Jaminho (*) –
Fotograma (Alis desiderii)
Como de costume — em casos de comprovadas improbabilidades —, foram as crianças a se dar conta, a se tocar, de que algo diferente estava acontecendo! Foram elas que os perceberam, os enxergaram. Era um final de tarde na saída da Escola Girassol e Tia Cristina, a professora, costumava ficar quase hora a espera dos pais ou responsáveis que vinham pegar as crianças.
Também era um ato comum naqueles dias olharmos e conferirmos a maravilha da tecnologia que fora construída na Rua Tenente Bernardes – quadra em frente, na diagonal, um pouco ao lado – da escola localizada ainda hoje na Rua Coronel Camisão. Tratava-se da imponente torre de telefonia móvel, celular, algo medindo cerca cento e cinquenta metros de altura de metais encaixados com pintura zebrada em vermelho e branco a cada quinze metros. No alto, uma pulsante luz encarnada.
Tia Cristina me chamou com sua voz aguda, de inegável sotaque pernambucano:
— Jambinho, Djéimis… Porr favorr. Venha aqui, só um instante.
Eu fui, saí da quadra em que dava treinamento de voleibol e fui ver o porquê Tia Cristina havia me chamado.
Ela me indicou o comportamento diferente das crianças, completamente distinto de outros dias, outras saídas de escola. As teimosas e valentes, choravam, agarradas as pernas de Tia Cristina ou da professora assistente; as intimoratas davam tchauzinho, apontavam o dedo para o alto da torre; as românticas, jogavam beijinhos!? As crianças padrão miravam e batiam palmas, abriam os bracinhos simulando o bater de asas, giravam assim… davam pulinhos!

Não soubemos a razão daquilo, nem nada vimos que pudesse justificar os gestos das crianças. Olhamos diversas vezes para o alto da torre apenas para perceber que o sol estava ainda iluminando em um trecho vermelho e no mais alto, branco, enquanto cá embaixo, na calçada, estava bem mais escuro; na quadra da escola, até os refletores o Zé Ricardo tinha ligado.
Quando as crianças todas já haviam ido embora levadas pelos pais, Tia Cristina se ido para casa, eis que aparece um homem desconhecido na quadra, parou no portão, entrou com cautela, pensei até que fosse mais um curioso se distraindo, apreciando um pouco o voleibol da moçada.
A certa altura, disse estar com sede, pediu água – falava um português de padre antigo, com palavras em latim. E os jovens lhe deram uma guampa do tereré que tomavam. Ele sorveu desconfiado, mas se viu que gostou de cara. Pediu outra, o servidor lhe estendeu e já explicou que dali por diante teria que aguardar sua vez na roda. Ele agradeceu em alemão, danke, e outro rapaz, o Tiago Albrecht, lhe ensinou que só se agradece o tereré quando não se quer mais beber, se está satisfeito.
Bem, naquela noite o homem estranho foi embora, sumiu, depois de agradecer a nona ou décima guampa de tereré. Os rapazes falaram que ele deveria ter ido para o Circo Orfeus, armado no terreno atrás do Hospital Marechal Rondon e da antiga feira, remodelada e rebatizada coisa de dez anos antes como Centro Comercial Ramez Tebet, com boxes de alvenaria azulejados para os açougues, área coberta para barzinhos, lanchonetes, churrasqueiros, garapeiros, chipeiras e afins.
No circo, o homem estranho faz amigos e ajuda nos serviços diários. E em questão de dias se enamora pela trapezista Lena Fliegen numa das apresentações desta. Decide participar das apresentações do circo, ser coadjuvante nos números de trapézio, equilibristas e mágicos. O que conseguiu com rapidez, posto que possuísse habilidades próprias para estes ofícios.
Bem rápido, consegue se destacar e executar com perfeição algumas manobras. E as crianças da plateia vão ao delírio! Batem palmas, gritam, estendem os bracinhos como se batessem asas, giram, pulam. Os pais, os mais velhos, não entendem aquela vibração, aquela empatia toda para com o novo artista do circo, embora digam que o artista é deveras espetacular, fantástico, parece mesmo voar por alguns instantes! Os proprietários e administradores gostam, gostam muito, pois também significa mais público, mais fama e mais dinheiro…
Nos dias que se seguiram aquele acontecimento, outro homem estranho apareceu na quadra – não quis tereré, foi beber água no bebedouro da escola. Ficou por ali olhando os treinamentos de voleibol, de futsal, de basquetebol. Perguntou-me algumas coisas genéricas da cidade (por que a cidade se chamava Jardim, quem era o santo padroeiro) das pessoas, das regras das modalidades esportivas… Falava com leve sotaque.
Sete dias depois quem reapareceu foi o primeiro homem. Estava animado, cumprimentou os rapazes que jogavam em trio. Era véspera de feriado, bem poucos alunos compareceram ao treino. Sentou-se perto de mim e falou com aquele jeito de padre que estava precisando de minha ajuda…
Ele era um anjo descido dos céus a terra, tinha se apaixonado pela trapezista, queria ficar e virar humano. E precisava de documentos para seguir com o circo… E ainda disse que sabia que eu sabia como lhe ajudar. Eu fingi uma coragem que não tinha (ancorada na empatia instantânea que aquele momento fez surgir em mim) e prometi pensar, iria procurá-lo no circo quando tivesse a solução, ou ele mesmo voltaria ali à quadra da escola.
