O falso desenvolvimento que abandona os mais pobres em Mato Grosso do Sul

Paulo M. Esselin – Prof. Titular aposentado da UFMS –
O Governo de Mato Grosso do Sul insiste em vender à população a imagem de um Estado moderno, sólido e em pleno desenvolvimento. No entanto, por trás do discurso oficial, os números e a realidade cotidiana revelam a existência: de um modelo que favorece grandes grupos econômicos, reduz a capacidade de investimento público e empurra os mais pobres para uma vida cada vez mais difícil.
“modelo que favorece grandes grupos econômicos, reduz a capacidade de investimento público e empurra os mais pobres para uma vida cada vez mais difícil”
O orçamento público estadual foi de R$ 26,4 bilhões em 2025, passou para R$ 27,1 bilhões em 2026 e está projetado em R$ 27,99 bilhões para 2027. O crescimento ano vindouro é de apenas 2,94%, a menor taxa de avanço em uma década. Esse resultado é insuficiente diante das demandas acumuladas em Saúde, Educação, Infraestrutura, Segurança, Moradia e Assistência Social. Ao mesmo tempo, o endividamento do Estado aumentou sob a gestão de Eduardo Riedel, o que contradiz o discurso de solidez fiscal repetido pelo governo.
“Ao mesmo tempo, o endividamento do Estado aumentou sob a gestão de Eduardo Riedel, o que contradiz o discurso de solidez fiscal repetido pelo governo”
A principal incoerência está na política de renúncias fiscais. O Governo afirma que os incentivos concedidos ao agronegócio e às cadeias do eucalipto e a grandes empresas são investimentos necessários ao desenvolvimento. Mas, na prática, trata-se de dinheiro público que deixa de entrar nos cofres do Estado. Só em 2026, Mato Grosso do Sul deixará de arrecadar cerca de R$ 11,95 bilhões. Esses recursos poderiam financiar escolas, unidades de saúde, medicamentos, saneamento, transporte, segurança pública e infraestrutura urbana.
“A principal incoerência está na política de renúncias fiscais… Só em 2026, Mato Grosso do Sul deixará de arrecadar cerca de R$ 11,95 bilhões”
É preciso dizer com clareza: benefício fiscal sem transparência, sem avaliação e sem retorno comprovado à sociedade não é política de desenvolvimento; é privilégio. Quando o Estado desiste de arrecadar bilhões, alguém paga essa conta. E quem paga são, principalmente, os municípios e a população mais pobres, que dependem diretamente dos serviços públicos.
“Quando o Estado desiste de arrecadar bilhões, alguém paga essa conta. E quem paga são, principalmente, os municípios e a população mais pobres”
A contradição também aparece no discurso municipalista. O ex-governador Reinaldo Azambuja e o atual, Eduardo Riedel, apresentam-se como defensores das prefeituras, mas sustentam uma política que diminui justamente os recursos municipais. Como 25% do ICMS arrecadado deve ser repassado aos municípios, cada renúncia fiscal reduz também a parcela destinada às 79 cidades de Mato Grosso do Sul. Na prática, as prefeituras ajudam a financiar os benefícios concedidos a setores específicos, sem participação real nessa decisão e sem garantias de retorno social.
“O ex-governador Reinaldo Azambuja e o atual, Eduardo Riedel, apresentam-se como defensores das prefeituras, mas sustentam uma política que diminui justamente os recursos municipais”
O resultado concreto aparece todos os dias na vida da população. Falta medicamento. Faltam médicos. Faltam Centros de educação infantil. Faltam escolas estruturadas. Faltam políticas de moradia, transporte, saneamento e assistência social. Enquanto o Governo repete que os incentivos geram desenvolvimento, os mais pobres enfrentam filas, abandono e serviços públicos insuficientes. Essa é a mentira central do discurso oficial: prometer prosperidade enquanto a maioria sente a precarização bater à sua porta.
“Enquanto o Governo repete que os incentivos geram desenvolvimento, os mais pobres enfrentam filas, abandono e serviços públicos insuficientes”
Nas cidades impactadas por megaempreendimentos, como Ribas do Rio Pardo e Inocência, a promessa de prosperidade tampouco se confirmou para todos. A chegada acelerada de trabalhadores e empresas pressionou aluguéis, moradia, saúde, educação, segurança e assistência social. O poder público não preparou esses municípios para receber tamanho impacto. O desenvolvimento chegou para os grandes negócios, mas a conta social ficou com a população local.
Também é necessário questionar a chamada diversificação econômica. O que se apresenta como modernização continua baseado em atividades concentradas, dependentes de grandes grupos econômicos e marcadas pela monocultura do eucalipto e da soja. Esse modelo concentra renda, pressiona o meio ambiente e não resolve as necessidades básicas da população. Desenvolvimento de verdade não se mede apenas pelo PIB, mas pela melhoria da vida das pessoas.
” Esse modelo concentra renda, pressiona o meio ambiente e não resolve as necessidades básicas da população”
Mato Grosso do Sul precisa escolher que futuro quer construir. Um Estado que renuncia a bilhões para poucos e deixa faltar o básico para muitos não pode se apresentar como exemplo de gestão. A prioridade deveria ser outra: garantir saúde, educação, infraestrutura, moradia, trabalho digno e qualidade de vida. Sem isso, o discurso de desenvolvimento não passa de propaganda.
“A prioridade deveria ser outra: garantir saúde, educação, infraestrutura, moradia, trabalho digno e qualidade de vida. Sem isso, o discurso de desenvolvimento não passa de propaganda”
É hora de romper com a lógica que transforma renúncia fiscal em dogma e pobreza em estatística invisível. O governo deve explicações à sociedade: quem recebe os benefícios, quanto recebe, por quanto tempo e qual retorno entrega ao povo sul-mato-grossense. Sem transparência e sem justiça social, não há desenvolvimento; há apenas privilégio financiado pelo dinheiro que falta na vida dos mais pobres.
“O governo deve explicações à sociedade: quem recebe os benefícios, quanto recebe, por quanto tempo e qual retorno entrega ao povo sul-mato-grossense”



