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Eliel Kaiowá: ‘Os povos indígenas não são um problema para o desenvolvimento’

Juliel Batista –

Professor universitário, pesquisador, liderança indígena e pré-candidato a deputado federal pelo PT, Eliel Kaiowá defende que os povos originários ocupem cada vez mais espaços de decisão política no Brasil. Nascido na Aldeia Te’yikue, em Caarapó, o docente da Faculdade Intercultural Indígena (Faind), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), afirma que sua trajetória acadêmica e comunitária o credencia a representar uma parcela da população que, segundo ele, ainda enfrenta invisibilidade e preconceito nas esferas de poder.

Em entrevista ao FolhaCast, no Studio Nexus 5.0, Eliel fez uma ampla análise sobre as políticas públicas voltadas aos povos indígenas, avaliou os governos federal, estadual e municipal e apresentou as principais bandeiras que pretende defender caso sua candidatura seja confirmada. Para ele, houve uma retomada das ações voltadas às comunidades indígenas no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após um período de desmonte institucional. “O governo atual teve a característica de reconstruir políticas públicas que estavam paradas. Na educação, na cultura, na memória e em várias outras áreas houve essa retomada”, afirmou.

“O governo [Lula] atual teve a característica de reconstruir políticas públicas que estavam paradas. Na educação, na cultura, na memória e em várias outras áreas houve essa retomada”, afirmou.

Ao comentar a realidade local, o professor fez críticas à falta de planejamento e de diálogo com as comunidades indígenas por parte do poder público municipal. Segundo ele, muitas demandas básicas ainda dependem da intervenção do Ministério Público para serem atendidas. “A gente não vê com clareza qual é a política pública da Prefeitura de Dourados em relação às comunidades indígenas. Falta planejamento estratégico, compromisso político e uma visão de como tratar as aldeias com dignidade”, declarou.

Durante a conversa, Eliel também destacou que sua principal diferença em relação aos demais pré-candidatos está na vivência cotidiana dentro das comunidades indígenas. “Eu sou indígena Guarani Kaiowá, nasci na aldeia, estudei na aldeia e continuo vivendo na comunidade. Conheço as dificuldades, mas também quero mostrar o nosso valor e a nossa importância para a sociedade”, ressaltou. Para ele, a filosofia indígena do “bem viver”, ou tekoporã, pode oferecer respostas para desafios contemporâneos relacionados à crise ambiental, à desigualdade social e à qualidade de vida.

“Eu sou indígena Guarani Kaiowá, nasci na aldeia, estudei na aldeia e continuo vivendo na comunidade. Conheço as dificuldades, mas também quero mostrar o nosso valor e a nossa importância para a sociedade”

Defensor da preservação ambiental e da valorização dos saberes tradicionais, Eliel acredita que os povos indígenas têm contribuições importantes para o futuro do planeta. “Nós queremos mostrar que os povos originários têm conhecimento, têm filosofia, têm uma forma de viver que pode contribuir para toda a sociedade. O bem viver não é apenas para os indígenas, é uma proposta para todos”, afirmou. Ao encerrar a entrevista, reforçou a importância da representatividade indígena nos espaços de decisão e disse que sua pré-candidatura busca dar voz às comunidades que historicamente estiveram à margem do debate político.

Eliel Kaiowá: 'Os povos indígenas não são um problema para o desenvolvimento'
Entrevista no Studio Nexus 5.0

Assista a entrevista completa gravada no Studio Nexus 5.0:

A seguir, a entrevista:

Eliel Kaiowá – Sou professor da Faculdade Intercultural Indígena (Faind), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), nascido na Aldeia Te’yikue, em Caarapó. Minha trajetória sempre esteve ligada à educação. Fui o primeiro professor a alfabetizar alunos indígenas em minha língua materna no ensino fundamental. Sou formado em licenciatura intercultural indígena, mestre em Educação e doutor em Geografia Cultural. Hoje atuo na formação de professores indígenas e em projetos voltados às comunidades indígenas, especialmente na defesa dos direitos dos estudantes e das populações originárias.

“Fui o primeiro professor a alfabetizar alunos indígenas em minha língua materna no ensino fundamental”

Como o senhor consegue conectar a universidade às comunidades indígenas?

A pesquisa e a extensão têm papel fundamental nesse processo. Elas ajudam os jovens indígenas a retomarem e valorizarem seus conhecimentos tradicionais, promovendo o diálogo com os anciãos e fortalecendo a identidade cultural. A universidade deve ser uma ponte entre os saberes acadêmicos e os saberes tradicionais, contribuindo para o fortalecimento das comunidades.

