Wilson Matos da Silva (*) –
Em um momento decisivo para os povos indígenas de Mato Grosso do Sul, surge com força o exemplo de lideranças verdadeiramente comprometidas com o bem-estar de suas comunidades. Nas aldeias Jaguapirú e Bororó, integrantes da Reserva Indígena Dourados (RID), caciques e capitães têm demonstrado maturidade política ao priorizar a organização interna, a transparência e a construção de uma governança sólida. Longe de discursos vazios, essas lideranças estão trabalhando para fortalecer as estruturas comunitárias, garantindo que os direitos dos povos Guarani, Terena e Kaiowá sejam exercidos de forma efetiva e autônoma.
Esses líderes compreenderam que a verdadeira autodeterminação exige mais do que protestos: demanda organização. A criação de uma Procuradoria Jurídica indígena, a edição de decretos institucionais para a formação de secretarias e a aprovação de regimentos internos representam passos concretos rumo à profissionalização da gestão. Essas iniciativas permitem melhor planejamento das demandas em saúde, educação, saneamento e infraestrutura, respeitando os usos, costumes e tradições ancestrais. Em um contexto onde as aldeias abrigam milhares de famílias – superando em população muitos municípios do interior –, tal organização é fundamental para enfrentar desafios históricos como superlotação, precariedade de serviços e pressão externa.
Enquanto algumas lideranças sérias constroem, outras infelizmente optam pelo caminho do oportunismo. Utilizando o cargo de cacique ou capitão como trampolim pessoal, certos “líderes” rifam o futuro de suas comunidades na época eleitoral. Em troca de vantagens individuais ou familiares, fazem acordos espúrios, dividem famílias e enfraquecem a luta coletiva. Esse comportamento reproduz a velha tática de “dividir para conquistar”, tornando as aldeias mais vulneráveis a interesses externos. O povo indígena não precisa de capitães de aluguel: precisa de estadistas comunitários que coloquem o bem comum acima de ambições pessoais.
“Enquanto algumas lideranças sérias constroem, outras infelizmente optam pelo caminho do oportunismo. Utilizando o cargo de cacique ou capitão como trampolim pessoal, certos ‘líderes’ rifam o futuro de suas comunidades na época eleitoral”
O horizonte sonhado por muitas comunidades é ambicioso e justo: a elevação das maiores aldeias ao status de municípios indígenas. Essa conquista permitiria o acesso direto a recursos constitucionais como a cota-parte do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o ICMS Ecológico, o ISS e outras transferências que hoje beneficiam cidades menores. Com autonomia administrativa, as aldeias poderiam gerir seus territórios, investir em infraestrutura própria e planejar o desenvolvimento conforme suas cosmovisões. No entanto, esse avanço só será possível com seriedade política e responsabilidade absoluta com a coisa pública. Sem transparência e prestação de contas, a autonomia vira mera ilusão.
É necessário, com humildade, fazer a mea-culpa e reconhecer os avanços que já foram conquistados. As melhorias que chegam às aldeias – casas, poços artesianos, escolas e postos de saúde – têm origem majoritariamente nos programas dos governos populares. Em Mato Grosso do Sul, a atuação do deputado Zeca do PT tem sido fundamental para levar recursos e atenção às comunidades.
Nacionalmente, o presidente Lula transformou o cenário ao criar o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), dando voz institucional inédita aos povos originários. Programas como Minha Casa, Minha Vida construíram e seguem construindo milhares de moradias dignas nas aldeias, enquanto Bolsa Família, bolsas de estudos e iniciativas de inclusão produtiva tiram famílias da extrema vulnerabilidade. Não existem “casas verde e amarela” nas aldeias, mas há milhares de lares erguidos pela mão de políticas sociais inclusivas.
“Em Mato Grosso do Sul, a atuação do deputado Zeca do PT tem sido fundamental para levar recursos e atenção às comunidades.”
Esse reconhecimento não é mero agradecimento: é justiça histórica. Os governos Lula e os governos progressistas em nível estadual demonstraram que é possível combinar respeito aos direitos indígenas com ações concretas de inclusão. A perspectiva de criação da Secretaria Estadual dos Povos Indígenas (SEPOIMS), possivelmente sob liderança como a de Fábio Trad, reforça esse compromisso. Fortalecer essas políticas significa avançar na conquista de mais direitos, sem retrocessos.
“Nacionalmente, o presidente Lula transformou o cenário ao criar o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), dando voz institucional inédita aos povos originários”
As lideranças de Jaguapirú e Bororó mostram o caminho. Elas combinam tradição com modernidade administrativa, combatem o clientelismo interno e constroem pontes para o futuro. O momento exige que todas as comunidades sigam esse exemplo: valorizar quem trabalha pelo coletivo, rejeitar o oportunismo eleitoral e pressionar por mais autonomia. O sufrágio universal e a cidadania plena já foram conquistados; agora é hora de usá-los com sabedoria.
“O momento exige que todas as comunidades sigam esse exemplo: valorizar quem trabalha pelo coletivo, rejeitar o oportunismo eleitoral e pressionar por mais autonomia”
O etnocídio cultural só será definitivamente superado quando os povos indígenas puderem gerir seus territórios, suas escolas, sua saúde e seus recursos com plena autonomia. Esse dia chegará mais rápido com lideranças responsáveis, que priorizam o bem-estar do povo acima de interesses partidários ou pessoais. Aos caciques e capitães sérios, nosso respeito e apoio. Aos oportunistas, o repúdio claro da comunidade.
Que o exemplo de Jaguapirú e Bororó se multiplique por todo o Mato Grosso do Sul. Com Lula, com Zeca e com as lideranças que realmente servem ao povo, seguiremos avançando na construção de um futuro onde os povos Guarani, Terena e Kaiowá sejam protagonistas de sua própria história.
(*) É Indígena, Advogado Criminalista OABMS 10.689, especialista em Direito Constitucional, é Jornalista DRT 773MS. residente na Aldeia Jaguapiru – Dourados MS. [email protected]




