Juliel Batista –
Em entrevista ao especial Eleições 2026 do FolhaCast, o vereador e pré-candidato a deputado federal Elias Ishy apresentou um amplo resgate de sua trajetória pessoal e política, marcada pela origem humilde no campo e pela construção gradual de sua atuação pública. Filho de trabalhador rural e de mãe dona de casa, ele relembrou a infância difícil e o acesso tardio à educação, destacando que “fiz a antiga quinta série aos 15 anos e concluí o ensino fundamental apenas aos 21”, em meio a uma rotina de trabalho intenso desde cedo.
Ao narrar a própria formação, Ishy detalhou uma trajetória que passa pelo trabalho em diferentes atividades urbanas até a entrada no sistema bancário e, posteriormente, na vida sindical. Segundo ele, a combinação entre fé, trabalho e organização coletiva foi determinante para sua entrada na política: “a igreja me ensinou que não basta apenas rezar; é preciso agir para combater as injustiças”, afirmou, ao relacionar sua formação cristã à militância social e ao ingresso no movimento sindical, além da filiação ao Partido dos Trabalhadores.
“a igreja me ensinou que não basta apenas rezar; é preciso agir para combater as injustiças”
Durante a entrevista, o parlamentar reforçou a centralidade da educação como eixo de sua atuação, afirmando que “acredito que a educação transforma vidas — ela transformou a minha”. Ele também criticou desafios estruturais do sistema educacional em Dourados e defendeu maior planejamento público, além de mencionar contribuições de políticas federais como a criação de universidades e programas de acesso ao ensino superior. Nesse contexto, defendeu ainda maior integração entre municípios, estados e União para garantir investimentos consistentes em áreas sociais.
“acredito que a educação transforma vidas — ela transformou a minha”
Na reta final da conversa, Ishy ampliou o debate para temas como meio ambiente, agricultura familiar, desigualdade social e governabilidade. Defendeu uma atuação parlamentar voltada ao “combate às desigualdades e à defesa da dignidade do povo”, criticou o uso político de emendas parlamentares e reforçou a ideia de um mandato coletivo: “o país não pode depender de um salvador da pátria”. Ao apresentar sua pré-candidatura à Câmara Federal, afirmou que busca contribuir para políticas públicas mais equilibradas, com foco em justiça social, sustentabilidade e participação popular.

Assista a entrevista completa gravada no Studio Nexus 5.0: https://youtu.be/jxNCzsw5K7Y
FolhaCast – Quem é Elias Ishy e como foi sua trajetória até chegar à vida pública?
Elias Ishy – Sou filho de um baiano e de uma japonesa, nascido na zona rural. Meu pai era trabalhador rural e minha mãe dona de casa, mas também ajudava na roça. Somos 11 irmãos e eu sou o sétimo. Passei toda a infância e adolescência trabalhando no campo. Naquela época, o acesso aos estudos era muito difícil. Fiz a antiga quinta série aos 15 anos e concluí o ensino fundamental apenas aos 21. Trabalhei desde cedo, servi o Exército, estudei à noite e fui construindo minha vida profissional e política aos poucos.
Como foi conciliar trabalho e estudos?
Foi um período muito difícil. Houve uma época em que eu trabalhava 11 horas por dia e ainda estudava à noite. Entrava às 6h da manhã no trabalho e saía às 18h, depois seguia para a escola e ficava até às 23h. Isso exigiu muito esforço e trouxe até impactos para a saúde, mas eu sempre tive o incentivo do meu pai para estudar.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar no setor bancário?
Vim para a cidade em busca de emprego e estudo. Trabalhei em serviços gerais, em cerealista, limpeza e outras atividades. Em 1979, com a ajuda de amigos, consegui uma vaga no Banco Bradesco. Depois passei em concurso para a Caixa Econômica Federal. Foi uma oportunidade importante para minha vida profissional.
A igreja teve influência na sua formação política?
Sem dúvida. Eu sempre participei da Igreja Católica. Inicialmente, na Catedral Matriz, integrando grupos de jovens e pastorais. Foi a igreja que despertou em mim a ideia de que a fé precisa ser colocada em prática. Aprendi que não basta apenas rezar; é preciso agir para combater as injustiças e ajudar a construir uma sociedade melhor.
Quando a política passou a fazer parte da sua vida?
