João Roberto Giacomini – advogado & escritor –
Há contas que fecham no papel e continuam abertas na cabeça.
A eleição brasileira de 2026 me deixou uma dessas.
Não afirmo que houve fraude. Não tenho prova disso e não pretendo substituir prova por convicção. Mas também não aceito a ideia de que fazer perguntas sobre uma eleição seja algum tipo de pecado contra a democracia. Democracia que não suporta pergunta talvez esteja precisando de perguntas ainda mais incômodas.
Comecemos pelos números.
O PL elegeu 121 deputados federais. A Federação PT-PCdoB-PV elegeu 82. No Senado, o PL conquistou 19 das 54 vagas em disputa — a maior quantidade de senadores eleitos por uma legenda em um mesmo pleito desde a Constituição de 1988. E houve algo ainda mais expressivo: no Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina, o PL conquistou as duas vagas para o Senado. Portal da Câmara dos Deputados
Não são impressões minhas. São resultados eleitorais.
E então chegamos à Presidência.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos. Lula, com 53.876.617. Uma diferença de aproximadamente 2,23 milhões de votos.
E aqui começa minha primeira pergunta: onde foi parar, na eleição presidencial, a diferença política que apareceu com tanta força nas eleições para outros cargos?
E há um número curioso, daqueles que não provam absolutamente nada, mas fazem o sujeito procurar a calculadora.
Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, recebeu 3.119.318 votos. Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, recebeu 3.038.438. Os dois ultrapassaram a marca de três milhões de votos e foram os deputados federais mais votados do país. Portal da Câmara dos Deputados
Somados, são aproximadamente 6,16 milhões de votos.
Apenas dois candidatos a deputado federal do PL receberam, juntos, uma quantidade de votos equivalente a cerca de 2,76 vezes a diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula na disputa presidencial.
Antes que alguém se apresse: não estou dizendo que esses votos pertenciam a Flávio Bolsonaro. Voto não tem escritura pública e ninguém é obrigado a votar no mesmo partido para todos os cargos.
Estou fazendo algo muito mais simples.
Colocando números lado a lado.
E números, às vezes, têm o inconveniente hábito de produzir perguntas.
Porque alguém pode perfeitamente votar num deputado do PL, votar num senador do PL e, chegando à Presidência, escolher Lula.
Pode.
A questão interessante não é saber se pode.
É saber quanto isso aconteceu.
E aí chegamos à segunda pergunta.
Nos estados e municípios em que determinado campo político dominou simultaneamente as eleições para governador, Senado e Câmara, o resultado presidencial acompanhou esse comportamento eleitoral?
Se não acompanhou, qual foi o tamanho da dissociação?
Isso pode ser investigado.
O próprio sistema de resultados permite consultas por estado, município e zona eleitoral, acompanhando a votação por cargo e candidato.
Tribunal Superior Eleitoral.
Então façamos a conta.
Município por município.
Quanto receberam os candidatos a governador? Quanto receberam os candidatos ao Senado? Quantos votos foram dados aos candidatos a deputado? E, naquele mesmo município, quantos votos receberam Flávio Bolsonaro e Lula?
Não é acusação.
É aritmética.
Existe, porém, outro episódio que merece uma pergunta própria.
Durante a divulgação dos resultados presidenciais houve uma interrupção na atualização dos números.
Não afirmo que isso tenha alterado um único voto.
Minha pergunta é outra: quais estados, municípios, zonas e seções estavam totalizados antes da interrupção e quais foram incorporados posteriormente?
O TSE explica que os resultados vão sendo atualizados à medida que os Boletins de Urna são transmitidos e processados. Também informa que é possível acompanhar o número de seções totalizadas.
Tribunal Superior Eleitoral.
Portanto, a pergunta é perfeitamente verificável.
De onde vieram os votos incorporados depois?
Qual era a votação de Lula nessas localidades?
Qual era a de Flávio Bolsonaro?
A composição geográfica dessas urnas explica matematicamente a alteração observada após a retomada?
Se explica, está respondida a pergunta.
Se não explica, nasce outra.
Há ainda uma peculiaridade institucional pouco conhecida do eleitor comum: os resultados dos cargos estaduais são processados nos respectivos Tribunais Regionais Eleitorais. Na eleição presidencial, é o próprio TSE que realiza tanto a totalização quanto a divulgação do resultado.
Tribunal Superior Eleitoral
Isso significa fraude?
Não.
Significa apenas que, se queremos compreender uma diferença entre a evolução da apuração presidencial e a dos demais cargos, precisamos saber que estamos tratando de processos de totalização distintos.
E chegamos finalmente à pergunta que considero mais importante.
É possível conferir?
Sim.
Os Boletins de Urna podem ser consultados. O eleitor pode comparar os dados registrados nos BUs das seções com os resultados totalizados e divulgados pelo TSE. Estão disponíveis também registros digitais do voto e logs das urnas para consulta e auditoria. A regulamentação eleitoral determina ainda que, concluída a totalização, os BUs totalizados sejam publicados e possam ser comparados com aqueles produzidos nas seções eleitorais.
Tribunal Superior Eleitoral
Então minha última pergunta é quase infantil de tão simples:
Os números registrados nas urnas correspondem, seção por seção, aos números que chegaram à totalização?
Se correspondem, excelente.
A dúvida encontra uma resposta documental.
Se eventualmente não corresponderem, alguém terá de explicar por quê.
É só isso.
Não estou afirmando que a eleição foi fraudada.
Não estou afirmando que votos foram desviados.
Não estou afirmando que determinado candidato deveria ter recebido os votos dados a outro.
Estou dizendo que uma eleição com mais de cem milhões de eleitores não deveria exigir fé de ninguém.
Deveria permitir conferência.
E por isso deixo quatro perguntas sobre a mesa:
Como explicar a enorme força eleitoral demonstrada pelo PL na Câmara e no Senado diante de uma diferença presidencial de apenas cerca de 2,23 milhões de votos?
Nos municípios em que candidatos do PL tiveram votação maciça para governador, Senado e Câmara, qual foi exatamente a votação presidencial de Lula e quanto voto cruzado seria necessário para produzir simultaneamente esses resultados?
De quais estados, municípios e seções vieram os votos incorporados durante o período em que a divulgação presidencial deixou de ser atualizada, e esses votos explicam matematicamente a evolução posterior do resultado?
E os Boletins de Urna, registros digitais e números utilizados na totalização coincidem, seção por seção?
Não ofereço respostas antecipadas.
Talvez todas elas existam e sejam perfeitamente simples.
Espero que sejam.
Mas existe uma diferença enorme entre desconfiar e acusar.
Quem acusa precisa provar.
Quem pergunta espera uma resposta.
E quando estamos falando da escolha de quem governará um país, perguntar não deveria incomodar ninguém.
Muito menos quem possui os números capazes de responder.



