Laerte Tetila (*) –
Amigos e amigas, muito me apraz ter sido um geógrafo físico-ambientalista que conviveu e muito aprendeu com mestres do nível de José Roberto Tarifa (meu orientador na USP), Aziz Ab’Saber e de ter sido convidado a participar de pesquisa no Pantanal (parceria USP/UNESCO), sob o comando de cientistas, como Figueiredo Monteiro, Alvanir Figueiredo, dentre outros.
Apesar do tempo, jamais deixamos de pensar geográfica e ecologicamente sobre o futuro do território pantaneiro, por abrigar ali um bioma divinamente planejado, onde a vida se produzia e reproduzia de modo incomparável no contexto da Biosfera terrestre.
Um futuro deveras preocupante, sobretudo quando se pensa nos bilhões de toneladas de terra arrastados para dentro da planície pantaneira, subtraídos que são do arco dos planaltos que a circundam, mediante a combinação chuvas-erosão.
Um fenômeno que, com efeito, não estaria acontecendo, não fosse a incrível devastação da cobertura vegetal desses planaltos, com a tônica recaindo sobre o bioma cerrado, que, inapelavelmente, vem perdendo espaços generosos à agricultura, à pecuária e à silvicultura (pinus e eucalipto).
Tais planaltos, em sendo areníticos e estando entre os mais susceptíveis aos processos erosivos da superfície terrestre, jamais deveriam sofrer com a perda de seu principal fator de proteção, ou seja, de sua cobertura vegetal milenar, como a dos cerrados.
Com relação a esse bioma, com seu sistema radicular originalmente formado por uma biomassa até três vezes maior do que o porte de suas árvores, fácil se torna imaginar a grandeza da trama de suas raízes que, secularmente, garantia a estabilidade geológica das imensas áreas por ele ocupadas.
No entanto essa supressão, que tem tornado o cerrado já quase inexistente sobre aquele fascinante arco de planaltos, torna impossível observar outra consequência que não a de um assoreamento potencializado, atingindo, atualmente, todos os rios da Bacia Pantaneira.
Assoreamento é um fenômeno impiedoso, que implica na perda da profundidade de rios e de outros mananciais, que, por sua vez, podem extravasar e espraiar suas águas para grandes extensões e trazer sérios prejuízos.
Na região pantaneira do rio Taquari, por exemplo, mais de 100 propriedades rurais já se acham de porteiras literalmente fechadas. A perda absurda de mais de um milhão de hectares já resultou em enormes prejuízos econômicos, sociais e ambientais para o MS.
Com base em tal premissa, fica evidente que não se trata de hipérbole prever um fim melancólico para todo o Bioma Pantaneiro, ou seja, que o mesmo venha a ser transformado num deserto úmido, num imenso areal, caso não sejam tomadas providências urgentes!
Pelo espírito dos tempos, porém, nada consta que as irrefreáveis forças econômicas, com seu imediatismo secular, venham a se preocupar com o meio ambiente – haja vista a insustentabilidade planetária que já caminha para o inexorável ponto de não retorno.
(*) Laerte Tetila é geógrafo, foi professor e chefe de Departamento/UFMS, vereador, deputado estadual e prefeito de Dourados-MS. Mestre pela USP, autor de cinco livros, dentre eles, “Meio Ambiente – Mato Grosso do Sul em Foco”.




