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Valfrido Silva: ‘Cinquenta e seis anos me virando como jornalista’

Na correria dos 72 anos de vida, o velho insubordinado quase deixou passar em branco a data que, no fundo, também lhe serve de certidão de nascimento: o 9 de julho de 1970, quando viu seu primeiro texto publicado na Folha de Dourados

Valfrido Silva, do Contraponto MS –

Confesso que quase deixei passar. Depois de tanto falar de mim mesmo nas últimas semanas — primeiro por causa da fotografia com Fio Maravilha, depois pelas lembranças da velha LEDA, mais recentemente pela difícil crônica sobre a prisão de um velho amigo — acabei cometendo uma imperdoável injustiça comigo mesmo. Esqueci a data mais importante da minha vida profissional. Não foi meu aniversário de 72 anos, tão recentemente celebrado entre cafés, boas conversas e generosas demonstrações de carinho dos leitores. Foi muito antes disso. Exatamente no dia 9 de julho de 1970, quando um guri ainda sem barba viu seu primeiro texto ganhar as páginas da velha Folha de Dourados. Naquele instante, sem perceber, nascia o jornalista que, cinquenta e seis anos depois, continua tentando apenas fazer a mesma coisa: contar histórias.

De lá para cá, confesso, virei muita coisa. Fui repórter, editor, comentarista, diretor de jornalismo, correspondente, cronista, articulista, assessor, marqueteiro por alguns períodos de necessidade, empresário frustrado de produtora de vídeo e agência de publicidade, roteirista de cinema e até escritor. Mas, olhando pelo retrovisor, descubro que nunca deixei de ser exatamente aquilo que me tornei naquele distante 9 de julho: jornalista. Mudei de endereço, de redação, de equipamento, de plataforma, de tecnologia, de patrão e, às vezes, até de humor. Nunca de profissão.

A estrada começou na Folha de Dourados e logo ganhou os microfones da velha Rádio Clube. Vieram O Progresso, a Folha de Londrina, a Folha de S.Paulo, quatro passagens pela TV Morena — a última delas como diretor de Jornalismo em Mato Grosso do Sul — e tantas outras experiências que dariam um mapa mais complicado que roteiro de caminhoneiro em época sem GPS. No meio do caminho apareceram campanhas eleitorais, projetos de comunicação, vídeos institucionais, algumas aventuras empresariais que não prosperaram e incontáveis madrugadas diante de uma máquina de escrever, depois de um computador e, agora, diante de uma tela onde uma certa IAIA resolveu dividir comigo as angústias e os prazeres de cada texto.

Nunca consegui passar um único dia sem escrever. Talvez porque escrever nunca tenha sido apenas profissão. Sempre foi um modo de respirar. Enquanto alguns colecionam imóveis, carros ou contas bancárias, fui acumulando personagens, histórias, fotografias amareladas, recortes de jornal, fitas de áudio, lembranças de redação e uma coleção de encontros improváveis que começou na terra de seu Marcelino e acabou me levando aos corredores do Congresso Nacional, à Assembleia Nacional Constituinte, às aldeias indígenas, aos palanques eleitorais, aos estádios de futebol e às cozinhas onde as melhores pautas quase sempre nasceram entre um café e outro.

No meio dessa caminhada ainda publiquei um livro, Sonhos e Pesadelos, escrevi o roteiro de um filme, Neuras da Paixão, que continua esperando o patrocínio que talvez nunca venha — e, se não vier, paciência, acabará virando livro, porque palavras têm o estranho hábito de sobreviver melhor que películas. Agora começo a organizar o manuscrito daquele que talvez seja o mais autobiográfico de todos: Como se vira jornalista. Não será um livro de memórias. Será um manual de sobrevivência para quem acredita que jornalismo se aprende muito mais errando, levantando, apanhando e recomeçando do que em qualquer sala de aula.

Às vezes me perguntam qual foi a maior reportagem que fiz. Nunca soube responder. Talvez porque reportagem boa seja sempre a próxima. Outras vezes perguntam se valeu a pena. A resposta continua sendo a mesma de cinquenta e seis anos atrás. Bastou ver meu primeiro texto impresso para entender que não saberia viver de outro jeito. O jornalismo me deu alegrias que dinheiro nenhum compraria e dores que nenhum dinheiro evitaria. Fiz amigos para uma vida inteira. Também perdi alguns pelo caminho. Cobri vitórias, derrotas, escândalos, Copas do Mundo, eleições, tragédias e reencontros. Escrevi sobre presidentes da República e sobre anônimos que jamais apareceriam na televisão. Com o tempo descobri que, quase sempre, eram estes últimos que guardavam as melhores histórias.

Se alguma marca ficou dessa longa caminhada, espero que não tenha sido o cargo que ocupei nem o veículo em que trabalhei. Gostaria de ser lembrado apenas como alguém que tentou exercer o jornalismo sem submissão. Daí o velho apelido de insubordinado, que alguns enxergam como irreverência e eu prefiro chamar de independência. Nunca tive vocação para plateias organizadas, cartilhas ideológicas ou verdades prontas. Continuo acreditando que o jornalismo começa justamente onde termina a conveniência.

Hoje continuo aqui, contrapontiando a política, escrevendo quase todos os dias, aprendendo a conviver com algoritmos, descobrindo que uma inteligência artificial pode ser boa companheira de redação e, sobretudo, mantendo intacta a curiosidade daquele rapaz que um dia entrou na Folha de Dourados como faxineiro sem imaginar que passaria mais de meio século tentando compreender o mundo através das palavras.

Talvez esse seja o verdadeiro privilégio de quem escolheu viver de jornalismo. Descobrir que o tempo passa para todos, menos para a curiosidade. Ela continua acordando cedo, pedindo café, farejando pauta e cochichando no ouvido do velho repórter que ainda existe dentro de mim: “Vai. Tem mais uma história esperando para ser contada.”

E enquanto Deus permitir, assim será. Continuarei me virando. Não porque seja fácil. Mas porque, desde aquele distante 9 de julho de 1970, nunca aprendi a fazer outra coisa. E, sinceramente, nem quero. Afinal, foi exatamente assim que encontrei a melhor maneira de viver meus dias: insubordinadamente, como jornalista.

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