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Jaminho: ‘Madeira de lei’

Jaminho –

Para Luzia Valois, in memoriam.

E também para Lúcia Chaves, Conceição Leite e Tati Proença.

Deu-se esta história em tempos de comemoração de um ano ou dois do Teatro Glauce Rocha, no Campus da futura Universidade Federal de Mato Grosso do Sul*. Não tenho mais tanta certeza da data, creio que foi 1973, 74. No palco do novíssimo e admirado teatro, diversas peças foram encenadas — para saber quais e quem atuou aconselho ler o texto de Glorinha Sá Rosa, na obra Cultura & Arte em Mato Grosso do Sul, cuja releitura, aliás, me trouxe à memória as linhas que ora escrevo.

 Pois bem, a peça da qual eu mais me recordei foi a com bonecos de madeira do Américo Calheiros, salvo engano. Este havia levado os bonecos para a coxia do teatro pensando em fazer uma homenagem a Pernambuco de seus antepassados, só que nenhum colega dos atores se interessou (estavam ansiosos para interpretar os clássicos de autores universais – e não uma pecinha de mamulengos).

Todavia, os bonecos atraíram atenção de duas moças, Lúcia Chaves e Conceição Leite que também participariam de outras peças em comemoração ao translatício do louvado e venerado prédio dedicado às artes cênicas; estas começaram a brincar e improvisar diálogos manejando os bonecos. Isto fez com que entrassem na brincadeira, também, a Tati Proença e a Luzia Valois. Logo, as quatro separaram alguns bonecos e idealizaram uma peça.

Quem abria o espetáculo era o Guri Branco que ansiava por compreender e falar Guarani, mas o paraguaio lhe ensinava palavrões à guisa de cumprimentos… E isto levou a plateia a risos e gargalhadas. O menino era também vendedor de picolés e o paraguaio o ensinava a oferecer seu produto com palavras em Guarani trocadas, quase sempre termos de baixo calão. Mais gargalhadas. Imagine o picolezeiro oferecendo em Guarani, mas com tradução ensinada pelo besteirento paraguaio:

— Olha o picolé! Quem quer chupar picolé! Vamos chupar um picolé!

Então, entrava em cena um nordestino vendedor de legumes, de produtos da roça, da chácara. E este anunciava suas mercadorias com forte sotaque, dizendo o nome dos produtos em fronteirês e nordestinês:

 — Óóó a mandioca! A macaxeira! Quem vai comprar o jerimum…?

 — Tem cará, tem feijão de corda, tem inhame! Batata-doce!

Para dialogar com ele, surgia um turco libanês, Sahib Bacha, que provocava o vendedor nordestino dizendo que em mês de agosto baiano não comia farinha, pois o vento levava. O vendedor muito prontamente tentava contrariar o Sahib e uma lufada de talco escapava da mão do boneco tentando jogá-la na boca. Se espalhava pelo cenário uma, duas, três vezes, numa trucagem muito bem executada para um teatro de bonecos.

Jaminho: 'Madeira de lei'

O turco se exasperava com o desperdício da mercadoria, com o mal destino do punhado de alimento. E o vendedor ameaçava pegar um punhado de farinha e jogar na boca outra vez; e o turco o impedia, com gesto, com conselhos, com sugestões.

O esquete findava com o turco indo embora para limpar a roupa coberta de farinha e avisando Raimundo, o vendedor, para que este não botasse a perder sua mercadoria tentando realizar um milagre!…

O palco se escurecia e lentamente voltava a ficar iluminado, outro boneco surgia! Desta vez, o boneco de cara redonda, cor de cuia, cabelo bem preto, o homem vendedor de garapa era um bugre Terena cuja apresentação consistia em mover um dos braços simulando que rodeava a manivela que punha a voltear da moenda tripla, já de metal, grande avanço para a época! A sonoplastia deste ato era soberba, citava o ruído do esmagamento da cana e da garapa escorrendo para a jarra de metal, enquanto a atriz reproduzia vocalmente o resfolegar da moenda.

Jaminho: 'Madeira de lei'

O Guri Branco ia tomar garapa, o nordestino Raimundo ia tomar garapa e até o Sahib Bacha retornava à cena para tomar garapa. Então, dava-se uma paródia, pois ao beberem a garapa do Manoel Bugre, os bonecos punham-se um após do outro a falarem trechos das obras de Shakespeare: Romeu e Julieta, Sonhos de uma noite de verão, Rei Lear e até Macbeth. Ou eram poemas de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos…? (Já me ponho em dúvida).

