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A obsessão pelo rosa uniu e prejudicou as marcas na Copa de 2026

Não se trata de homenagem ao outubro rosa, nem de uma ação coordenada. A enxurrada de chuteiras cor-de-rosa que dominou os gramados da Copa do Mundo de 2026 tem uma explicação que vai além do marketing esportivo e expõe um fenômeno clássico da economia chamado de a tragédia dos comuns.

Anita Tetslaff (*) –

A imagem dos gramados na primeira fase do Mundial trouxe uma estética inusitada. Em partidas como a abertura entre México e África do Sul, quase todos os jogadores, inclusive no banco de reservas, calçavam modelos em tons de rosa vibrante ou fúcsia elétrica. O fenômeno se repetiu em todas as seleções, do Brasil à Inglaterra, passando por França, Alemanha e Coreia do Sul. A pergunta que ecoou entre torcedores e comentaristas era: por que tantas chuteiras cor-de-rosa?

A resposta, como explicou a consultora de tendências Nayara Ruiz, é o resultado de um processo de decisão racional, porém, desastroso. Em 2024, a WGSN, uma empresa de análise de tendências, previu que o “Electric Fuchsia” (um tom de rosa vibrante) seria a cor com maior potencial para 2026, tanto no esporte quanto no streetwear. E foi assim que quatro gigantes do setor, Nike, Adidas, Puma e New Balance, chegaram à mesma conclusão, de forma independente, baseadas nos mesmos dados de tendência. O resultado, no entanto, foi uma “camuflagem coletiva”, onde a tentativa de se destacar resultou em uma uniformidade que anulou o objetivo principal.

O design de calçados da Nike, Christian Tresser, resumiu o fenômeno: “Isso é o que acontece quando o marketing e a análise de tendências estão vendo e usando as mesmas fontes”. A lógica de cada uma era impecável. Para o Diretor Global de Calçados da Nike, Odinga Nimako, o rosa ajuda a destacar o jogador contra a grama verde, garantindo visibilidade máxima.

A chuteira, hoje, é o menor outdoor do mundo, em evidência por 90 minutos, em close de câmera, para bilhões de pessoas. No entanto, um problema teórico se manifestou na prática. Cada marca agiu de forma racional em seu próprio interesse, mas o efeito foi a destruição do recurso que todas buscavam: a atenção do espectador. Este é o fenômeno conhecido como “A Tragédia dos Comuns” (The Tragedy of the Commons), citado pela primeira vez pelo economista William Forster Lloyd em 1883 e popularizado pelo ecologista Garrett Hardin em 1968. A professora de comportamento do consumidor Bianca Dramali, da ESPM, explicou ao Valor International: “Muitas marcas tentaram se diferenciar, mas todos que tentaram ser diferentes acabaram parecendo iguais. Os fãs assistindo aos jogos não conseguem mais dizer qual marca um jogador está usando porque são todas da mesma cor”.

Quando todos ocupam o mesmo espaço visual, esse espaço deixa de existir. A “camuflagem coletiva” foi a consequência. As únicas chuteiras que realmente chamaram a atenção foram as que quebraram a regra. Lionel Messi, por exemplo, optou por um modelo exclusivo da Adidas, o “El Último Tango”, nas cores branca e azul-celeste da Argentina, em homenagem à sua trajetória em Copas do Mundo. Cristiano Ronaldo, por sua vez, começou o torneio com as chuteiras rosas da Nike, mas rapidamente mudou para um modelo dourado, também exclusivo, marcando sua sexta participação no torneio.

A invasão rosa na Copa de 2026, impulsionada por tendências de consumo e pela busca por visibilidade, serviu como um exemplo prático da “Tragédia dos Comuns”. As marcas, ao seguirem a mesma previsão de mercado e agirem individualmente, esgotaram o recurso da diferenciação. O caso demonstra que, em um ambiente competitivo, a lógica individual nem sempre é a melhor para o coletivo.

A oportunidade de se destacar foi perdida. Em vez de uma ação de marketing que gerasse um legado ou se aliasse a uma causa nobre, o que se viu foi uma uniformidade que, ironicamente, tornou a maior parte dos jogadores invisível. O verdadeiro destaque ficou com aqueles que, como Messi, escolheram um caminho próprio, lembrando ao mercado que, em um mar de mesmice, a autenticidade ainda é o maior diferencial.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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