Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor
Outro dia encontrei Pierrot, Colombina e Arlequim.
Não foi no Carnaval.
Foi numa padaria.
Pierrot observava as pessoas pela janela com aquela tristeza de quem já conhece a humanidade melhor do que ela conhece a si mesma.
Colombina mexia distraidamente o café.
Arlequim ria.
Mas ria de um jeito que me deixou desconfiado.
— O que foi? — perguntei.
Ele apontou para a rua.
— Está vendo?
Olhei.
Gente indo para o trabalho. Outros caminhando apressados. Casais de mãos dadas. Um empresário falando ao celular. Um rapaz de terno. Uma senhora passeando com o cachorro.
— Estou vendo…
— Não está, não — respondeu Arlequim. — Você está olhando os rostos. Eu estou vendo as máscaras.
Foi então que comecei a enxergar.
A primeira era a máscara do casamento perfeito.
Nas redes sociais era um festival de declarações.
“Meu amor…”
“Minha alma gêmea…”
“Minha metade…” Vida……
Em casa, cada um dormia em um quarto.
Conversavam pelo WhatsApp para perguntar quem esqueceria de apagar a luz da cozinha.
O amor seguia firme.
Desde que cada um permanecesse no seu próprio conforto e longe um do outro.
Logo passou a máscara do chefe destemido.
Nunca enfrentou uma crise.
Jamais tomou uma decisão realmente difícil.
Quando surge um problema, cria uma comissão.
Quando a comissão não resolve, cria outra para investigar por que a primeira não resolveu.
A empresa quase quebra.
Mas as atas das reuniões são impecáveis.
Depois apareceu a máscara do especialista universal.
Ele entende mais de futebol do que o técnico.
Mais de economia do que o ministro.
Mais de medicina do que o médico.
Mais de educação do que o professor.
E mais de engenharia do que qualquer engenheiro.
Aliás…
Foi justamente num churrasco de família que encontrei um desses.
O primo mais rico chegou discretamente dirigindo uma Range Rover novinha.
Mal estacionou, o primo mais pobre começou a rodear o carro com as mãos para trás, examinando tudo com a autoridade de quem parecia ter participado do projeto da fábrica.
Parou ao lado do proprietário e perguntou:
— Essa Range Rover é sua?
— É.
Fez uma expressão de profunda decepção.
— Se você tivesse me consultado antes, eu jamais deixaria você comprar isso.
O dono estranhou.
— É mesmo? Por quê?
— Porque, para trocar uma simples arruela do motor, precisa descabinar a caminhonete inteira. Projeto horroroso.
Silêncio.
O proprietário sorriu.
— Interessante…
— Muito.
— Se um dia eu precisar descabinar a Range Rover…
…quem fará isso será o mecânico da concessionária.
Nova pausa.
— Aliás… você veio com qual carro?
O consultor respondeu sem perder um milímetro da elegância:
— Um Clio 1.0.
Naquele instante ninguém olhava mais para a Range Rover.
Todos admiravam a extraordinária resistência daquela máscara.
Outra bastante comum é a máscara da humildade.
Ela sempre começa igual.
“Eu sou uma pessoa muito simples…”
Depois passa quarenta minutos explicando por que nasceu mais inteligente, mais experiente, mais competente e mais evoluída do que todos os presentes.
Existe também a máscara do ocupado.
Ela atende qualquer mensagem dizendo:
— Desculpe a demora… uma correria…
Você até acredita.
Depois descobre que a “correria” consistia em assistir cinco horas seguidas de vídeos de um gato brigando com um aspirador de pó.
E há, talvez, a mais perigosa de todas.
A máscara da sinceridade.
É aquela usada por quem diz:
— Eu apenas falo a verdade.
Normalmente, o que ele ainda não aprendeu foi a diferença entre sinceridade e falta de educação.
Pierrot terminou o café.
Olhou para mim e disse:
— Antigamente as pessoas usavam máscaras para esconder o rosto.
Colombina sorriu.
— Hoje elas escondem o ego, o medo, a vaidade, a insegurança… e, de vez em quando, até a inteligência.
Arlequim levantou-se, fez uma reverência para a rua inteira e anunciou em voz alta:
— Senhoras e senhores… o Carnaval terminou há meses!
Fez uma pequena pausa.
— Mas o baile das máscaras continuará amanhã.
Como continua todos os dias.
Às vezes, antes mesmo do café.
E confesso uma coisa.
Voltei para casa preocupado.
Passei diante do espelho.
Por alguns segundos fiquei parado.
Não para pentear o cabelo.
Mas tentando descobrir se aquele rosto era realmente o meu…
…ou apenas a máscara que mais aprendi a usar.