Na segunda-feira, depois do feriado prolongado, eu teria apenas o primeiro, quarto e quinto tempos, mas uma gincana da Tetê foi providencial, iria ocupar os alunos das salas do quarto e quinto tempo… Oh, glória! Avisei Marlene Cabral, a diretora e proprietária, que iria mais cedo para Guia Lopes da Laguna almoçar com minha mãe.

Saí da escola com intenção de ir ao circo atrás do homem estranho, mas ele me aguardava recostado em meu carro, o qual não precisamos usar, fomos a pé mesmo até o cartório do primeiro ofício que, ironia das ironias, ficava uma quadra além da torre de telefonia, já na avenida XI de Dezembro.
Expliquei para Alfeu Costa Flores, meu primo, funcionário do cartório, que Malaquias Rojas havia sido peão da Fazenda Lajeado, peão de outras fazendas, que perdera os documentos e precisava urgente de uma nova certidão de nascimento, espécie de segunda via. Havia se enfronhado nas artes circenses e pretendia viajar com o Circo Orfeus. O Feu (apelido de meu primo) me solicitou alguns documentos para solucionar o problema.
Uma declaração de meu pai, mais uma do senhor Wolk Monteiro (que por ventura estava visitando o amigo lindeiro e topou participar, este proprietário da Fazenda Jangada) declararam que Malaquias havia sido funcionário deles, e que este era filho de pai e mãe paraguaios, Angelino Rojas e senhora Fermiana Arce, residentes no Brasil desde 1971, funcionários em datas distintas de ambos. Outra declaração confirmava que os documentos de Malaquias Rojas haviam sido perdidos em um incêndio acidental. E isso bastou para lavrar o novo documento. E entrarmos com pedido de RG na delegacia.
Malaquias Rojas ainda foi ver os treinamentos, perguntar o que era uma escola e também querer saber por que as crianças, os jovens, gostavam tanto de jogar. Agradeceu-me muito, conversou com os jovens conhecidos com quem já fizera amizade, pediu e bebeu mais tereré. No sábado seguinte foi a última apresentação da temporada do Circo Orfeus, lotada, um sucesso retumbante. No domingo, desmontaram a lona e na terça-feira se foram os últimos veículos levando os materiais.

Nesta mesma noite, apareceu na quadra o homem estranho, o outro anjo. Contou que não iria ficar na terra. Tinha ainda alguns dias antes de completar os quarenta que ele e Malaquias haviam recebido como limite para então retornar aos céus (ou ficar na terra). Contou-me que passaram horas no alto das torres e que naquele dia, desceram voando apenas de noite, para não assustar as crianças, não causar tumulto.
Disse-me que não entendeu o desejo, o amor, a paixão. Que os humanos eram muito complicados, muito diferentes entre si tanto na fisionomia, na cor da pele, dos cabelos e mais ainda, na personalidade, no jeito de ser. Diziam uma coisa e faziam outra. Eu pensei que aquele anjo era muito sistemático, emburrado, diferente demais do amigo Malaquias.
Nesta última noite que foi se despedir, na quadra, me entregou uma pena de cor terrosa, que faiscava, emitia brilhos dourados. Disse-me para guardá-la como espécie de amuleto, de patuá, ou simplesmente como uma recordação. Disse-me ser Uriel, mas ainda hoje não consigo ter certeza se ele é querubim, serafim, trono ou potestade.
Os dias voltaram à mesma calma, a rotina quase igual, repetitiva. Nada de anjos virando gente, nada de anjos pousados no topo da torre de telefonia, nada de anjos tomando tereré.
Até que, coisa de dois meses passados, me chega com endereço da Escola Girassol uma carta de Lena Fliegen, a trapezista.
Na carta, ela agradece de novo minha ajuda, diz que Malaquias Rojas está muito bem. Que se amam, se gostam demais, estão trabalhando muito e vivendo mais felizes ainda… Nesta primeira carta informa que ele já sabe bolear a corda para a apresentação dela que rodopia a uma altura de oito a dez metros, enganchada pelos braços, faz a cruz; por um dos braços, faz o enforcado; com perna flexionada, com a outra estendida e os braços abertos, faz a cruz gamada; segurando com ambas as mãos, braços estendidos e corpo ligeiramente curvado com as pernas estendidas, coladas uma a outra, faz o bumerangue.
Estas apresentações já se iniciaram em Maracaju, na primeira cidade em que o circo ficou por duas semanas; depois foram para Dourados, e ali Malaquias também auxiliou o ilusionista, o mágico — e mesmo participou de alguns truques deveras difíceis que levou o público ao êxtase, ao delírio…
Na sequência, Malaquias Rojas substituiu o artista que fazia número com os cavalos, cavalos bretões, belíssimos, mas ele se intitulou o Índio Cavaleiro, pintou a cara com grafismos Kadiwéu e apresentou um número espetacular! Os cavalos trotaram, saltaram pequenos obstáculos, empinaram, bailaram valsa rodopiando sobre as patas traseiras, caminharam lateralmente enquanto Malaquias ia rodando estendido no solo no justo espaço em que os cavalos erguiam as patas (ou iam abaixá-las um lapso de instante depois).
