Juliel Batista –
A deputada estadual Lia Nogueira (PSDB), pré-candidata à reeleição em 2026, foi a primeira entrevistada da série Especial Eleições 2026 do FolhaCast, podcast da Folha de Dourados, gravado no Studio Nexus 5.0.
Durante quase uma hora de conversa, a parlamentar abordou sua trajetória no jornalismo, a entrada na política, os desafios enfrentados nos mandatos de vereadora e deputada estadual, além de fazer análises sobre o cenário eleitoral sul-mato-grossense.
Logo no início da entrevista, Lia relembrou sua carreira na comunicação e explicou a origem do apelido que a tornou conhecida em Mato Grosso do Sul. A deputada afirmou que o nome “Bichão do MS” surgiu durante sua atuação no jornalismo policial, quando se destacava pela forma firme de abordar suspeitos e denunciar problemas enfrentados pela população. “Eu era muito de enquadrar bandido. E aí perguntavam: ‘Ele está achando que é o bichão?’ Foi daí que surgiu o apelido de Bichão do MS”, contou.
Entre os momentos mais polêmicos da entrevista, Lia fez duras críticas ao sistema político e ao financiamento de campanhas eleitorais. Ao relatar sua primeira candidatura, em 2016, afirmou que é impossível disputar uma eleição sem estrutura mínima. “Essa história de que alguém faz campanha sem dinheiro é mentira. Campanha nenhuma você faz sem o mínimo do mínimo. Quem fala isso está mentindo”, declarou. A parlamentar também criticou a utilização de mulheres apenas para cumprir cotas partidárias. “Eu não sou cota. Eu sou força, coragem e representatividade”, afirmou.
“ A parlamentar também criticou a utilização de mulheres apenas para cumprir cotas partidárias. “Eu não sou cota. Eu sou força, coragem e representatividade”
Outro trecho que chamou atenção foi quando relembrou o período em que exerceu mandato como vereadora de oposição em Dourados. Segundo ela, as fiscalizações na área da saúde resultaram em perseguições políticas e tentativas de enfraquecimento de sua atuação parlamentar. “Eu apanhava de manhã, de tarde e de noite. A população me defendia, mas o sistema queria se livrar de mim”, disse. Lia afirmou ainda que decidiu disputar uma vaga na Assembleia Legislativa também como forma de escapar do ambiente de desgaste político vivido na Câmara Municipal.
“Eu apanhava de manhã, de tarde e de noite. A população me defendia, mas o sistema queria se livrar de mim”
Ao falar sobre a eleição de 2026, a deputada demonstrou confiança na busca pela reeleição, mesmo diante do cenário de enfraquecimento partidário após a saída de lideranças do PSDB. “Eu não tenho medo do processo eleitoral. Estou pronta. Tenho trabalho prestado, tenho entregas e tenho consciência do que produzi nesses quatro anos”, afirmou. Lia também manifestou preocupação com a representatividade feminina na Assembleia Legislativa e alertou para o risco de redução da presença de mulheres no Parlamento estadual. “Nós vamos ter uma Assembleia sem nenhuma mulher? Ou com apenas uma mulher? Isso é um debate que precisa ser feito”, destacou.
“Eu não tenho medo do processo eleitoral. Estou pronta. Tenho trabalho prestado, tenho entregas e tenho consciência do que produzi nesses quatro anos”
A entrevista completa com a deputada estadual Lia Nogueira, realizada no FolhaCast dentro da cobertura Especial Eleições 2026 da Folha de Dourados, está disponível em nosso canal no YouTube. Os leitores podem acompanhar a íntegra da conversa, com todas as análises, posicionamentos e relatos apresentados pela parlamentar, acessando o vídeo por meio do link abaixo. A seguir, publicamos uma versão resumida da entrevista em formato de perguntas e respostas, destacando os principais temas abordados durante o bate-papo.
Leia a entrevista:
Folha de Dourados – A senhora é formada em jornalismo e em direito. Conte um pouco por que também desse “Bichão do MS” e como foi construído esse nome durante a sua trajetória.
Lia Nogueira – Primeiro, pode tirar o senhora, né? Pode tirar o senhora porque eu sou uma pessoa do povo, uma pessoa acessível. Eu gosto de manter essa minha essência. Eu sou jornalista de formação e também de experiência. Comecei no rádio e na televisão antes mesmo da graduação. Me formei primeiro em Direito e depois em Jornalismo. Passei pelas principais emissoras de Mato Grosso do Sul, tanto na televisão quanto no rádio.
Foi justamente no jornalismo policial que surgiu o apelido “Bichão do MS”. Eu fazia muitas reportagens de polícia, cobrava, enquadrava bandido e tinha um jeito muito firme de trabalhar. Eu costumava dizer: “Esse aí está achando que é o bichão?”. O apelido acabou pegando e ficou conhecido em todo o Estado.
“Esse aí está achando que é o bichão?”
A senhora acredita que esse seu jeito influenciou para que a população se identificasse contigo?
Com certeza. Eu sempre tive um jeito muito popular, muito próximo das pessoas. No jornalismo comunitário, quando eu chegava aos bairros, era diferente. Eu entrava na lama, mostrava o problema, cobrava solução. As pessoas percebiam que eu tinha empatia e que realmente queria ajudar. Acho que foi isso que criou essa identificação.
Eu entrava na lama, mostrava o problema, cobrava solução.
Houve algum episódio específico que fez a senhora entrar na política?
