A decisão da FIFA de realizar a Copa do Mundo de 2030 em seis países, três continentes, não é apenas uma homenagem ao centenário do torneio, mas uma jogada de mestre para maximizar a audiência global e lucros bilionários.
Anita Tetslaff (*) –
A decisão da FIFA de distribuir a Copa de 2030 por Argentina, Paraguai e Uruguai, como celebração dos 100 anos da primeira edição, realizada em Montevidéu em 1930, e por Portugal, Espanha e Marrocos, sedes principais, é o passo mais audacioso de uma estratégia que começou a ser testada na edição de 2026. A realização da atual Copa em três países da América do Norte foi um termômetro com o aumento do número de jogos e a abrangência continental demonstrado o potencial de expansão do produto.
A lógica por trás do espraiamento geográfico é puramente comercial, e não operacional. Três continentes simultâneos significam três fusos horários de audiência, o que permite à FIFA vender pacotes de transmissão e patrocínios para três blocos de mercado distintos, maximizando a exposição das marcas. Como aponta a análise do mercado esportivo, a entidade não vende mais apenas futebol, mas audiência em escala global. A escolha dos países-sede, portanto, é baseada no potencial de mercado publicitário, e não apenas na infraestrutura esportiva.
Os números da edição de 2026 já pavimentam essa realidade. Estima-se que o torneio gere cerca de US$ 8,9 bilhões em receitas, impulsionado pelo crescimento exponencial do streaming. Gigantes como Netflix, Disney, YouTube, Amazon e Apple estão na disputa bilionária pelos direitos de transmissão dos mundiais de 2030 e 2034, negociações que devem se intensificar nos próximos meses. Paralelamente, a FIFA avalia uma estratégia inédita para comercializar os direitos de transmissão nos idiomas inglês e espanhol em um único pacote. A medida, se confirmada, pode remodelar a dinâmica adotada e elevar o valor do contrato para patamares jamais vistos no futebol mundial.
O potencial de lucro é tão avassalador que a discussão sobre a presença de astros como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em 2030 se torna também um roteiro de marketing. Em 2030, Messi terá 42 anos e Cristiano Ronaldo, 45. Embora improvável, a mera possibilidade de vê-los em campo, especialmente em seus países de origem, Argentina e Portugal, movimentará a indústria do entretenimento e a venda de ingressos, ilustrando como o futebol é moldado para criar narrativas irresistíveis para o público.
A transformação do futebol em mercadoria fica evidente na política de preços da entidade. Quando a candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá venceu a disputa para sediar o torneio, o documento United 2026 Bid prometia disponibilizar o maior número possível de ingressos para torcedores de futebol a preços acessíveis. Entretanto, a FIFA adotou o chamado “preço dinâmico” (dynamic pricing), modelo no qual os valores flutuam conforme a demanda, prática comum em shows e companhias aéreas. O resultado é um abismo entre a promessa e a realidade. Hoje, um ingresso para a final pode custar US 10.990, contra US 1.600 de Catar.
A FIFA embolsa toda a receita de bilheteria, transmissão, merchandising e até estacionamento, enquanto sobrecarrega as cidades-sede com os custos de infraestrutura e segurança. A FIFA, sob o comando de Infantino, também introduziu as chamadas “pausas para hidratação” na edição de 2026, justificadas por questões esportivas. Críticos, no entanto, apontam que os três minutos de interrupção abriram novas janelas publicitárias para os canais de televisão, transformando um suposto cuidado com os atletas em mais um espaço de monetização.
A Copa do Mundo de 2030 não será apenas o maior evento esportivo, mas a maior operação de monetização da história. A decisão de espalhar o torneio por três continentes é a confirmação de que a FIFA transformou o futebol em um produto de entretenimento global cujo valor é ditado pela capacidade de capturar a atenção de bilhões de pessoas. Enquanto os torcedores discutem futebol, a FIFA já está na fase de negociações finais, fechando contratos com mais de 200 países. A lição que fica é que, no mundo dos negócios do futebol, exclui-se o torcedor que constrói a alma do evento. O domínio da audiência é o que realmente vale o ouro.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.