Isso aconteceu gradativamente. Meu pai era muito informado e crítico em relação à política. Na igreja, fui aprendendo sobre justiça social e direitos das pessoas. Percebi que, se eu queria mudanças, precisava participar. Foi assim que me envolvi com o movimento sindical e me filiei ao Partido dos Trabalhadores, em 1989.
O que levou para o movimento sindical?
Eu entendia que precisava lutar não apenas por mim, mas pelo coletivo. Como bancário, fui atuar no sindicato da minha categoria. Ali encontrei uma forma concreta de defender os direitos dos trabalhadores e buscar melhores condições de vida para as pessoas.
Como foi sua trajetória dentro do sindicato?
Entrei para a diretoria do Sindicato dos Bancários em 1989. Fiz cursos de formação sindical, participei de diversas atividades e fiquei oito anos liberado para atuar exclusivamente no sindicato. Foi uma experiência muito importante para minha formação política e social.
Qual é sua avaliação sobre movimento sindical atualmente?
Os sindicatos sofreram um enfraquecimento muito grande após as reformas trabalhista e sindical. Mesmo assim, continuam sendo fundamentais para a defesa dos trabalhadores. A organização patronal é forte, e os trabalhadores precisam de representação para lutar por salários dignos e melhores condições de vida.
Como aconteceu sua entrada na política partidária?
Entrei no PT também em 1989, porque me identifiquei com as bandeiras de justiça social, combate à pobreza e defesa dos trabalhadores. Antes de ser vereador, participei de campanhas importantes, ajudando na eleição de lideranças do partido em Dourados. Em 2000, fui eleito vereador pela primeira vez.
O que contribuiu para sua eleição como vereador?
Foi uma soma de fatores. A igreja foi a base principal, porque me deu os valores que carrego até hoje. O movimento sindical me ensinou a organização e a luta coletiva. E o partido me proporcionou o espaço político para colocar essas ideias em prática. Tudo isso contribuiu para que as pessoas reconhecessem meu trabalho.
Qual é o principal legado dessa trajetória?
Acredito que é o compromisso com as pessoas. Tudo o que construí teve origem nos ensinamentos da igreja, passou pelo movimento sindical e pela atuação partidária. São mais de 30 anos dedicados à luta por justiça social, igualdade e melhores condições de vida para a população.
O senhor está no sétimo mandato como vereador. Qual foi a principal bandeira que carregou ao longo dessa trajetória?
A principal bandeira sempre foi a educação. Também atuei muito nas áreas do meio ambiente e das lutas sociais, especialmente em defesa das pessoas que mais precisam, como os povos indígenas e as famílias em situação de vulnerabilidade. Mas a educação é o que mais marcou minha atuação política.
Por que a educação se tornou sua principal causa?
Porque acredito que a educação transforma vidas. Ela transformou a minha. Quando uma criança tem acesso a uma escola de qualidade, ela tem perspectivas de futuro. Defendo a escola pública de qualidade para garantir oportunidades iguais para quem não tem condições de pagar uma educação privada.
Como o senhor avalia a situação da educação em Dourados?
Ainda precisamos avançar muito. Existem escolas com salas superlotadas, problemas de infraestrutura, falta de condições adequadas para professores e dificuldades no atendimento da educação especial. É necessário investir mais para garantir qualidade no ensino e melhores condições de trabalho para os profissionais.
Existe algum projeto específico de sua autoria que considera importante para a educação?
Mais do que projetos de lei, minha atuação foi uma luta constante pela ampliação da rede escolar e por mais investimentos. Dourados precisa de planejamento para acompanhar o crescimento populacional. Quando surgem novos bairros, já deveria haver previsão de escolas e estruturas educacionais.
Como o senhor avalia as últimas administrações municipais na área da educação?
A gestão anterior deixou muitas demandas sem solução e faltou planejamento estratégico. Já a atual administração demonstra intenção de enfrentar alguns problemas, mas ainda vejo muito discurso e pouco investimento efetivo. Os desafios são enormes e exigem ações mais concretas.
O que falta para melhorar áreas como educação e saúde?
Falta planejamento e busca por mais recursos. O município precisa dialogar com os governos estadual e federal, apresentar projetos e garantir investimentos. O orçamento precisa ser discutido de forma mais estratégica para atender às demandas da população.
O senhor costuma destacar ações dos governos petistas na educação. Quais considera mais importantes?