Como pré-candidato a deputado federal, quais são suas principais bandeiras?

A educação é a principal delas. Eu venho de uma família muito humilde e tive oportunidades graças às políticas públicas de acesso à educação. Quero que outros jovens indígenas tenham as mesmas oportunidades. A educação é um instrumento de transformação social e pode ajudar a enfrentar problemas como vulnerabilidade, dependência química e exclusão social.

Como surgiu sua participação na política partidária?

Minha trajetória começou no movimento indígena e no movimento dos professores indígenas. Na década de 1990, lutávamos pelo reconhecimento da educação escolar indígena diferenciada. Com o tempo, percebi que era necessário ocupar espaços de decisão política para ampliar a defesa dos direitos indígenas. Hoje vejo como fundamental a presença de representantes indígenas nos legislativos municipal, estadual e federal.

“Com o tempo, percebi que era necessário ocupar espaços de decisão política para ampliar a defesa dos direitos indígenas”

Qual é sua posição sobre o marco temporal?

Somos contrários ao marco temporal. Entendemos que ele ignora toda a história dos povos indígenas, marcada por expulsões, massacres e violações de direitos. A demarcação de terras é uma reparação histórica e uma garantia da continuidade da existência dos povos indígenas. O território é a base da cultura, da memória e da identidade dos povos originários.

“A demarcação de terras é uma reparação histórica e uma garantia da continuidade da existência dos povos indígenas”

Como conciliar os interesses dos povos indígenas e do agronegócio em Mato Grosso do Sul?

Esse é um conflito histórico que exige diálogo. A demarcação não deve ser vista como um fator de aprofundamento das tensões, mas como parte da solução. É necessário que os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário assumam suas responsabilidades. Também precisamos combater a desinformação e o preconceito, mostrando à sociedade a riqueza cultural dos povos indígenas e promovendo uma convivência baseada no respeito às diferenças.

Um tema que ganhou destaque recentemente foi a falta de água na Reserva Indígena de Dourados. Como resolver esse problema?

A Reserva Indígena de Dourados completou cem anos e enfrenta desafios estruturais devido à alta densidade populacional. O problema principal é a indefinição sobre as responsabilidades de gestão entre os entes públicos. É necessário que governo federal, Estado, municípios e lideranças indígenas construam conjuntamente soluções permanentes para questões como abastecimento de água, saneamento e infraestrutura.

A reserva reúne diferentes povos, principalmente Guarani-Kaiowá e Terena. Como promover a convivência entre eles?

O caminho é o diálogo permanente. A Reserva Indígena de Dourados é um espaço intercultural, onde diferentes povos convivem e constroem relações familiares e sociais. Não existe solução simples para uma realidade tão complexa. Precisamos fortalecer mecanismos de diálogo e construir uma gestão intercultural, respeitando as especificidades de cada povo e garantindo direitos comuns, como acesso a serviços públicos de qualidade.

“A Reserva Indígena de Dourados é um espaço intercultural, onde diferentes povos convivem e constroem relações familiares e sociais”

Qual mensagem o senhor deixa para quem acompanha sua pré-candidatura?

Quero colocar minha trajetória de educador e liderança indígena a serviço da construção de políticas públicas que promovam inclusão, valorização cultural, educação e direitos para todos. Acredito no diálogo, na diversidade e na construção coletiva de soluções para os desafios do nosso Estado e do país.

Como o senhor avalia as políticas públicas voltadas aos povos indígenas nos governos municipal, estadual e federal?

Em 2023, tive a oportunidade de atuar no Ministério dos Povos Indígenas, no Departamento de Línguas e Memória, e isso me permitiu conhecer a realidade de diversos povos em todo o Brasil. Percebi a importância das políticas públicas para fortalecer as comunidades indígenas, suas culturas, línguas e modos de vida. Na minha avaliação, houve um desmonte dessas políticas no governo anterior, especialmente em áreas como educação, cultura e memória. Já no governo Lula, vejo um esforço de reconstrução dessas ações e programas voltados aos povos indígenas.

“Na minha avaliação, houve um desmonte dessas políticas no governo anterior, especialmente em áreas como educação, cultura e memória”

O senhor acredita que essas políticas chegam de forma efetiva às comunidades?

Nem sempre. Existem programas importantes do governo federal, como iniciativas na área da educação indígena, bolsas estudantis, incentivo à produção indígena e a criação da Universidade Indígena. Porém, para que esses benefícios cheguem às comunidades, é preciso a participação dos governos estaduais e municipais. Em muitos casos, essa articulação ainda é insuficiente.

