Paulo Marcos Esselin – Professor Titular aposentado –
Em suas manifestações recentes, especialmente no contexto do Congresso Eleições 2026, o vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha, procura apresentar MS como um Estado em ascensão econômica, com capacidade de atrair investimentos e de se projetar nacional e internacionalmente. Destacou entregas na Saúde, na Educação, na Segurança Pública e no apoio aos municípios. Segundo ele, “esses indicadores nos fazem o terceiro Estado da Federação em redução da pobreza extrema, sinalizando que fazemos política não pela política em si, mas política de Estado, no caminho certo” [1]. Destacou ainda o “pibão” de 13,4% de MS em 2023, enfatizando que teria sido “maior que o crescimento da China” [1].
Quando Barbosinha afirma que “o mundo olha para Mato Grosso do Sul com olhar diferenciado”, ele constrói uma narrativa de êxito que favorece o governo, mas que também precisa ser confrontada com questões concretas: a qualidade dos empregos gerados, a distribuição regional dos investimentos, os impactos ambientais do modelo de desenvolvimento e a capacidade dos serviços públicos de acompanhar o crescimento.
Senão vejamos: mais de R$ 80 bilhões em investimentos privados em Mato Grosso do Sul estão concentrados, em grande medida, no setor de celulose e papel e no agronegócio. A questão central é saber em que medida esses recursos, de fato, mudaram a vida das pessoas que vivem nas cidades impactadas por esses empreendimentos. O crescimento populacional desordenado, provocado pelo fluxo migratório de milhares de trabalhadores, gerou gargalos imediatos na estrutura pública. A migração em massa para atuar na indústria da celulose tem inflado a população das cidades do chamado Vale da Celulose, criando pressões sobre a saúde, a habitação e a infraestrutura urbana. Essa preocupação também vem sendo levantada por setores econômicos internos e externos ao Estado, que apontam, de forma unânime, gargalos imediatos nas políticas públicas das cidades do chamado Vale da Celulose [2].
“A migração em massa para atuar na indústria da celulose tem inflado a população das cidades do chamado Vale da Celulose, criando pressões sobre a saúde, a habitação e a infraestrutura urbana”
O governo do qual Sua Excelência faz parte reivindica o mérito de atrair investimentos privados, porém, é preciso que se diga que esse mesmo governo também patrocinou, com recursos públicos, por meio de renúncias fiscais, a instalação dessas empresas. O problema é que não se levou em conta as consequências sociais e urbanas que esses empreendimentos produziriam para a população. Faltou planejamento e gestão. A alta abusiva dos aluguéis, o déficit habitacional e a ausência de moradias suficientes empurraram muitos trabalhadores para áreas precárias que dão início a favelas, e o governador e o vice assistem tal situação passivamente como se não fossem eles os próprios criadores dos problemas com suas decisões políticas.
“o governador e o vice assistem tal situação passivamente como se não fossem eles os próprios criadores dos problemas com suas decisões políticas”
Quanto à saúde, as dificuldades não se restringem ao Vale da Celulose; não é diferente nas outras regiões do Estado, cujo desumano retrato em preto e branco, já abordado em textos anteriores, vale a pena ser mostrado novamente: “longas filas de espera; crianças, jovens e adultos aguardando cirurgias ou atendimento especializado; faltam profissionais da saúde, médicos e enfermeiros; persiste a escassez de medicamentos e os postos de saúde e hospitais estão sempre sobrecarregados, resultando num deprimente quadro de dantesca visão: pacientes atendidos em corredores de hospitais; a falta de limpeza adequada do piso e paredes, os acompanhantes dos enfermos, se quiserem se sentar, têm que trazer cadeiras de casa… e tudo isso ocorre sob intenso calor e ausência de climatização adequada” [3].