A criação da UFGD, dos Institutos Federais, do ProUni, do Fies e de diversos programas de acesso à educação. São políticas que ampliaram oportunidades para milhares de brasileiros e precisam ser fortalecidas.
O senhor fez críticas ao atual sistema de emendas parlamentares. Qual é sua posição?
As emendas parlamentares, da forma como funcionam hoje, acabam desorganizando o planejamento público. Recursos que deveriam estar previstos nos orçamentos da saúde, educação e assistência social acabam sendo distribuídos conforme interesses políticos e eleitorais. Isso gera desigualdades.
Como isso afeta os municípios?
Elias Ishy: Afeta porque algumas áreas recebem muito recurso enquanto outras ficam sem atendimento adequado. O planejamento deveria ser feito pelo Executivo, com critérios técnicos e pensando no conjunto da população, não em interesses eleitorais.
O senhor pretende levar esse debate para a campanha a deputado federal?
Sim. Quero discutir orçamento público, educação, saúde, meio ambiente e justiça social. Precisamos enfrentar essas distorções e construir políticas públicas que atendam a população de forma equilibrada e planejada.
O que motivou sua pré-candidatura à Câmara Federal?
Minha trajetória política, sindical e social me levou a esse desafio. Entendo que muitas das discussões sobre orçamento, educação, saúde e desenvolvimento passam pelo Congresso Nacional. Quero contribuir nesse debate e defender políticas públicas que garantam mais oportunidades para a população.
Qual é a principal razão para o senhor ter colocado seu nome à disposição do Partido dos Trabalhadores?
É uma construção ao longo da vida. O Brasil é muito desigual e precisa se desenvolver em todas as áreas, principalmente na área social, garantindo dignidade ao povo. O princípio bíblico fala de “vida em abundância”, mas isso não acontece no país hoje. Quero ir ao Congresso para fortalecer políticas que enfrentem essa realidade.
O que o motiva politicamente nesse projeto?
Tenho uma trajetória de sete mandatos como vereador e quero somar a um projeto coletivo. Não é um projeto pessoal. O país não pode depender de um salvador da pátria, precisamos de uma luta coletiva e de consciência de base.
Qual o papel da fé nessa decisão?
O Brasil é um país cristão, e a Bíblia me inspira. Ela fala de justiça, não de desigualdade ou violência. Isso me motiva a transformar princípios em prática política, buscando dignidade e paz.
Quais são suas principais bandeiras para o mandato federal?
Meio ambiente, saúde, moradia e educação. O Brasil precisa encarar a crise ambiental, como desmatamento, queimadas e reciclagem. Já participei de lutas importantes, como contra queimadas de canaviais, e quero avançar em ações práticas.
E na área ambiental, o que pretende priorizar?
Defesa do meio ambiente, fortalecimento da reciclagem, proteção do Pantanal e enfrentamento do aquecimento global. Precisamos de políticas reais, não apenas discurso.
O senhor também fala muito sobre agricultura familiar. Por quê?
Porque o alimento vem do campo. Precisamos fortalecer assistência técnica, acesso ao crédito e cooperativas para comercialização. Muitos jovens estão saindo da zona rural, e precisamos criar políticas para mantê-los no campo com dignidade.
Qual a sua visão sobre desenvolvimento regional?
Cada cidade tem sua vocação. É preciso ouvir a população, especialmente jovens e trabalhadores, para promover emprego, renda e desenvolvimento local sustentável.
O senhor também criticou o cenário político nacional. O que defende nesse ponto?
Defendo governabilidade. O Executivo precisa de apoio no Congresso para aprovar políticas públicas. Hoje há fragmentação, e isso dificulta avanços na saúde, educação e orçamento público.
Como vê o papel do parlamentar no uso de recursos públicos?
Sou crítico das emendas impositivas usadas como propaganda pessoal. O orçamento é público e deve servir ao povo, não à autopromoção de parlamentares.
E sobre desigualdade no estado e no país?
É um problema sério. O índice de desenvolvimento humano mostra deficiências em educação, saúde e renda. Mesmo estados ricos têm população em situação de vulnerabilidade. Precisamos mudar isso.
Qual mensagem final o senhor deixa a população?
Cada pessoa deve fazer sua parte. Precisamos de um país com paz, dignidade, educação e segurança. Quero contribuir para um Brasil mais justo, com diálogo, respeito às diferenças e compromisso coletivo.





