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O jardim daqueles que não suportam dívidas afetivas

(A incapacidade humana de conviver serenamente com aquilo que um dia nos salvou, nos acolheu ou nos ensinou a florescer).

O jardineiro costumava dizer que as plantas cresciam melhor quando não eram observadas o tempo inteiro.

Dizia isso sem amargura, quase com ternura. Como quem aprendera, depois de muitos anos, que a vida possui ritmos que não suportam excesso de vigilância. Algumas flores se abrem apenas no silêncio. Algumas raízes trabalham melhor quando ninguém lhes exige pressa.

O jardim começara pequeno.

No início havia apenas algumas árvores antigas, um banco de pedra gasto pelo tempo e um homem ainda jovem que acreditava sinceramente que cultivar beleza era uma forma legítima de permanecer humano. Vieram então os primeiros visitantes.

Pessoas cansadas, inquietas, feridas por diferentes formas de solidão. Uns chegavam pela curiosidade. Outros pelo perfume das flores. Alguns permaneciam porque, pela primeira vez em muito tempo, encontravam um lugar onde podiam descansar sem precisar explicar quem eram.

O jardineiro nunca perguntou muito.

Oferecia água, sombra, sementes, silêncio.

E talvez tenha sido justamente isso que tornou o jardim tão vivo. As pessoas não eram recebidas como público. Eram recebidas como presença.

Com os anos, o lugar cresceu.

Novos canteiros surgiram. Árvores foram trazidas de regiões distantes. Havia espécies frágeis, difíceis de manter, que exigiam cuidado diário. Havia outras que cresciam quase sozinhas, como se já conhecessem o caminho da terra.

Os visitantes passaram a voltar com frequência. Alguns aprenderam poda. Outros aprenderam enxertia. Outros simplesmente aprenderam a permanecer.

O jardineiro gostava de vê-los crescer.

Sentia orgulho quando alguém começava a reconhecer o tempo das estações, quando aprendia a distinguir uma raiz saudável de uma raiz doente, quando deixava de arrancar flores por ansiedade e passava a compreender que certas coisas só amadurecem lentamente.

Durante muitos anos, acreditou que aquele era o verdadeiro sentido do jardim.

Não as árvores.

Não as flores.

Mas a transformação silenciosa das pessoas.

Foi apenas mais tarde que começou a perceber pequenas alterações na atmosfera do lugar.

Nada abrupto.

Uma mudança de temperatura raramente acontece de um dia para o outro.

Primeiro vieram os gestos mínimos. Pessoas reorganizando vasos sem consultá-lo. Visitantes antigos conduzindo recém-chegados pelo jardim como se fossem os proprietários afetivos daquele espaço. Pequenas ironias sobre os métodos antigos de cultivo. Certo constrangimento quando o jardineiro se aproximava de conversas que antes silenciavam em sinal de respeito e agora apenas diminuíam o tom.

Ele observava tudo em silêncio.

Não porque não compreendesse, mas porque compreendia até demais.

Com o tempo, aprendeu que algumas pessoas suportam quase tudo, menos a sensação de terem precisado de alguém um dia.

Enquanto estavam cansadas, aproximavam-se da sombra.

Enquanto buscavam direção, ouviam atentamente os conselhos sobre poda, raízes e paciência.

Enquanto ainda não conheciam os próprios caminhos, admiravam profundamente aquele que parecia conhecer o ritmo secreto das estações. Mas havia um momento delicado, quase imperceptível, em que admiração começava a se transformar em outra coisa.

Comparação.

Depois desconforto.

Depois disputa.

Talvez a gratidão prolongada fosse pesada demais para certas pessoas. Talvez competir fosse emocionalmente mais fácil do que agradecer.

O jardineiro não os odiava por isso.

Havia tristeza, mas não ódio.

Porque sabia que muitos daqueles que agora pareciam distantes haviam chegado ao jardim sinceramente encantados. O afeto, no começo, era real. O problema é que algumas pessoas não conseguem permanecer próximas daquilo que um dia lhes ofereceu abrigo sem sentir, em algum momento, a necessidade de provar que já não precisam mais dele.

E poucas coisas são mais difíceis para o orgulho humano do que conviver com testemunhas do próprio desamparo antigo.

Talvez por isso alguns passassem a evitá-lo.

A presença do jardineiro recordava versões deles mesmos que desejavam esquecer. Tempos de insegurança, medo, desorientação. E era curioso perceber como certas pessoas, ao florescerem, começavam lentamente a ressentir-se justamente da terra que lhes permitira crescer.

Numa tarde de inverno, enquanto recolhia folhas secas perto das árvores maiores, ouviu um visitante mais jovem dizer a outro, sem perceber sua proximidade:

“O jardim já não precisa dele como antes.”

A frase não o feriu imediatamente.

Algumas dores levam tempo para alcançar o coração.

Naquela noite, caminhou sozinho entre os canteiros já escuros. Tocou os troncos antigos, observou as raízes elevando discretamente a terra em alguns pontos e sentiu, pela primeira vez em muitos anos, um cansaço difícil de nomear.

Não era o medo de perder o jardim.

Era algo mais silencioso.

A percepção de que certas pessoas amam a luz apenas enquanto permanecem iluminadas por ela. Depois de algum tempo, passam a desejar ocupar o lugar da chama.

Sentou-se então no velho banco de pedra onde tudo começara.

E ali compreendeu algo que nunca havia conseguido formular completamente.

O oposto do amor talvez não fosse o ódio.

Talvez fosse o constrangimento.

Porque o ódio ainda reconhece importância. O constrangimento, não. Algumas pessoas começam a se incomodar simplesmente com a existência daquele que conheceu suas fragilidades antes de sua força.

Ficou longo tempo imóvel.

Depois levantou-se devagar e começou a regar as plantas mais novas.

Na manhã seguinte, os portões do jardim permaneceram abertos.

(*) Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Ex-presidente do IBRAM -Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É também doutor honoris causa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

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