Uma empresa suspeita de envolvimento em um esquema milionário de desvio de dinheiro público funciona em uma pequena sala comercial, e divide espaço com uma clínica de fisioterapia e acupuntura. No último dia 1º de junho, o endereço foi alvo de busca e apreensão por policiais do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Enquanto procuravam por documentos da Complexsys Soluções, os agentes se depararam com uma maca no centro de um dos cômodos, com equipamentos terapêuticos e toalhas brancas.
A empresa entrou na mira da Polícia Civil por serviços prestados à ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), que foi contratada por R$ 108 milhões pela Secretaria de Inovação e Tecnologia (SMIT) da Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi na periferia da capital. A suspeita é de que parte desses recursos tenham sido desviados para custear o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Karina Ferreira da Gama, representante do ICB, é dona da produtora responsável pela obra, a Go Up Entertainment, e também foi alvo de mandados.


A Complexsys foi subcontratada pelo ICB, por R$ 8,6 milhões, para realizar uma parte das instalações dos pontos de Wi-Fi. No entanto, de acordo com o inquérito do DPPC, a ONG incluiu em sua prestação de contas uma nota fiscal de R$ 2 milhões emitida pela Complexsys, em fevereiro de 2026, mas que acabou sendo cancelada pela própria empresa meses depois. Um relatório de investigação levanta a suspeita de que “o documento teria sido fraudulentamente utilizado pelo Instituto Conhecer Brasil para justificar o emprego de verbas públicas”.
Ao chegar à sede da Complexsys, localizada em um prédio comercial na Rua Vergueiro, os policiais foram recebidos por André Feldman, representante das empresas. Segundo os policiais, o empresário permitiu a entrada da equipe e auxiliou com informações.


“Trata-se de uma sala comercial com dois espaços, onde em um havia uma maca de atendimento de fisioterapia e outra utilizada como escritório. Todo o imóvel foi verificado, sendo materiais arrecadados no espaço destinado ao escritório”, afirma o policial que assina o relatório de investigação sobre o resultado da busca.
Ao todo, foram apreendidos dois notebooks, dois pen drives, um celular de modelo Iphone, além de uma série de documentos relativos à empresa.
Questionada pelo Metrópoles sobre a clínica no mesmo endereço das empresas, Debora Feldman, esposa de André, disse que ela mesma é responsável pelos tratamentos. “Eu faço a fisioterapia e a acupuntura também. […] A clínica e as empresas funcionam juntas”, afirmou.
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A reportagem também questionou a defesa do casal sobre as suspeitas envolvendo o contrato. Mas, até o momento da publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.
Em nota, a Complexsys Soluções Integradas Ltda. esclareceu que acompanha com serenidade a investigação atualmente conduzida pelas autoridades competentes e que é mera prestadora de serviços da OSC Instituto Conhecer Brasil, cuja presidente é Karina Ferreira da Gama. A empresa reafirmou que suas atividades empresariais sempre foram desenvolvidas em estrita conformidade com a ordem jurídica, inclusive com emissão de notas fiscais, observando rigorosos padrões de legalidade, governança e controle interno e efetivamente prestação de serviços.
“Importa registrar que inexistem, até o presente momento, conclusões definitivas aptas a justificar qualquer juízo de responsabilidade em desfavor da empresa a que prestamos serviços técnicos, razão pela qual se impõe a observância dos postulados constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência. A empresa permanece à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários, confiante de que os fatos serão devidamente elucidados no âmbito das garantias constitucionais e legais aplicáveis. Por cautela e respeito à própria investigação, manifestações adicionais serão realizadas exclusivamente por meio de seus representantes legais”, complementou o texto.
Complexsys, ICB e SPTuris
Até 27 de março de 2025, Eduardo Ferreira Franco, atual conselheiro do Instituto Conhecer Brasil (ICB), era sócio da Complexsys ao lado de André Feldman. O atual gerente de eventos da São Paulo Turismo (SPTuris), Rodrigo Raveli, também foi sócio da empresa, deixando o posto anos antes, em 25 de abril de 2022.
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Como revelado pelo Metrópoles, sob a gestão de Raveli, o órgão ligado à prefeitura da capital bancou R$ 3,5 milhões em despesas de uma feira gospel e R$ 292 mil em infraestrutura de um show do cantor Conrado, ambos organizados por uma outra ONG ligada a Karina Gama, a Academia Nacional de Cultura (ANC).
Eduardo Franco é, atualmente, sócio de duas empresas de eventos: a Vamoz Comunicação e a HCamargo (HCG Projetos e Cenografia na razão social). Desde que ele passou a atuar em ambas, no fim de 2023, as empresas passaram a ser seguidamente contratadas pela SPTuris e pelo próprio ICB.
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O Metrópoles mostrou que, de R$ 750 mil de uma emenda, o ICB pagou R$ 445 mil às duas empresas do seu conselheiro. Chama a atenção o fato de a Vamoz ser uma empresa de pequeno porte que, em janeiro, ainda emitia sua 42ª nota fiscal.
Na SPTuris, só a HCamargo firmou R$ 8,5 milhões em sete contratos para montagem de cenografia em eventos bancados pela própria SPTuris. A Vamoz, por sua vez, foi contratada 10 vezes pela SPTuris, em acordos que somam R$ 470 mil.
Operação Wi-Fi
A operação Wi-Fi, realizada pela Polícia Civil, aponta que a Prefeitura de São Paulo pagou um valor 230% maior do que o estipulado no mercado para o Instituto Conhecer Brasil (ICB) em um contrato referente à instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades periféricas da capital paulista.
Segundo a investigação, enquanto a empresa municipal Prodam cobrava R$ 306, mais R$ 200 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
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Em nota enviada ao Metrópoles, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o custo estimado na parceria com o instituto para 2026 corresponde a R$ 1.280 por ponto/mês, valor que alega ser “significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022” que, de acordo com a administração municipal, girava em torno de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.
Entenda as suspeitas
- Falta de capacidade técnica: a polícia apontou que o chamamento público teve a participação exclusiva do ICB, uma entidade considerada sem experiência no setor de telecomunicações, com atuações somente em feiras de livros e eventos religiosos.
- Superfaturamento: enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306,00 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800,00 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
- Descumprimento de metas e fraude em aditivos: a entidade instalou apenas 3.200 dos 5.000 pontos previstos. Para ocultar a demora, foram celebrados três termos aditivos em intervalos de poucos dias.
- Pagamentos indevidos e antecipados: a administração municipal teria realizado a antecipação de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Foram identificados repasses relativos a 3.200 pontos quando, na realidade, apenas seis funcionavam no período.
(Informações Metrópoles)




