Durante mais de quarenta anos ele estudou a morte.
Não a morte biológica.
Não a interrupção dos batimentos cardíacos.
Nem a falência dos órgãos.
Estudou o instante seguinte.
O momento exato em que a alma se desprendia do corpo.
Acompanhou os últimos momentos dos próprios pais.
Depois os de parentes.
Depois os de amigos.
Depois os de desconhecidos.
Hospitais.
Asilos.
Casas.
Mosteiros.
Leitos improvisados.
Acumulou centenas de observações.
Leu relatos históricos.
Textos religiosos.
Estudos antropológicos.
Crônicas medievais.
Narrativas antigas preservadas em línguas mortas.
Consultou sacerdotes das mais diversas tradições.
Passou décadas perseguindo uma única pergunta.
O que acontece no instante do julgamento?
A resposta que encontrou o decepcionou.
Ou talvez o fascinasse.
Os relatos tradicionais falavam de tribunais celestes.
Anjos.
Acusadores.
Defensores.
Livros abertos.
Sentenças.
Mas nada daquilo correspondia ao que observava.
Porque ele observava.
E o que via era muito diferente.
O julgamento não durava horas.
Não durava minutos.
Não durava sequer segundos.
Era um clarão.
Uma confrontação.
Um único instante.
Algo tão rápido que escapava à percepção comum.
Mas que deixava marcas.
Ao longo dos anos ele aprendeu a reconhecê-las.
Havia pessoas que, imediatamente antes do último suspiro, adquiriam uma expressão impossível de descrever.
Os músculos relaxavam.
Os olhos pareciam contemplar algo invisível.
Um sorriso surgia.
Não um sorriso humano.
Mas algo próximo da paz.
Como se tivessem encontrado aquilo que procuravam.
Outros reagiam de maneira diferente.
Uma tensão repentina.
Uma sombra.
A testa se contraía.
O olhar endurecia.
Por vezes surgia algo semelhante ao medo.
Ou à raiva.
Ou ao espanto.
Durava menos de um segundo.
Mas estava lá.
Ele viu aquilo vezes demais para acreditar em coincidências.
E foi então que formulou sua teoria.
O julgamento não consistia em perguntas.
Não consistia em acusações.
Não consistia em defesa.
A alma era colocada diante de uma essência.
E a própria reação produzia a sentença.
Alegria ou retração.
Luz ou obscurecimento.
Amor ou rejeição.
A essência não julgava.
Apenas revelava.
O resto acontecia sozinho.
O problema era que ninguém sabia qual era essa essência.
Durante quarenta anos ele perseguiu essa resposta.
Sabia apenas que ela se manifestava através de algo.
Uma imagem.
Uma palavra.
Talvez um nome.
Talvez uma verdade.
Algo suficientemente poderoso para revelar, em uma única fração de segundo, aquilo que uma vida inteira conseguira esconder.
Foi pensando nisso que chegou ao seu próprio leito de morte.
Não sentia medo.
Sentia expectativa.
Porque, pela primeira vez, deixaria de ser observador.
E se tornaria observado.
Quando abriu os olhos, o quarto havia desaparecido.
Não havia hospital.
Não havia aparelhos.
Não havia dor.
Nem mesmo a sensação de possuir um corpo.
A primeira impressão foi de leveza.
A segunda foi de reconhecimento.
Ele estava ali.
Na ante-sala.
Durante décadas ouvira descrições fragmentadas daquele lugar.
Nenhuma coincidia exatamente com as outras.
Alguns falavam de um corredor.
Outros de um jardim.
Outros ainda de uma espécie de planície sem horizonte.
Agora compreendia a razão das divergências.
O lugar não possuía forma própria.
Parecia moldar-se àquilo que o observador era capaz de suportar.
Para ele, assumira a aparência de uma caverna.
Não uma caverna escura ou ameaçadora.
Mas uma espécie de abrigo silencioso.
Como se existisse fora do tempo.
Ou antes dele.
Sentiu uma alegria inesperada.
Não porque estivesse salvo.
Não porque tivesse recebido qualquer sinal favorável.