E qual é a sua avaliação sobre a atuação da Prefeitura de Dourados em relação às comunidades indígenas?

Eu vejo uma ausência de políticas públicas mais claras e estruturadas. Falta planejamento, diálogo permanente e ações concretas voltadas às aldeias. Muitas demandas básicas, como manutenção de estradas e infraestrutura, acabam dependendo da intervenção do Ministério Público para serem resolvidas. É necessário um compromisso maior do município com as comunidades indígenas.

“Muitas demandas básicas, como manutenção de estradas e infraestrutura, acabam dependendo da intervenção do Ministério Público para serem resolvidas”

E o governo estadual?

O Estado possui programas voltados aos povos indígenas, mas grande parte dos recursos tem origem no governo federal. O que observo é que muitas vezes a participação federal não é reconhecida adequadamente. Além disso, faço uma crítica à forma como algumas reivindicações indígenas, especialmente relacionadas à retomada de territórios, são tratadas. Em determinadas situações, os indígenas acabam sendo vistos como criminosos quando lutam por direitos historicamente reconhecidos.

Como surgiu a ideia de disputar uma vaga na Câmara Federal pelo Partido dos Trabalhadores?

Minha trajetória política começou ainda na juventude, militando no PT e atuando junto às comunidades indígenas. Sempre me identifiquei com o partido porque considero que ele oferece espaço para que possamos debater nossas pautas e construir propostas. Depois de atuar no Ministério dos Povos Indígenas, comecei a refletir sobre como poderia contribuir ainda mais para o meu povo. Eu poderia permanecer apenas na carreira acadêmica, mas entendi que poderia colocar minha experiência e conhecimento a serviço de uma transformação maior.

” Sempre me identifiquei com o partido porque considero que ele oferece espaço para que possamos debater nossas pautas e construir propostas”

Como seu nome foi recebido dentro do partido?

Houve uma recepção positiva. A proposta começou a ser construída em diálogo com lideranças, movimentos sociais e grupos organizados, especialmente mulheres indígenas. Muitas pessoas passaram a enxergar a possibilidade de uma representação indígena mais próxima das comunidades. O processo ainda está em construção dentro do partido, mas tenho me colocado à disposição para ser avaliado tanto pelas comunidades quanto pela direção partidária.

O senhor acredita que existe espaço para uma candidatura indígena competitiva em Mato Grosso do Sul?

Sim. Nas últimas eleições, muitos indígenas sentiram falta de opções que representassem efetivamente suas pautas. Vejo que há uma demanda por novas lideranças e por uma política que dialogue diretamente com as comunidades. É um desafio grande, porque muitas pessoas estão descrentes da política, mas também é uma oportunidade de construir esperança e participação.

Quais serão as principais bandeiras da sua pré-candidatura?

A principal delas é a defesa dos direitos dos povos originários, especialmente o direito ao território. Também quero atuar fortemente na educação intercultural, valorizando os saberes tradicionais, as línguas indígenas e o diálogo com os conhecimentos científicos. Além disso, pretendo defender os direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e das populações mais vulneráveis.

A violência nas comunidades indígenas também será uma pauta?

Sem dúvida. Hoje enfrentamos problemas graves relacionados à violência, ao suicídio de jovens, ao uso de drogas e aos conflitos internos. Precisamos de políticas estruturais que promovam segurança sem recorrer apenas ao aumento da repressão. É necessário construir soluções que respeitem a cultura e a realidade dos povos indígenas.

“Precisamos de políticas estruturais que promovam segurança sem recorrer apenas ao aumento da repressão”

O senhor costuma falar sobre o conceito de “bem viver”. O que isso significa?

O “bem viver”, ou tekoporã, é um princípio central da nossa filosofia. Significa viver com dignidade, em paz, com acesso à alimentação saudável, educação, saúde, segurança e respeito à cultura. É uma visão que envolve também o cuidado com o território e com a natureza. Não existe bem viver em um ambiente degradado ou contaminado. Por isso, defendemos a preservação dos territórios e a produção de alimentos saudáveis.

Essa proposta dialoga apenas com os povos indígenas?

Não. O bem viver é um ideal que pode beneficiar toda a sociedade. Todos querem qualidade de vida, saúde, segurança e equilíbrio. O que defendemos é uma forma de desenvolvimento que respeite as pessoas, a cultura e o meio ambiente. Essa é a principal mensagem que queremos levar para o debate político.

“O “bem viver”, ou tekoporã, é um princípio central da nossa filosofia. Significa viver com dignidade, em paz, com acesso à alimentação saudável, educação, saúde, segurança e respeito à cultura”

Então o “bem viver” será o eixo central da sua atuação política?

