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Madame Bovary: o naufrágio do desejo e a liturgia do vazio, um breve ensaio em perspectiva bernardelliana

Por Ana Maria Bernardelli –

         Madame Bovary, publicado em 1857 por Gustave Flaubert, é daqueles romances que não só contam uma história, mas também desnudam uma civilização; não é apenas a tragédia íntima de uma mulher provinciana,

 uma autópsia da modernidade sentimental. Flaubert percebeu, muito antes dos sociólogos e filósofos do século XX, que o ser humano começava a adoecer de imaginação. Emma Bovary não sofre pela ausência do amor: sofre pelo excesso das fantasias que construiu acerca dele. E talvez esteja justamente aí a aterradora contemporaneidade do romance.

         Emma não ama homens reais. Ama atmosferas. Ama cenários emocionais. Ama aquilo que leu nos romances sentimentais, nos folhetins açucarados, nos ideais aristocráticos que alimentavam o imaginário feminino da época. Sua tragédia nasce do confronto brutal entre literatura idealizada e vida concreta.

         Flaubert compreendeu algo genial: o romantismo, quando deslocado da arte para a existência cotidiana, pode tornar-se uma forma refinada de autodestruição.

         Emma é uma personagem faminta de transcendência vivendo num mundo banal. O marido, Charles Bovary, é talvez um dos personagens mais mal compreendidos da literatura. Frequentemente tratado como medíocre, ele representa algo muito mais profundo: a simplicidade humana incapaz de competir com os delírios do ideal absoluto. Charles ama Emma com sinceridade desarmante, quase humilde. Mas a sinceridade nunca bastou para alguém intoxicado pelo sublime.

         Eis uma chave interpretativa essencial:

         Emma não deseja exatamente amantes; deseja escapar da materialidade da existência. Cada relação amorosa torna-se tentativa metafísica de fuga. Rodolphe encarna o erotismo aristocrático; Léon, a sensibilidade literária e juvenil. Contudo, ambos fracassam porque ninguém consegue sustentar eternamente o papel imaginário que Emma projeta sobre eles. A realidade sempre invade a cena — e a realidade, em Flaubert, possui uma crueldade silenciosa.

         Há momentos em que Madame Bovary parece antecipar pensadores como Jean Baudrillard ou Guy Debord. Emma vive mediada por representações. Ela consome símbolos de felicidade antes mesmo de experimentar a felicidade. Sua subjetividade é construída por imagens culturais.

         Não é exagero afirmar que Emma Bovary constitui uma pré-figuração da sociedade contemporânea da aparência, da performance afetiva e da insatisfação permanente.

         Ela deseja viver “como nos romances”.

         Hoje muitos desejam viver “como nas redes”.

         A diferença é apenas tecnológica.

         Outro aspecto extraordinário reside na técnica narrativa flaubertiana. Flaubert praticamente revoluciona o romance moderno através do discurso indireto livre; um recurso pelo qual a voz do narrador mistura-se à consciência da personagem sem aviso explícito. Isso cria uma ambiguidade magistral: muitas vezes não sabemos se determinada ironia pertence ao narrador ou à própria Emma. O resultado é um texto de densidade psicológica inédita para sua época.

         Flaubert escrevia com obsessão quase litúrgica. Buscava o mot juste  “a palavra exata”. Passava dias reescrevendo frases. Há relatos de que lia seus textos em voz alta no chamado gueuloir, espaço onde testava musicalidade, ritmo e respiração das frases. Sua literatura não pretendia apenas narrar; pretendia alcançar precisão escultórica.

         Curiosamente, o próprio Flaubert declarou:

         “Madame Bovary c’est moi.”

         A frase nunca significou identificação biográfica direta, mas reconhecimento de algo mais profundo: Emma representa a parte humana eternamente insatisfeita, sedenta de absoluto, incapaz de aceitar os limites do real.

         Sob perspectiva bernardelliana, Emma Bovary pode ser vista como a grande sacerdotisa da incompletude moderna. Ela transforma o desejo em religião. Contudo, diferentemente dos místicos, que atravessam o desejo rumo ao transcendente, Emma permanece aprisionada na superfície estética das emoções. Confunde intensidade com plenitude.

         E aqui reside uma leitura profundamente contemporânea.

         Vivemos uma era em que sentir intensamente tornou-se quase obrigação cultural. Relações precisam ser arrebatadoras, experiências precisam ser extraordinárias, existências precisam parecer cinematográficas. O cotidiano passou a ser percebido como fracasso. Emma Bovary talvez tenha sido a primeira grande vítima literária dessa tirania do encantamento contínuo.

         A cena de sua morte permanece uma das mais violentas da literatura ocidental. O arsênico não destrói apenas o corpo de Emma; destrói uma ilusão civilizatória. Flaubert parece dizer que nenhum ser humano sobrevive indefinidamente ao abismo entre fantasia absoluta e realidade concreta.

Mas reduzir Madame Bovary a uma condenação moral seria erro gravíssimo.

Flaubert não pune Emma. Tampouco a absolve. Ele a observa com uma precisão quase cirúrgica, misto de ironia, compaixão e horror. Sua genialidade está justamente em recusar simplificações. Emma é simultaneamente ridícula e sublime, egoísta e profundamente humana.

         Talvez porque todos carreguemos algo dela.

         Todos, em alguma medida, já sofremos pela distância entre o mundo imaginado e o mundo possível.

         E, quem sabe, seja por isso que Madame Bovary continue tão devastador: porque Flaubert percebeu que o maior drama humano não é perder o amor…mas descobrir que nenhuma realidade consegue habitar integralmente os sonhos que criamos.

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