Há algum tempo descobri que o Deus de Espinosa me inquieta mais do que muitas respostas que recebi sobre Deus.
Talvez porque ele não precise explicar-se.
Não bate à porta. Não exige palco. Não interrompe o curso dos rios para demonstrar autoridade. Não precisa escrever seu nome nas nuvens nem deslocar uma estrela alguns centímetros para convencer um incrédulo. Está — e talvez nisso resida o maior dos mistérios.
Einstein, quando perguntado sobre sua crença, tornou célebre a referência ao Deus de Espinosa: aquele que se revela na harmonia do que existe, e não um Deus ocupado em administrar, como um contador celestial, os atos e destinos particulares dos homens.
A frase atravessou o tempo.
Espinosa, porém, foi muito além de uma frase bonita.
Para ele, Deus não está simplesmente na natureza como alguém que contempla do lado de fora a obra que terminou de construir. Deus e Natureza pertencem à mesma realidade infinita — Deus sive Natura: Deus, ou Natureza.
Confesso que comecei a compreender melhor essa ideia não lendo filosofia, mas prestando atenção.
Outro dia observei uma árvore.
Nenhuma novidade.
Ela estava ali provavelmente antes de mim e continuará depois que eu passar. Não pede aplausos quando floresce. Não protesta quando perde as folhas. Não consulta calendário para produzir sombra. Não pergunta a religião de quem se abriga sob seus galhos.
Simplesmente cumpre a extraordinária tarefa de existir.
E pensei: talvez tenhamos complicado demais Deus.
O sol nasce sem cerimônia. A chuva não apresenta currículo. Uma formiga carrega várias vezes o próprio peso sem publicar a façanha. O joão-de-barro constrói sua casa sem engenheiro, alvará, financiamento ou solenidade de inauguração. O coração trabalha durante décadas sem que precisemos lembrá-lo, todas as manhãs, de continuar batendo.
Nada disso parece fazer esforço para ser extraordinário.
E é extraordinário.
Aí começa o paradoxo.
Nós, criaturas, temos enorme necessidade de demonstrar importância. Colocamos títulos antes dos nomes, cargos depois deles, placas nas portas, fotografias nas paredes e homenagens nas biografias. Criamos protocolos para que alguém atravesse um corredor e hierarquias para decidir quem se sentará dois lugares mais perto da autoridade.
Enquanto isso, o universo funciona sem crachá.
Talvez seja essa uma das maiores ironias da existência: quanto maior a obra, menor parece ser a necessidade de propaganda do autor.
Uma semente cabe entre dois dedos.
Dentro dela, porém, dorme uma árvore.
E dentro da árvore que ainda não existe estão galhos que ainda não cresceram, frutos que ainda não amadureceram e outras sementes que poderão produzir árvores que jamais veremos.
Que engenharia é essa que se esconde dentro de algo que podemos perder no bolso?
Chamamos de simplicidade porque não conseguimos enxergar a complexidade.
Espinosa talvez sorrisse.
Não porque a semente seja uma pequena correspondência enviada pessoalmente por Deus para provar sua existência. Essa seria uma leitura fácil demais. Mas porque nela atua a mesma realidade, a mesma ordem necessária da natureza da qual nós também fazemos parte.
É aqui que seu pensamento incomoda.
Preferimos frequentemente um Deus parecido conosco: que se alegre quando o elogiamos, se irrite quando o contrariamos, escolha nossos aliados, castigue nossos adversários e, de preferência, concorde com nossas opiniões.
Construímos Deus à imagem de nossas conveniências e depois dizemos que fomos feitos à imagem dele.
Espinosa inverte a janela.
Talvez Deus não tenha de caber em nossas paixões.
Talvez sejamos nós que precisemos compreender que pertencemos a algo infinitamente maior do que nossos desejos.
Isso não diminui Deus.
Diminui apenas nossa pretensão.
E há certa paz nisso.
Quando caminho e vejo uma ave pousar num fio, uma nuvem mudar lentamente de forma, uma criança descobrir alguma coisa banal com espanto absoluto ou uma folha seca obedecer ao vento sem discutir seu destino, tenho a impressão de que a existência continua oferecendo aulas para as quais raramente fazemos matrícula.
Queremos o milagre.
Talvez tenhamos perdido a capacidade de perceber o acontecimento.
Queremos que Deus suspenda as leis do universo para provar que existe, quando talvez a pergunta mais desconcertante seja outra:
por que essas leis existem?
Por que há alguma coisa em vez de nada?
Por que o caos permite uma flor?
Não tenho respostas.
E desconfio cada vez mais de quem as possui todas.
Espinosa pagou caro por pensar livremente. Foi afastado de sua comunidade religiosa e passou a carregar durante a vida o peso reservado aos homens que ousam formular perguntas antes que a sociedade esteja preparada para ouvi-las.
Séculos depois continuamos fazendo perguntas semelhantes.
Onde está Deus?
Talvez a pergunta esteja errada.
Talvez não exista um “onde”.
Olho novamente para a árvore.
Ela não responde.
Uma folha se desprende, gira algumas vezes no ar e cai.
Nenhuma trombeta toca.
Nenhuma voz vem do céu.
Nenhum argumento filosófico é apresentado.
A árvore continua ali.
E, por alguns segundos, parece que isso basta.