Sim. O bem viver orienta todas as demais pautas: educação, território, segurança, proteção das mulheres, políticas sociais, saúde e sustentabilidade. É uma proposta de construção coletiva de uma sociedade mais justa, equilibrada e humana para todos.

O senhor é pré-candidato a deputado federal e ainda aguarda as definições partidárias. O que diferencia Eliel Kaiowá dos demais nomes que pretendem disputar uma vaga na Câmara Federal?

Primeiramente, sou indígena Guarani Kaiowá. Nasci, cresci e vivo na aldeia. Estudei na comunidade indígena, saí apenas para estudar e sempre retornei. Conheço de perto as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas, mas não quero falar apenas dos problemas. Também quero mostrar à sociedade o valor, a importância e a contribuição dos povos originários para o Brasil.

E de que forma essa experiência influencia sua atuação política?

Quero trazer para o debate político a filosofia indígena, especialmente o conceito do bem viver. Acredito que os conhecimentos tradicionais dos povos originários oferecem respostas importantes para muitos dos desafios que a humanidade enfrenta atualmente. Vivemos um momento de crise ambiental, mudanças climáticas, desmatamento e desequilíbrios sociais. Os povos indígenas têm conhecimentos que podem ajudar a construir alternativas para um futuro mais sustentável.

O senhor acredita que a visão indígena pode contribuir para além das aldeias?

Sem dúvida. O conhecimento indígena não beneficia apenas os povos originários. Hoje, grandes lideranças indígenas, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, alertam para os impactos do modelo de desenvolvimento que vem sendo adotado no mundo. Nós defendemos uma relação mais equilibrada com a natureza. Somos guardiões dos territórios e entendemos que é preciso pensar no futuro das próximas gerações.

“Hoje, grandes lideranças indígenas, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, alertam para os impactos do modelo de desenvolvimento que vem sendo adotado no mundo”

Como essa visão se traduz em propostas concretas?

Precisamos refletir sobre o tipo de cidade, de campo e de sociedade que queremos construir. Que tipo de desenvolvimento desejamos? Como preservar nossos rios, florestas e biomas? Essas são questões fundamentais. Precisamos começar agora a construir um futuro melhor para nossos filhos e netos. Essa é a essência da política que defendemos.

O senhor costuma afirmar que o modelo atual de desenvolvimento está esgotado. Por quê?

Porque os sinais estão em toda parte. O aquecimento global, as enchentes, os períodos de seca extrema e a degradação ambiental mostram que precisamos repensar nossa relação com a natureza. Os mais velhos das comunidades indígenas já alertavam sobre isso há muito tempo. Se continuarmos nesse ritmo, todos sofreremos as consequências, independentemente de origem ou classe social.

Em sua avaliação, qual é a principal mensagem da sua pré-candidatura?

É a construção do bem viver. Queremos conscientizar as pessoas de que existe outro caminho possível, baseado no respeito à natureza, à diversidade cultural e à qualidade de vida. Essa é a diferença que buscamos apresentar no debate político.

Para encerrarmos, qual mensagem o senhor deixa para quem acompanha esta entrevista?

Quero agradecer o espaço e dizer que os povos indígenas desejam contribuir cada vez mais para o bem viver de toda a sociedade. Claro que queremos dar voz às comunidades indígenas, especialmente às pessoas que enfrentam dificuldades nas aldeias e áreas de retomada, mas também queremos mostrar que os povos originários não são um problema para o desenvolvimento. Pelo contrário, temos muito a contribuir.

De que forma essa contribuição pode acontecer?

Precisamos ocupar espaços de decisão e gestão para ampliar a diversidade de ideias e perspectivas dentro das instituições. É importante que outras identidades também estejam representadas nos espaços de poder. Como professor indígena, vejo essa candidatura como uma oportunidade de apresentar à sociedade os conhecimentos do povo Guarani Kaiowá, nossa cultura, nossas plantas medicinais, nossos cantos, rezas e nossa forma de compreender o mundo.

“Como professor indígena, vejo essa candidatura como uma oportunidade de apresentar à sociedade os conhecimentos do povo Guarani Kaiowá”

E qual é o objetivo dessa proposta?

Queremos contribuir para uma política diferente, mais humana e mais conectada com a vida. Levar essa bagagem cultural para o debate público e ajudar a construir um futuro melhor para Dourados, para Mato Grosso do Sul e para o Brasil.

Eliel Kaiowá: 'Os povos indígenas não são um problema para o desenvolvimento'
Dionésio Terena, Eliel Kaiowá, Juliel Batista e Cris Terena/Foto: Rakely dos Santos
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