Este número, quando com os quatro belos animais ladeados, foi de extremo suspense, exigiu milimétrica precisão para o cavaleiro não ser apertado pelo casco de algum dos animais – tanto quanto foi de poética beleza o baile de valsas dançado pelos equinos. Mas o instante final fechou com chave de diamante: Malaquias se curvou agradecendo e homenageando o público, os cavalos o seguiram dobrando as pernas dianteiras, parecendo ajoelhar. Logo ele sinalizava e se erguia, estendendo para cima os braços. Os cavalos não se levantavam, um e outro tordilho-negro davam um toc-toc com uma das patas, outro tordilho-vinagre meneava a cabeça fazendo um relincho de aviso.
Então, Malaquias se pôs de quatro entre os cavalos com os braços estendidos, quase como um fiel maometano orando em direção à Meca. O sonoplasta calou a música. Por instantes se fez um silencio sepulcral sob a lona… até que o público fronteiriço se levantasse aplaudindo e mbureando, soltando gritos e gritos de sapucai!! Então, só então! cavalos e cavaleiro se levantaram. De alma lavada! Em júbilo, em plenos quânticos prazeres e felicidades!
Lena Fliegen informou que ficaram em Ponta Porã mais uma semana que o previsto, patrocinados pelo Cassino Dos Fronteras. Estiveram ainda em Amambai de onde partiu a carta de Lena, a trapezista, contando que inovaram fazendo um número em que Malaquias saltava e rodopiava, e ela o segurava dependurada no balanço!
Dali esteve o Circo Orfeus em Iguatemi, Naviraí, logo em Fátima do Sul, Ivinhema, Rio Brilhante, Campo Grande (seis semanas de clamoroso êxito). Subiram para Bandeirante, São Gabriel do Oeste, Rio Verde, Coxim, … E neste percurso, recebi mais duas cartas. A última, de Coxim — depois dela, nada mais soube de Lena e Malaquias — apenas sobre o Circo Orfeus em reportagens de televisão a respeito de circo, da vida de circo.
Mas eis que, trinta anos depois, o professor Tiago Satin Karas, diretor do Projeto Arquivo Vivo que está digitalizando os antigos jornais impressos da Fronteira, da rede bela-vistense de jornais, aparece em casa com uma imagem (uma não, duas) que me reportou de imediato para os tempos idos, me trouxe recordações antigas, daquelas que as ressacas e rebordosas do tempo haviam aninhado no fundo dos baús, das mais recônditas gavetas… E é o motivo pelo qual lhe conto tudo isso.
Em duas imagens de fotografias publicadas lá em Hum mil novecentos e noventa e cinco, com os recursos e ajustes da moderna tecnologia, o que vemos…? Um anjo pousado na torre de telefonia celular da Rua Tenente Bernardes e outro no topo da torre de televisão na Vila Angélica; não sei se ainda ao lado da caixa d’água da Sanesul ou se já transferida para o pátio da Escola Municipal Major Alberto Rodrigues Costa. Ambos semelhantes a imensos urubus-rei, a condores esbranquiçados, cor de telha!
Na matéria, com certo cunho alarmista, indaga-se o que seriam as criaturas pousadas sobre as torres? Seriam extraterrestres, espiões estrangeiros vestidos com tecnologia de ponta ainda desconhecidas? Ou anjos, criaturas de crenças e mitologias antigas que estavam retornando a Terra, comprovando as sagradas escrituras, anunciando o fim dos tempos…?
E três dias depois, o carteiro me entrega uma carta vinda do exterior, da Suíça, de Constança, remetida por Lena Fliegen. Nela, fico sabendo que Malaquias Rojas faleceu, cumpriu seu tempo de humano. E para que eu me convencesse e aceitasse a notícia da melhor forma possível, na carta, Lena Fliegen colocou uma pena cerúlea, cinzenta, com quase trinta centímetros de comprimento. Diz ela que da asa esquerda de um querubim… O querubim que se apaixonou! E que me fez batizá-lo e registrá-lo fronteiriço, karaí Malaquias Rojas, para viver seu amor por Lena Fliegen, a trapezista.
Asas de desejos sobre Jardim!!
(Inspirado em Asas do Desejo, filmado por Win Wenders).
(*) Jaminho é um escritor e professor originário de Guia Lopes da Laguna, Mato Grosso do Sul, conhecido por suas narrativas que retratam a cultura e a história da região. Sua obra, como “Onça Pitoca”, explora a interseção entre o rural e o urbano, refletindo a identidade sul-mato-grossense.
Também é membro da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul e tem contribuído para a literatura regional através de projetos como o “Leia MS”, que visa disseminar obras importantes da literatura local. Além disso, ele tem se dedicado a preservar e promover a memória cultural da região, utilizando sua criatividade para contar histórias que conectam leitores a suas raízes.