Então, mais uma vez o cenário escurecia, e voltava a se iluminar, a sonoplastia nos brindava com um trinado de harpa e surgia a boneca Mercedita, a mulher paraguaia vendedora de chipas. Assim fora alcunhada, de Mercedita, porque entre um anúncio das chipas e outro, cantava ou assoviava trechos de canções ou mesmo as canções inteiras – quando o movimento estava baixo. Isto nos explicava o Guri Branco.

Entre as opus que constavam em seu repertório: assobiava Ne Rendape Aju, cantava Recuerdos de Ipacaray, para contar ao Guri Branco as lembranças de infância lá no Paraguai.

Cantarolava um trecho de Lucerito Alva, parava para beber um copo de garapa que Manoel Bugre vinha lhe trazer e se aproveitava para cortejá-la. Depois contava para o Raimundo sobre Mis Noches Sin Ti e outras guarânias famosas.

Contudo, nem só de canções era o esquete, também a chipeira anunciando seu produto aos passageiros do trem, aos frequentadores do mercado, aos transeuntes das calçadas… Como faziam a mudança de cenário era algo muito curioso, superinteressante.

Também ela recebia o turco Sahib Bacha, que flanava pela Calógeras, cumprimentando a todos e sempre ia se encontrar com a chipeira paraguaitcha, com a qual tinha diálogos de amante. Arrulhos de pombinhos enamorados.

O número final era como de um musical, os bonecos cantando e o público cantando junto, Saudades de Minha Terra, a mais sul-mato-grossense das canções sertanejas, mais aparaguaiada, menos paulista (se retirasse o jequitibá da letra…).

E pensar que nada disso poderia ter acontecido… Não teria eu recordações e dúvidas sobre minhas recordações a respeito desta peça! Explico: ainda no primeiro ensaio, quando o Guri Branco entra em cena e começa a falar, o nariz dele cresce, cresce, se espicha! Parecendo um pepino, um salame, uma bucha de tapera dependurada! E cai no palco!

As atrizes pensaram em retirá-lo de cena, fazer a peça sem ele. Então, Conceição Leite (que fazia voz e manejava o boneco) foi ter com Américo Calheiros para saber onde este tinha conseguido os bonecos.

Dia seguinte, ela e Lúcia Chaves vão até o bairro Amambaí, numa marcenaria de um velho aposentado da NOB, Jácomo Gepeto. Explicam o acontecido para o artífice, o criador do boneco. Este lhes explica a magia presente no nariz do Guri Branco: sempre que ele mentisse, faltasse com a verdade, seu nariz o delataria crescendo, crescendo, crescendo. E o teatro é uma mentira, o palco é ilusão, interpretar é ser outro, algo ou alguém que não somos… Porém, tranquilizou as atrizes, Jácomo iria solucionar o problema.

E assim o fez: retirou o nariz de madeira ordinária, branca, e colocou no lugar um novo nariz, bem arrumado com cepilho e formão (finalizado no torno) de um pedaço de madeira que encontrou após algum tempo procurando entre as sobras, tocos, restos espalhados pelo chão da oficina. O nariz do Guri Branco agora poderia fazer peças, encenar, mentir e fingir com talento e brilho. Pois era de madeira de lei. Era de bálsamo.

Este foi o nome dado ao grupo – (e à peça das atrizes) – e ao relato de minha nostálgica rememoração…

E se o leitor viu nestas linhas algumas nuances e matizes de Pinóquio, o universal e célebre relato infantil, asseguro que seu nariz não crescerá, não espichará. No máximo, o leitor vai sentir uma coceirinha, comichão, um formigamento.

Fecham-se as cortinas da narrativa, mas o espetáculo da vida há de seguir.

— Merde! – para todos nós.

Nota: Federalizada em 5 de julho de 1979 (Lei 6.674), após a divisão do Estado de Mato Grosso, originou-se da antiga Universidade de Mato Grosso (UEMT), criada em 16 de setembro1967 (Lei 2.947).

Jaminho: 'Madeira de lei'

Jaminho é um escritor e professor originário de Guia Lopes da Laguna, Mato Grosso do Sul, conhecido por suas narrativas que retratam a cultura e a história da região. Sua obra, como “Onça Pitoca”, explora a interseção entre o rural e o urbano, refletindo a identidade sul-mato-grossense. Jaminho também é membro da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul e tem contribuído para a literatura regional através de projetos como o “Leia MS”, que visa disseminar obras importantes da literatura local. Além disso, ele tem se dedicado a preservar e promover a memória cultural da região, utilizando sua criatividade para contar histórias que conectam leitores a suas raízes. 

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