Mas porque sua teoria sobrevivera ao primeiro teste.
A antessala existia.
E ele estava nela.
Durante um instante, quase sorriu.
Pensou nos milhares de páginas que escrevera.
Nos debates.
Nas críticas.
Nos colegas que consideravam sua hipótese uma extravagância metafísica.
Agora sabia.
Tinha razão.
Mas a satisfação durou pouco.
Porque imediatamente compreendeu outra coisa.
O verdadeiro teste ainda não começara.
E toda a sua vida intelectual talvez não tivesse qualquer utilidade.
A pesquisa terminara.
A observação terminara.
Os livros haviam terminado.
Pela primeira vez não era o estudioso.
Era o objeto do estudo.
Sentiu algo próximo do medo.
Não um medo terrestre.
Não o medo da dor.
Nem o medo da morte.
Era o medo de descobrir algo sobre si mesmo.
Esperou.
Não sabia por quanto tempo.
Talvez segundos.
Talvez séculos.
O tempo parecia não possuir mais consistência.
Foi então que percebeu um movimento.
Uma névoa muito tênue começou a surgir diante dele.
Não vinha de lugar algum.
Não subia.
Não descia.
Não se deslocava.
Simplesmente aparecia.
Como se já estivesse ali desde sempre.
E, por um breve instante, viu dois rostos.
Pequenos.
Infantis.
Serenos.
Voltados um para o outro.
Não falavam.
Não se moviam.
Apenas existiam.
A visão foi tão rápida que ele chegou a duvidar dela.
Mas algo em sua memória despertou.
Uma lembrança antiga.
Muito antiga.
Como se tivesse visto aquela imagem em algum lugar.
Em algum livro.
Em alguma tradição.
Em alguma história.
Antes que pudesse recuperá-la, os rostos desapareceram.
A fumaça continuou crescendo.
E ele compreendeu.
A essência estava chegando.
Durante quarenta anos tentara imaginar aquele momento.
Acreditara que estaria preparado.
Não estava.
Porque agora não havia teoria.
Não havia interpretação.
Não havia mediação.
Apenas ele.
E aquilo que se aproximava.
A fumaça começou a condensar-se.
Lentamente.
Como tinta sendo derramada sobre a água.
Algo estava surgindo em seu interior.
Não uma imagem.
Não um rosto.
Não uma voz.
Letras.
Cinco letras.
Ele soube imediatamente.
Era aquilo.
Era sempre aquilo.
Os relatos estavam corretos.
As letras giravam dentro da fumaça.
Separavam-se.
Unificavam-se.
Mudavam de posição.
Como se procurassem uma ordem que sempre possuíram.
Seu coração, se ainda existia um coração, acelerou.
Pensou em todos os nomes pelos quais a humanidade tentara aproximar-se de D’us.
Pensou em atributos.
Pensou em misericórdia.
Pensou em justiça.
Pensou em sabedoria.
Pensou em verdade.
Pensou em todas as palavras que os homens haviam utilizado para tocar o indizível.
Talvez uma delas estivesse prestes a surgir.
Talvez todas.
Talvez nenhuma.
Mas havia uma certeza.
Dentro de poucos instantes ele descobriria aquilo que perseguira durante toda a vida.
E, pela primeira vez, percebeu que não desejava conhecer a resposta.
As cinco letras permaneceram suspensas.
Imóveis.
Definitivas.
E ele sabia.
Sabia que aquele era o instante.
Sabia que toda a sua vida convergia para aquele ponto.
Sabia que não seria julgado por aquilo que responderia.
Nem por aquilo que acreditava.
Nem por aquilo que aprendera.
A essência revelaria apenas aquilo que estava oculto dentro dele.
E sabia que sua reação diante daquela palavra seria sua sentença.
As cinco letras permaneceram suspensas.
Imóveis.
Definitivas.
E antes mesmo de conseguir pensar qualquer coisa, antes mesmo de formular uma palavra, antes mesmo de compreender o que sentia, leu:
JUDEU
(*) Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do IBRAM -Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É também doutor honoris causa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.