Não foi um episódio, foram vários. Principalmente quando eu trabalhava no rádio. Eu fazia campanhas sociais, ajudava famílias, cobrava melhorias para bairros, denunciava problemas na saúde. Eu percebi que fazia política sem saber. Mas chegou um momento em que eu entendi que, como jornalista, eu conseguia denunciar. Como política, eu poderia ajudar a resolver. Foi aí que decidi entrar nessa “bagaça”, como eu costumo brincar.
(…) chegou um momento em que eu entendi que, como jornalista, eu conseguia denunciar. Como política, eu poderia ajudar a resolver.
Como foi a experiência da sua primeira eleição, em 2016?
Foi muito difícil. Eu tinha o que eu chamo de “kit favela”. Pouquíssimos recursos, poucos cabos eleitorais e muita disposição. Fiz uma campanha corpo a corpo e fiquei por pouco mais de 90 votos fora da Câmara. Foi uma derrota muito amarga. Entrei em depressão, fiquei dias sem conseguir voltar ao trabalho. Mas também aprendi muito.
Entrei em depressão, fiquei dias sem conseguir voltar ao trabalho. Mas também aprendi muito.
Na sua visão, o que é necessário para disputar uma eleição?
Lia Nogueira: Popularidade e carisma ajudam, mas não bastam. Você precisa de grupo político e de uma estrutura mínima. E vou falar uma coisa que muita gente não gosta de ouvir: essa história de que alguém faz campanha sem dinheiro é mentira. Não existe campanha sem o mínimo do mínimo de estrutura. Isso é hipocrisia.
Não existe campanha sem o mínimo do mínimo de estrutura. Isso é hipocrisia.
Em 2020, a senhora foi uma das principais vozes da oposição em Dourados. Como foi esse período?
Foi um período muito intenso. Eu fiscalizava principalmente a saúde. Quando você mexe em determinados interesses, não vêm borboletas, vêm marimbondos. Sofri perseguições, processos e tentativas de cassação. Meu nome começou a aparecer em todo o Estado justamente por causa dessas fiscalizações.
Sofri perseguições, processos e tentativas de cassação.
E a transição para a Assembleia Legislativa?
É completamente diferente. Como vereadora, você fiscaliza o Executivo municipal. Como deputada, além da fiscalização, você tem a responsabilidade de buscar recursos, apresentar projetos e trabalhar por todo o Estado. Hoje meu papel é trazer investimentos para Dourados e para os demais municípios de Mato Grosso do Sul.
Hoje meu papel é trazer investimentos para Dourados e para os demais municípios de Mato Grosso do Sul.
Quais são hoje as principais bandeiras de seu mandato?
A saúde continua sendo uma bandeira importante. Mas duas outras áreas ganharam muita força: a defesa das mulheres e das famílias atípicas. Eu sou mãe de um filho autista e passei a atuar fortemente nessa causa. Também tenho trabalhado muito no enfrentamento à violência contra a mulher.
A saúde continua sendo uma bandeira importante. Mas duas outras áreas ganharam muita força: a defesa das mulheres e das famílias atípicas.
O que motivou sua atuação na causa das famílias atípicas?
Uma mãe me procurou e perguntou por que eu não fazia nada pelos autistas. Aquilo me chocou. Eu sempre tive receio de expor meu filho, mas percebi que poderia ajudar milhares de famílias. A partir daí apresentei projetos, como o desconto no IPVA para famílias com pessoas autistas e com síndrome de Down. Hoje recebo relatos emocionantes de mães agradecendo pelo trabalho.
Uma mãe me procurou e perguntou por que eu não fazia nada pelos autistas. Aquilo me chocou. Eu sempre tive receio de expor meu filho, mas percebi que poderia ajudar milhares de famílias.
Você pretende manter essas bandeiras em um eventual novo mandato?
Vou continuar com elas. Saúde, defesa das mulheres e famílias atípicas são compromissos que fazem parte da minha história e da minha atuação política.
Como a senhora avalia o cenário eleitoral de 2026, especialmente diante das mudanças ocorridas no PSDB?
Eu não tenho medo do processo eleitoral. Nunca tive nada fácil na vida. Sempre precisei conquistar meu espaço. Tenho orgulho de continuar no PSDB e acredito numa política de equilíbrio. Não gosto dos extremos. Acho que a boa política é aquela que entrega resultados para quem está lá na ponta.
Eu não tenho medo do processo eleitoral. Nunca tive nada fácil na vida. Sempre precisei conquistar meu espaço.
Existe preocupação com a representatividade feminina na Assembleia Legislativa?
Sim, muita preocupação. Hoje somos apenas três mulheres entre 24 deputados. Existe o risco de redução dessa representação. Precisamos discutir isso seriamente. Somos maioria da população e do eleitorado. É preciso ampliar a presença feminina nos espaços de poder.
Existe o risco de redução dessa representação. Precisamos discutir isso seriamente.
Que mensagem a senhora deixa para o público?
Quero agradecer o espaço e dizer que estou pronta para mais um processo eleitoral. Tenho consciência do trabalho que fiz e das entregas que realizei. Mas também entendo que política não é profissão. Se não houver reeleição, minha vida continua. Sou jornalista, sou bacharel em Direito e vou continuar ajudando as pessoas, como sempre fiz, com ou sem mandato.
(…) vou continuar ajudando as pessoas, como sempre fiz, com ou sem mandato.




