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‘A Terraplanagem cultural’, por Laerte Tetila

Laerte Tetila (*) –

Amigos e amigas, não foi por menos que Bob Marley nos deixou pérolas como: “as pessoas que tentam piorar o mundo não tiram folga”. Ainda mais agora, com tantos ataques à ciência, à cultura e às artes. E quem diria que as próprias universidades, “locus” da formação de milhares de profissionais, viessem a ser invadidas por trogloditas e pior: sob os aplausos de fundamentalistas, obscurantistas, negacionistas e outros mais.

Numa sociedade onde tudo é possível, está instaurado o absurdo. E até mesmo o de se acreditar que a Terra é plana. Como pode isso acontecer se a redondeza e a circunferência deste planeta foram demonstrados por Eratóstenes e, sublinhe-se, há mais de 270 anos antes de Cristo? E o que dizer das campanhas anti-vacinas, apesar dos milhões de vidas humanas salvas da paralisia e da morte?

Sabe-se que a terraplanagem cultural tupiniquim, somada a interesses transnacionais, também tem a ver com a supressão da Filosofia e da Sociologia nos cursos universitários, como parte da operação abafa contra o pensamento abrangente, holístico e universal. Também é o que vem acontecendo com a música, mediante a substituição da MPB pelo pseudo-sertanejo, em quase todas as emissoras de rádio, por razões não desconhecidas por aqueles que percebem o controle social.

É de clareza solar que sempre houve o interesse em se refrear o processo civilizatório das multidões, porém jamais como agora, com a novidade do obscurantismo moderno, digitalizado e bem mais incisivo do que, por exemplo, na Idade Média.

De outra face, porém, tal como se depreende da própria História, a imbecilidade jamais será ampla, geral e irrestrita. Destarte, as multidões alienadas sempre puderam contar com lideranças contrárias. Lideranças que sentem o dom divino que há nas ciências, nas artes, na literatura e o quanto a natureza humana necessita de graça, beleza, afeição, doçura e, obviamente, de pensar.

Lideranças que acreditam no “vir a ser” constante de Heráclito, bem como em mensagens, espalhadas mundo afora, como em canções do tipo “Todo Cambia”, universalizada na voz da cantora e eterna humanista Mercedes Sosa.


*Laerte Tetila é geógrafo, foi professor e chefe de Departamento/UFMS, vereador, deputado estadual e prefeito de Dourados-MS. Mestre pela USP, autor de cinco livros, dentre eles, “Meio Ambiente – Mato Grosso do Sul em Foco”.

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