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Michele Bolsonaro e o preço do protagonismo feminino conservador

A disputa entre Michelle Bolsonaro e seu enteado Flávio expõe a contradição central do feminino na extrema direita que é ser instrumento de legitimação do poder masculino, mas não protagonista dele.

Anita Tetslaff (*) –

A política brasileira assistiu nos últimos dias a um episódio que transcende a mera fofoca familiar para se tornar um retrato vívido das contradições do conservadorismo. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em um vídeo de 27 minutos, expôs seu enteado, o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, acusando-o de humilhação e desrespeito. Segundo ela, Flávio teria dito que ela “não entende nada de política” e deveria ficar fora das decisões. A reação da esquerda foi imediata quando os parlamentares como Erika Hilton e Paulo Teixeira apontaram o dedo para o “machismo estrutural” que corrói o clã Bolsonaro por dentro.

O que torna este episódio verdadeiramente sublime, no entanto, não é o racha familiar em si, mas a ironia política que ele carrega. Michelle Bolsonaro é a mesma mulher que, em palanques pelo país, defendeu a “submissão saudável” da esposa ao marido e o papel feminino como o de uma eterna “ajudadora”. É a mesma figura pública que, como analisa a literatura acadêmica, construiu sua imagem em torno da oração fervorosa e da domesticidade, servindo como “âncora visual e moral para a articulação do feminino no projeto neoconservador”. Agora, essa “ajudadora” usa a tribuna pública para peitar o herdeiro político do marido, deixando claro que não aceitará ser empurrada para escanteio. Para a colunista Mariliz Pereira Jorge, trata-se da “insubmissão da ajudadora de marido”, que revela que o discurso da submissão era apenas um “figurino para consumo externo”.

A trajetória de Michelle no PL Mulher é o caldo de cultura desta contradição. O partido precisava dos votos das mulheres e encontrou nela a figura perfeita para transmitir uma imagem de cuidado, família e representatividade. Ela rodou o Brasil construindo o PL Mulher, levantando candidaturas femininas de direita. No entanto, ao fazer isso, ela ajudou a fortalecer um projeto político que, em sua essência, é profundamente misógino. Como bem observam Flávia Biroli e Stéphanie Rousseau, a capacidade de atores antigênero de produzir efeitos concretos está condicionada a práticas institucionalizadas. O PL Mulher é um “contramovimento institucionalizado” que difunde agendas neoconservadoras sob a bandeira do protagonismo feminino. É o que Yasmin Bacetti e Esther Solano, da Unifesp, chamam de “feminismo neoliberal”, um discurso de empoderamento individualista e conservador que esvazia as pautas transformadoras do feminismo e é instrumentalizado por atores políticos de direita.

A comparação que se tornou viral nas redes sociais e na imprensa, e que ecoa neste artigo, é com a personagem Serena Joy, da série “O Conto da Aia”. Assim como Serena, Michelle é uma mulher que, a serviço de sua própria ambição e de sua crença, ajuda a construir um mundo (ou um projeto de poder) que a subjuga. A personagem, antes da ascensão de Gilead, era uma das principais defensoras da teologia que fundamentou a repressão. Ela escreveu livros, deu palestras e defendeu um “feminismo doméstico” que acreditava ser libertador, mas que a aprisionou numa sociedade onde lhe foi negado o direito de ler e de ter voz.

Em seu discurso e construção de imagem, Michelle Bolsonaro seguiu um roteiro similar. Ao defender o marido, ela nega a misoginia atribuída a ele, argumentando que ele “é um gatinho em casa” e sancionou leis para mulheres. Ao mesmo tempo, omite o desmonte de políticas públicas de gênero promovido pelo seu governo. A atuação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos sob o comando de Damares Alves, por exemplo, erradicou a perspectiva de gênero das políticas públicas, insistindo em pautas familistas e conservadoras. As mulheres, nesse projeto, são usadas como “álibis”, “performando políticas masculinistas” que não representam as lutas por direitos e justiça social.

A realidade, porém, bate à porta. O machismo que Michelle ajudou a normalizar se voltou contra ela. A humilhação pública que ela sofreu não é um acidente de percurso, é a lógica do sistema que ela ajudou a alimentar. Ao denunciar Flávio, ela não está apenas brigando por espaço, está experimentando na pele o que a crítica feminista aponta como estruturas de poder patriarcais, em que a mulher é bem-vinda enquanto símbolo, mas é rapidamente silenciada quando reivindica poder real e autonomia. O feminismo que ela tanto demoniza, ironicamente, é a única ferramenta que lhe permitiu ter voz pública e expor essa dinâmica.

A conclusão é amarga. O “quase tudo” que Michelle disse que ainda precisa revelar pode ser o prenúncio de que a “ajudadora” descobriu, a duras penas, que para os homens que a cercam, a mulher serve para legitimar o poder, mas não para participar dele de fato. A lição que fica é a mesma que a personagem Serena Joy ensina em “O Conto da Aia” que não há espaço para mulheres em um mundo que elas mesmas ajudaram a construir para sua própria opressão. O projeto político conservador, na sua gênese, é incompatível com o protagonismo feminino, e qualquer mulher que nele acredite pode, cedo ou tarde, acabar queimada em sua própria fogueira.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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