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‘E nós, o que fizemos com 1990?’, por João Roberto Giacomini

O ano era 1990.

Éramos jovens formandos. Vestíamos becas, carregávamos diplomas e uma quantidade quase irresponsável de sonhos. Olhando aquelas fotografias hoje, talvez seja difícil reconhecer em cada rosto o homem ou a mulher que o tempo viria a construir. Mas havia alguma coisa em comum entre nós: acreditávamos.

Acreditávamos que exercer uma profissão era também uma maneira de participar da construção do país. Acreditávamos na liberdade, na Justiça, na democracia. E, como todo jovem, tínhamos a deliciosa pretensão de imaginar que poderíamos melhorar o mundo.
Fizemos juramentos.

Naquela idade, juramentos pareciam eternos.

Depois vieram os processos, os clientes, as audiências, as contas, os filhos, as vitórias, as derrotas, os cabelos brancos — para aqueles que tiveram a gentileza de conservá-los — e a vida tratou de substituir algumas certezas por perguntas.

Passaram-se 36 anos.

E talvez tenha chegado a hora de perguntar: o que fizemos com aqueles jovens de 1990?
Continuamos acreditando naquilo em que acreditávamos? Honramos nosso juramento quando ninguém estava olhando? Defendemos a Justiça apenas quando ela nos favorecia ou também quando protegia aquele de quem discordávamos? Fizemos alguma coisa para que a sociedade se tornasse mais livre, mais democrática, mais justa e mais humana?

Não sei.

Talvez nenhum de nós consiga responder sem algum desconforto.

Porque é muito fácil julgar a Pátria que recebemos. Mais difícil é olhar para a Pátria que ajudamos a construir.

As eleições se aproximam novamente. Surgirão candidatos, discursos, promessas, acusações, salvadores da Pátria e, provavelmente, alguns que precisarão ser salvos dela.

Mas, desta vez, antes de perguntarmos o que eles fizeram com o Brasil, talvez devêssemos fazer uma pergunta anterior:

o que nós fizemos com ele?

Aqueles rapazes e moças de beca ainda estão em algum lugar dentro de nós.

Talvez estejam apenas esperando que lhes perguntemos se ainda acreditamos nos mesmos sonhos.

E se ainda somos dignos deles.

João Roberto Giacomini

Advogado & Escritor

www.portalcasadaliteratura.com.br

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