Eventos em Mato Grosso do Sul prometem reunir jovens em competições de carisma, mas fenômeno levanta questões sobre identidade, pertencimento e os limites entre diversão e dependência da aprovação alheia em tempos de cultura digital
Anita Tetslaff (*) –
Nos dias 1º de agosto, Campo Grande e Dourados devem sediar os primeiros campeonatos oficiais de “Farmar Aura” em Mato Grosso do Sul. Na capital, o evento está marcado para as 16h no Parque das Nações Indígenas. Em Dourados, a mesma data e horário aguardam a definição do local. Com o slogan “Aura não se compra, se constrói”, a competição convida participantes de qualquer idade a formarem uma roda, executarem coreografias livres e disputarem a preferência do público, que, no lugar de jurados tradicionais, elegerá os vencedores com base em carisma, criatividade e presença.
O que parece uma brincadeira típica de redes sociais revela, no entanto, um fenômeno mais profundo. “Farmar aura” é uma expressão que migrou do universo dos videogames para o cotidiano: “farmar” significa acumular recursos; “aura” representa presença, estilo e carisma. Juntas, as palavras descrevem a construção de uma imagem pública baseada na aprovação dos outros. E não se trata apenas de Mato Grosso do Sul, eventos semelhantes já ocorrem em outros estados, com vídeos de competições viralizando nas plataformas digitais.
Acompanhando o fenômeno, o gesto e a expressão “six seven” (ou 6-7) se espalharam como um meme sem significado fixo. Sua origem remonta à música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, e à altura do jogador de basquete LaMelo Ball, 6 pés e 7 polegadas (cerca de 2,01 metros). Um vídeo de uma criança repetindo a expressão durante um jogo completou a viralização. Hoje, o “six seven” é classificado como parte do fenômeno chamado “brain rot” em que conteúdos repetitivos, absurdos e de fácil replicação dominam o imaginário jovem. O linguista Ferdinand de Saussure explicaria que, nesse processo, o significante (a palavra “six seven”) acaba por se descolar de qualquer significado original, tornando-se um fim em si mesmo.
Para o psicólogo Lúcio Chiyama, esse comportamento não é novo nem patológico. “No início da pré-adolescência, uma mudança socioemocional importante começa a acontecer. Crianças que antes só tinham os cuidadores como referência de apego começam a voltar seu foco para relações externas”, explica. “Amigos e pares passam a ter um peso maior. Esse movimento acontece quando a criança está construindo sua identidade, e por isso começa a buscar meios de se conectar com outras crianças através de gostos e habilidades”. Chiyama lembra que toda geração teve suas modas estranhas para os adultos e que isso faz parte do processo de desconexão dos cuidadores e desenvolvimento da autonomia. Alguns exemplos disso são os famigerdos campeonatos de “seres zumbis” (1983), dança do siri (2007), o “Antonio Nunes” (dar socos nas pernas) (2010), o Harlem Shake (2013), a coreografia de funk “sarrada no ar” (2017), e por ai vai.
A psicologia, porém, alerta para os riscos quando essa busca extrapola o saudável. Pela perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o perigo está na formação de crenças como “Só tenho valor quando sou admirado” ou “Se ninguém me vê, eu não importo”. A Terapia Focada na Compaixão (TFC) sugere que o ideal é construir uma relação segura consigo mesmo, onde o reconhecimento externo é bem-vindo, mas não essencial. Já a Terapia Comportamental Dialética (DBT) reforça que a regulação emocional não pode depender exclusivamente de estímulos externos. A pandemia de COVID-19, ao interromper experiências presenciais fundamentais para muitos adolescentes e jovens adultos, provavelmente intensificou esse processo em parte da população.
Nem todos, porém, encaram o fenômeno com tanta compreensão. O escritor Nelson Rodrigues já profetizava: “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não porque são melhores, mas porque são muitos. Eles não leem, não estudam, não questionam, eles repetem slogans sem conhecimento.” Em tempos de cultura digital, essa crítica ressoa com força. Mas para os jovens, “farmar aura” e repetir “six seven” talvez não seja sobre inteligência ou burrice, é sobre pertencimento. É sobre encontrar, no gesto bobo e na gíria sem sentido, um laço com os pares.
O que resta saber é se o “six seven” será um símbolo cultural duradouro de uma geração ou algo fadado a sumir, como tantas modas que vieram antes. O fato é que, enquanto o fenômeno se espalha pelos estados, passando pelo gesto do jogador Casemiro na Copa do Mundo, e até pelo Papa Leão XIV, em brincadeiras com crianças em Madri, ele já cumpriu sua função social mais essencial que é conectar pessoas, ainda que por meio de uma coreografia e de um número que, no fundo, não significa nada.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.