“Quanto à saúde, as dificuldades não se restringem ao Vale da Celulose; não é diferente nas outras regiões do Estado, cujo desumano retrato em preto e branco, já abordado em textos anteriores”
Outro aspecto abordado é o meio ambiente. Estudos técnicos apresentados em audiências públicas na Assembleia Legislativa de MS revelam que o avanço desordenado do plantio de eucalipto provocou impactos na vazão de córregos. Diagnósticos recentes, focados em assentamentos de municípios como Selvíria, apontaram a degradação ou o esgotamento de centenas de cabeceiras de nascentes após serem circundadas por maciços florestais. Fenômeno semelhante ocorreu em Minas Gerais e na Bahia. Por desconhecimento histórico da nossa administração estadual, teremos que enfrentar os mesmos problemas registrados nesses dois Estados.
Quanto à Educação, os investimentos deste governo evidenciam clara despreocupação com o ensino público e gratuito. Nenhum dos compromissos assumidos com a categoria durante a campanha eleitoral foi cumprido. Além disso, o IDEB, hoje o principal indicador de qualidade da Educação no Brasil, e pasmem: mostra um cenário preocupante: Mato Grosso do Sul ocupa a 21ª posição nacional, com nota 3,8, sendo o Estado mais mal avaliado do Centro-Oeste. Vale lembrar que o Estado é administrado pelo mesmo grupo político desde 2015, há quase doze anos! Lastimavelmente as escolas das redes municipal e estadual de Mato Grosso do Sul não aparecem nos rankings das 100 melhores do país. o que faz a mim e a todos aqueles que, como eu, acreditam ser a Educação o maior e o melhor de todos os investimentos para o desenvolvimento de uma sociedade, concluir que MS está muito longe de ser considerado minimamente viável para se desenvolver à altura que merece.
“Quanto à Educação, os investimentos deste governo evidenciam clara despreocupação com o ensino público e gratuito. Nenhum dos compromissos assumidos com a categoria durante a campanha eleitoral foi cumprido”
Porém, para não dizer que sou do contra, concordo com Sua Excelência, nosso vice-governador Barbosinha, quando afirma que “o mundo olha para Mato Grosso do Sul com olhar diferenciado, de espanto” e que “fazemos política de Estado, com projeção internacional” [1].
O processo de concentração de renda promovido por esse governo chama a atenção do mundo inteiro e não difere daquele conduzido durante a ditadura militar fascista que reinou neste país por longos vinte e um anos. “É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo” [5]. Enquanto a elite econômica fica com um terço da massa de rendimento, os 40% mais pobres ficam com 14,2% do total. Veja a contradição: o PIB per capita de Mato Grosso do Sul é de R$ 60.364,69, enquanto o rendimento mensal domiciliar per capita é de R$ 2.454, segundo o IBGE [4].
“O processo de concentração de renda promovido por esse governo chama a atenção do mundo inteiro e não difere daquele conduzido durante a ditadura militar fascista”
Sua Excelência, em seu currículo, afirma que conhece a pobreza de perto; que trabalhou precocemente; e que construiu uma imagem de proximidade com a população e que tem legitimidade moral para falar em desenvolvimento social. Certamente não deve ter passado pelas cidades onde os investimentos foram, e ainda estão sendo realizados nos últimos três anos. O capital que instala máquinas e fábricas é o mesmo que trouxe miséria, ignorância e exclusão social para parcela significativa da população daquelas cidades.
[1] DOURANEWS. Barbosinha diz que mundo se espanta com MS. Disponível em: https://www.douranews.com.br/politica/barbosinha-diz-que-mundo-se-espanta-com-ms/182210/
[2] CAMPO GRANDE NEWS. Vale da Celulose cobra apoio federal para enfrentar déficit habitacional e saúde. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/economia/vale-da-celulose-cobra-apoio-federal-para-enfrentar-deficit-habitacional-e-saude
[3] ESSELIN, Paulo Marcos. Texto anterior citado pelo autor.
[4] CAMPO GRANDE NEWS. Em Mato Grosso do Sul, os 10% mais ricos concentram 36,3% da renda. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/em-mato-grosso-do-sul-os-10-mais-ricos-concentram-36-3-da-renda
[5] Frase atribuída ao ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici.



