faz tempo.

Tudo isso somos nós. Sem tirar nem pôr. O sujeito sensato e o imprudente, o disciplinado e o preguiçoso, aquele que pensa antes de falar e aquele outro que só começa a pensar quando já terminou de falar. Talvez amadurecer não seja expulsar o estranho que mora dentro de nós, mas aprender a desconfiar um pouco dele.

Principalmente porque é um estranho bastante ativo. Compra o ingresso e perde o horário. Sai cedo e consegue chegar atrasado. Passa a noite preparando o que vai dizer e, quando chega a hora, diz justamente o indizível. Jura que não vai telefonar e telefona. Decide economizar e aparece em casa com uma coisa que não precisava, comprada por um preço que não podia pagar, porque estava com quarenta por cento de desconto.

Ou compra um carro velho que cheira a gasolina, pinga óleo na garagem e exige uma pequena reunião familiar toda vez que precisa pegar. Depois explica, com impressionante seriedade, que não comprou um carro: comprou uma história. A história, aparentemente, veio sem garantia.
Depois, quando tudo já aconteceu, ele desaparece.

E sobra para nós aquela função extraordinária que o ser humano desempenha melhor do que talvez qualquer outra espécie: explicar, com argumentos perfeitamente razoáveis, a estupidez que acabou de fazer.

Talvez o consciente sirva também para isso.

O subconsciente apronta.

E nós redigimos a defesa.

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